As vacinas salvam milhões de vidas e são imprescindíveis.Mas nos últimos anos, nas sociedades ocidentais, surtos de doenças que julgávamos controladas despertaram-nos para uma realidade difícil de entranhar: há pais que não vacinam os filhos. Um optimista dirá que estes pais são ignorantes negligentes que devemos perdoar com tolerância cristã, pois não sabem o que fazem, e que para os trazer à razão bastará explicar-lhes a ciência. Mas um pessimista dirá que são ignorantes doutrinados, com a tal “intensidade apaixonada” de que fala Yeats num famoso poema, ou que serão ainda piores: egoístas de cálculo curto que se aproveitam da imunidade de grupo mas acabam por a pôr em risco, com consequências potencialmente dramáticas para os imunodeprimidos e quem não pode ser vacinado por ser demasiado novo ou alérgico a componentes de vacinas, e ainda estupidamente trágicas, se quem vier a sofrer e morrer forem os próprios filhos daqueles que recusaram as vacinas.

Como se explica que, depois de feitos extraordinariamente bem-sucedidos da ciência e de políticas de saúde pública de grande escala, como a erradicação da varíola e as campanhas de vacinação contra a poliomielite, ainda haja dúvidas quanto à utilidade das vacinas ou uma falta de civismo e solidariedade de que resultam surtos de sarampo em Portugal, como o que em 2017 fez uma vítima mortal e o de há poucas semanas, que por sorte não matou ninguém?

Desenganem-se aqueles que pensam que a oposição às vacinas é uma moda nova. Em 1802, foi publicada uma caricatura inglesa curiosíssima em que pequenas vaquinhas grotescas irrompem da pele daqueles que Edward Jenner havia vacinado contra a varíola. O que Jenner fez foi melhorar uma técnica ancestral, chamada variolação, então recente na Europa mas já praticada havia séculos em várias regiões do mundo, em que se induzia a imunidade por inoculação do pus na pele ou inalação das pústulas pulverizadas de um doente infectado com varíola humana. A variolação era eficaz mas muito pouco segura, uma espécie de roleta russa, ainda que com probabilidades mais favoráveis do que as de quem joga com uma bala no tambor do revólver, pois 2-3% das pessoas morriam de varíola ou outras doenças devido ao procedimento. Jenner inspirou-se em relatos populares — dizia-se que quem ordenhava as vacas e contraía a varíola bovina (uma doença benigna) ficava protegido contra a terrível varíola humana – e decidiu usar como inóculo o pus dos doentes de varíola bovina (daí as vaquinhas da caricatura) para conseguir uma imunização contra a varíola humana igualmente eficaz mas muito mais segura.

A esta nova técnica, em que se procura mobilizar as nossas defesas naturais para que o corpo crie uma memória imunitária mas com o cuidado de não induzir a doença de que nos pretendemos proteger, chamou-se vacinação, do latim “vaccinus”, que significa “derivado da vaca” – a história desta técnica é fascinante e só resisto a contá-la aqui com todos os detalhes sumarentos porque tal já foi muito bem feito nas páginas do Observador. Friso apenas que a resistência às vacinas foi recorrente,sendo a prática vista como “bárbara” e “ímpia”.

Devemos reconhecer, mesmo hoje, que introduzir voluntariamente no nosso corpo pus, qualquer outra substância proveniente de um doente, um agente patogénico, ainda que morto ou enfraquecido, ou proteínas e toxinas dele derivadas, vai contra a intuição e o senso comum. Mas também é o senso comum que nos diz que o Sol gira à volta da Terra.

Ora, a ciência é uma luta permanente contra o senso comum. Foi graças ao raciocínio hipotético-dedutivo de quem em tempos remotos associou um episódio de infecção à aquisição de imunidade, à criatividade de Jenner, que tornou a imunização mais segura, inventando a vacinação, e ao aumento crescente da literacia científica e de práticas médicas e de saúde pública baseadas nos resultados (na evidência), que a vacinação foi ganhando aceitação crescente. Porque as provas de que as vacinas funcionam são avassaladoras há muitas décadas. Por exemplo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, as vacinas evitaram pelo menos 10 milhões de mortes no mundo entre 2010 e 2015 e a poliomielite está hoje presente em apenas três países. Em Portugal, no período de 1956 a 1965, antes da introdução das vacinas, os casos e óbitos provocados por tosse convulsa, poliomielite, tétano ou difteria foram 19.100 e 1457, respectivamente, baixando esses números para 913 e 23 no período de 2006 a 2015, já depois da introdução das vacinas. São números incontestáveis e esclarecedores.

A reemergência da desconfiança atávica às vacinas é uma consequência da eficácia dos planos de vacinação e do nosso modo de vida. Já ninguém se cruza na rua com uma cara desfigurada pela varíola, vão morrendo aqueles que coxearam quase toda a vida por terem contraído poliomielite (em Portugal, a vacina foi introduzida em 1965 e é de 1986 o último caso detectado), vivemos hoje em meios altamente higienizados, com acesso permanente a água potável, outros confortos de saneamento básico e beneficiando da protecção de entidades que fiscalizam a qualidade dos nossos alimentos. Mas a repetida explicação da vacinação como vítima do seu próprio sucesso é curta.

Em paralelo com o aumento da literacia científica e o primado de uma medicina e políticas públicas baseadas na evidência, nas sociedades desenvolvidas vão ganhando popularidade práticas pseudo-científicas, na forma de cultos e rituais variados, de que são exemplo o endeusamento da natureza e dos produtos naturais ou o fascínio por terapias não convencionais, como a homeopatia, e por energias estrambólicas que parecem animar uma espiritualidade pimba. Outros mais competentes e perspicazes saberão explicar a pujança actual destas manias e cultos, se são resultado da decadência das grandes narrativas políticas e do fraco apelo das religiões tradicionais, de uma cultura narcisista e dada a caprichos, em que se procura forjar uma identidade, do labor de aldrabões que conseguiram criar uma comunidade de consumidores manipuláveis, de redes sociais que promovem novas cavernas de Platão, em que as comunidades se isolam para reforçar as convicções partilhadas, de uma oferta informativa e de plataformas de discussão vastíssima em que nos perdemos com facilidade, propícia à propagação de teorias da conspiração irresistíveis, que apelam à nossa vaidade (fazem-nos parecer mais espertos do que somos) e ao nosso ressentimento e indignação, assim minando a autoridade das instituições e dos especialistas.

É neste caldo cultural que surge a moda moderna de abdicar das vacinas por se julgar que se tornaram dispensáveis, que é melhor adquirir a imunidade de forma absolutamente natural (isto é, adoecendo), que as vacinas são tóxicas por causa do formaldeído, alumínio e compostos à base de mercúrio, que as sucessivas vacinas enfraquecem o sistema imunitário do bebé, que a vacina tríplice (anti-sarampo, parotidite e rubéola) provoca o autismo, que as grandes farmacêuticas nos impingem vacinas com a cumplicidade dos políticos, do clube de Bilderberg, etc.

Estas ideias profundamente erradas, de gente ignorante ou enganada, já foram desmontadas vezes sem conta, como o Observador voltou a fazer muito recentemente. Porém, são ideias que resistem acantonadas em pequenas comunidades, como certos vírus se perpetuam em zonas do corpo a que o sistema imunitário não consegue chegar.

O caso mais paradigmático é o boato sobre o autismo. Esta história já foi contada centenas de vezes, mas vou repeti-la aqui: a ideia de que uma vacina causa autismo surge num artigo de 1998 na revista científica The Lancetque foi retratado pela revista 12 anos depois (isto é, a revista deixou de defender o estudo e avisou-nos de que devíamos fazer o mesmo); sabemos hoje que o artigo é fraudulento e um aldrabão de grande calibre o seu primeiro autor, que se deixou comprar por advogados de pais de crianças com autismo em busca de indemnizações; vários estudos científicos subsequentes e independentes não encontraram qualquer associação entre a vacina e o autismo.

Enfim, é desesperante constatar a imortalidade de uma mentira tão infame e grotesca, mas é também instrutivo, porque nos diz que a divulgação científica e o bom jornalismo não são capazes de erradicar ideias falsas. Não pretendo negar a pertinência e utilidade de, entre outros exemplos possíveis, o livro do pediatra Mário Cordeiro sobre os mitos em torno das vacinas ou os artigos e livros com que o cientista David Marçal combate a pseudo-ciência. Defendo apenas que acabar com estas ideias tão perniciosas sobre as vacinas implica uma outra estratégia que, por ser calculada e maquiavélica, contrasta com a espontânea e inocente divulgação científica convencional, pensada para esclarecer pessoas sensatas e desinformadas, mas inútil quando nos confrontamos com pessoas mal informadas e militantemente convencidas das suas verdades.

O que vos deixo é um conjunto de sugestões – escritas ao jeito de mandamentos, só para que fiquem mais facilmente na memória – que visam limitar os danos que estas pessoas podem causar, impedir que cresçam enquanto comunidade e eventualmente trazer uns poucos de volta à razão. Adianto uma ressalva: intui-se destes “mandamentos” que defendo a autoridade dos especialistas e instituições com provas dadas. Assim é. Confunde-se muito a falácia do argumento de autoridade (alguém que abusa do seu estatuto para avançar ideias que não são depois avaliadas) com o respeito pela autoridade natural de quem se submeteu ao juízo crítico e ganhou o respeito dos pares, mas são situações distintas, sendo a primeira condenável e a segunda estimável.

A aceitação da ciência pelo grande público pressupõe a aceitação da autoridade dos especialistas, pois o cidadão comum não tem tempo, nem meios, nem competência, nem – francamente – a pachorra para ser ele próprio a triar a literatura científica e em algum momento terá de confiar na integridade e conhecimento do especialista e da comunidade a que ele pertence, sem abdicar do espírito crítico, obviamente, mas que exercerá para avaliar a lógica e sensatez do raciocínio a que é exposto.

#1 Promoverás políticas orientadas pela evidência científica.

Se tem responsabilidades ou ambições políticas, não pode ceder a interesses de grupos de pressão ou a políticas identitárias que vão contra evidência científica incontroversa. Os deputados do PS (todos excepto Paulo Pisco), PSD e CDS que, em 2013, aprovaram a lei 45/2003que regulariza – e implicitamente legitima -práticas fantasiosas assentes em princípios pré-científicos, como são a maior parte das “terapias não convencionais”, deviam ter vergonha. Vergonha. Os cidadãos não têm grande sensibilidade para o tema e percebe-se que prefiram indignar-se com os sucessivos casos de corrupção que têm dominado a imprensa. Mas um Estado que promove a homeopatia perde a autoridade moral para impor a vacinação e, assim, este também é um caso de corrupção… de corrupção dos valores que nos permitiram aumentar a esperança de vida e eliminar doenças letais, ainda que não tenha circulado dinheiro em conta de bancos suíços ou empresas com nomes castiços sediadas em off-shores.

#2 Farás com que os pais anti-vacinas sejam informados das consequências possíveis da sua recusa.

Se tem responsabilidades no controlo dos boletins de vacina que os pais são obrigados a mostrar nas escolas onde têm matriculados os filhos, seja como derradeiro interlocutor, dirigente escolar, responsável pelo Programa Nacional de Vacinação ou governante com a tutela da área, tudo deve fazer, na privacidade e descrição com que essa reunião deve decorrer, para que os pais fiquem a par das consequências possíveis dos seus actos no momento em que são informados de que os seus filhos têm vacinas em falta. Não se trata de promover algum tipo de terrorismo verbal por capricho sádico ou prepotente, nem de armadilhar estes pais para futuras represálias criminais em caso de tragédia, mas de assegurar que tudo se tentou para que os pais reconsiderem a sua posição e para que uma alegada falta de informação não possa ser desculpa que impeça a censura social caso ocorra uma tragédia.

#3 Não incorrerás na falácia da falsa equivalência.

Se é jornalista, deve resistir à tentação de promover quem se opõe às vacinas à categoria de parceiro de debate, como se esta pessoa estivesse na posse de argumentos válidos. Não há equivalência possível entre quem aceita o escrutínio dos pares pelo método científico e aqueles que exibem lixo informativo recolhido online, frequentemente vindo de aldrabões comprovados, para justificar opiniões que não resistem ao confronto com os factos. Sabemos que estas conversas têm custos de produção baixíssimos e dão audiência, que geram “tráfego”, “likes” e “visualizações”, enfim, que são rentáveis, para mais com a ilusão de que se está a fazer “serviço público”, mas promovê-las é simplesmente mau jornalismo.

#4 Ganharás pela tua falta de comparência.

Se é médico, enfermeiro ou cientista, resistirá ao impulso natural e bem-intencionado de discutir nos mediacom os pais anti-vacinas, pois no momento em que aceitar debater terá perdido, independentemente da sua capacidade de argumentação. Não tenha ilusões, não se deixe enganar pelo voluntarismo ou pela sua vaidade e saiba resistir se o acusarem de não querer descer da sua torre de marfim, porque não pode vencê-los, mesmo tendo toda a razão do seu lado. Só ganhará o debate aos olhos daqueles que não precisavam de ser convencidos; os indecisos darão razão ao seu opositor, que lhes terá parecido menos arrogante e uma vítima, e os que já não vacinavam os filhos sentir-se-ão ainda mais legitimados e animados pelo estatuto reconfirmado de oprimidos por uma sociedade vergada ao poder das farmacêuticas e à ditadura do positivismo, do cientismo ou de outro “ismo” que lhes ocorra na tripquixotesca que os leva a erguer a lança e investir contra a sensatez. Reconheço que esta será talvez a proposta mais polémica e que se presta a acusações de arrogância e desprezo pela opinião dos outros, mas a opinião de quem não reconhece os factos e argumenta com pseudo-ciência não merece ser respeitada. Um astrónomo nada tem para discutir com um astrólogo.

#5 Não publicarás testemunhos anónimos de pais anti-vacinas.

Outro mandamento exclusivamente para jornalistas: quem não vacina os filhos não deve ser denunciado, obviamente, mas quem quiser propagandear a sua posição na imprensa, partilhar o seu pungente testemunho de mãe ou pai preocupado e desconfiado, deve assumir a sua identidade. Se assim não for, o jornalismo estará a ser cúmplice dos pais anti-vacinas, a reforçar o seu estatuto de mártires, por melhor que seja o enquadramento da peça jornalística em que essas pessoas são citadas.

#6 Chamarás à razão os teus amigos ou familiares que não vacinam os filhos.

As discussões com quem não vacina os filhos são para se ter entre amigos e familiares, não na imprensa. Só a amizade e os laços de sangue podem contrariar a desconfiança e o raciocínio viciado de quem se embriagou em teorias da conspiração e crendices.

#7 Se és líder religioso ou de alguma outra comunidade estabelecida, defenderás a vacinação.

Deve promover a vacinação qualquer comunidade com preocupações sociais, a menos que se oponha por princípio às vacinas. Por outras palavras, se pode actuar, actue. Curiosamente, a Igreja Católica, que tanto atrito tem criado ao desenvolvimento de terapias com células estaminais pela sua visão de que a vida começa no momento da união dos gâmetas, manifesta uma posição refrescantemente pragmática no que toca à vacinação. Como não há milagres, não se esperaria que a Igreja Católica recomendasse o uso de vacinas contra doenças sexualmente transmissíveis, mas o simples facto de tolerar como mal menor, tendo em conta o bem social resultante, vacinas cujo fabrico envolve células que têm origem em fetos abortados, é uma posição que se aplaude.
#8 Se és famoso, promoverás a vacinação. Uma das características emergentes das nossas sociedades é a legitimidade de largo espectro que vem com a fama. Se uma pessoa consegue vender automóveis ou chegar ao cargo mais poderoso do planeta sem atributo relevante mas por ser famoso, ponhamos os famosos a dizer coisas sensatas. Robert de Niro, que é famoso, promoveu um documentário em que o médico aldrabão que lançou o boato da associação entre a vacinação e o autismo surge como um mártir. Não deve ser um médico a destrunfar e repreender Robert de Niro, mas alguém do show business, tão famoso quanto possível e idealmente o Joe Pesci ou o Martin Scorsese.

#9 Não subestimarás o teu adversário.

Seria abusivo descrever quem se opõe às vacinas como pertencendo a uma seita ou sequer um movimento organizado. Haverá nuances, dependendo do país, mas caracterizar o caso português nesses termos seria fazer uma caricatura alarmista. Ainda assim, muitos daqueles que recusam a vacinação fazem-no de forma convicta e com muita documentação pseudocientífica. Quem pretender debatê-los deve preparar-se da melhor forma, não faltando boas fontes na web em português e inglês (aqui e aqui).

#10 Explicarás a imunidade de grupo até à exaustão.

Defender a vacinação compulsiva, tendo em conta os precedentes que são a suspensão temporária do direito parental para obrigar os pais testemunhas de Jeová a deixar que o seu filho receba transfusões sanguíneas (7) ou o internamento compulsivo de um tuberculoso indisciplinado, não é uma posição difícil no plano dos princípios, porque podemos argumentar que é dever do Estado proteger os cidadãos contra os actos de terceiros e nem um liberal radical como Milton Friedman discordaria, embora discordasse da obrigatoriedade do cinto de segurança. Ora, saber se um indivíduo tem o direito a ser projectado para fora do seu carro a mais de 150 km/h através do pára-brisas após um choque frontal é um tema que só consome académicos e jovens liberais, enquanto a obrigatoriedade da vacinação vem sendo uma discussão recorrente nos media. Mas friso que é uma questão que tem mais dificuldades técnicas e de ordem pragmática do que propriamente dilemas éticos. Se, por exemplo, chegássemos a uma situação impensável em que mais de 50% dos pais recusassem as vacinas, levando a que a cobertura vacinal descesse muito abaixo da percentagem de cobertura vacinal que assegura a imunidade de grupo, as vacinas teriam de passar a ser obrigatórias, não haveria outra solução, nem oposição, tendo em conta a dimensão da tragédia. Se hoje as vacinas não são obrigatórias em Portugal, é porque para a grande maioria delas temos percentagens de cobertura vacinal muito satisfatórias, que nos protegem contra os caprichos de quem não vacina os filhos e talvez fosse contraproducente comprar uma guerra neste momento com essas pessoas, pois só levaria à vitimização, a uma desobediência civil que talvez até tivesse boa imprensa e possivelmente ao incumprimento das medidas penalizadoras pelo Estado. Em todo o caso, haverá uma percentagem de cobertura vacinal abaixo da qual a obrigatoriedade das vacinas será a medida mais sensata. Assim, a imunidade de grupo emerge como uma característica essencial e a protecção deste bem social passa por explicar a sua fragilidade. Menos de uma geração basta para comprometer a cobertura vacinal e a entrada de migrantes vindos de países com planos de vacinação fracos é outro potencial problema, bem como a tendência de pessoas com hábitos comuns (como não vacinar os filhos, etc.) para se agregarem em actividades sociais e escolherem a mesma escola ou tipo de escola para os filhos, o que poderá levar a zonas geográficas e instantes no tempo em que a cobertura vacinal num determinado grupo está já abaixo do recomendado embora a cobertura nacional se mantenha acima de 90-95%. A estratégia contra a pulsão anti-vacinas não passa por distorcer a realidade para causar alarmismo, mas por alertar para as subtilezas da imunidade de grupo. Sabia, por exemplo, que os vacinados podem contrair as doenças, se bem que de forma mais ligeira, e ainda assim infectar os não vacinados?

No passado dia 29 de Abril, celebrou-se o Dia Internacional da Imunologia. As vacinas são, até hoje, a principal contribuição que esta disciplina deu à humanidade. Comecei por admitir que o senso comum rejeita a ideia de introduzir no nosso corpo substâncias derivadas de agentes patogénicos. Termino defendendo a ideia contrária, de que há uma beleza no acto de vacinar que transcende o que o gesto terá de ritual iniciático reconfortante para os pais (ainda que doloroso para o bebé), e que podemos apreciar esta beleza com um conhecimento rudimentar da biologia subjacente. As vacinas estão desenhadas para ficarmos com uma memória imunitária que possibilita uma mobilização rápida das defesas quando voltamos a encontrar o vírus ou a bactéria que queremos combater.

Como conseguimos, num primeiro tempo, reagir ao estímulo que a vacina representa e, a seguir, manter essa informação durante décadas? Este fenómeno é tão extraordinário que seria tentador invocar uma qualquer energia rememorativa, um princípio vital circulante, uma memória hemato-quântica, uma canalização somática da força cósmica do espaço-tempo ou qualquer outra expressão pseudo-científica disparatada, mas a ciência dá-nos uma resposta mais sóbria: o segredo está em células a que chamamos linfócitos, e em cada um de nós são tantos e tão distintos entre si na especificidade para substâncias exógenas, que por acaso haverá no nosso corpo algumas células capazes de reagir a qualquer vacina e em consequência dessa interacção as células irão diferenciar-se em células de memória. Reparemos: estas células que respondem à vacina existem antes da entrada desta no nosso corpo e, depois de a vacina desaparecer do corpo, as células de memória resultantes persistem durante décadas.

As vacinas são uma intervenção pontual cuja virtude é pôr a funcionar as engrenagens celulares e moleculares do nosso sistema imunitário. Desta técnica se espera ainda muito mais. A esperança de um dia inventarmos vacinas eficazes contra a malária e a SIDA e as promessas da imunoterapia (as vacinas contra o cancro) dão a esta área de investigação um dinamismo que reforça o anacronismo dos seus inimigos.

Biólogo, doutorado em Imunologia, investigador no CEDOC da Nova Medical School