Saúde Pública

Vacinas, medos e mitos: o caso da variolação

Autor
  • Luis Teixeira

A moderna recusa das vacinas pode ter adoptado argumentos novos e pretensamente científicos ou éticos mas tem raízes antigas e profundas.

A praga de Antonino, no século II, matou um terço da população de Roma e, eventualmente, precipitou a decadência do império. Não há certeza mas pensa-se que foi varíola. No século XVI, levada pelos conquistadores portugueses e espanhóis para o Novo Mundo, a varíola matou dois terços da população Inca e, no século XVII, epidemias sucessivas mataram milhões de índios no Massachusetts e na região do lago Ontário. Na Europa, no século XVIII, a varíola matava meio milhão de pessoas por ano. Entre as vítimas contaram-se Pedro II da Rússia e Luís XV de França. Isabel I de Inglaterra, que sobreviveu, usava pesadas maquilhagens para esconder as marcas.

Mas o vírus da varíola só infectava uma vez: morria-se ou sobrevivia-se e, para quem sobrevivia, o vírus tornava-se inofensivo. Durante a praga que atingiu Atenas em 430 AC, Tucídides conta que eram os sobreviventes quem tratava os novos doentes, porque não corriam o risco de voltar a adoecer. Textos chineses e indianos do século X descrevem as primeiras técnicas de prevenção. Na China inalavam-se crostas pulverizadas das pústulas de varíola. Na Índia, o pus de um doente era inoculado na pele, utilizando uma lanceta afiada.

A variolação, assim se chamou depois, tinha uma mortalidade associada de mais ou menos três por cento: uma ninharia se tivermos presente que falamos de uma doença em que morriam geralmente um terço de todos os infectados, dois terços das formas malignas, nove em cada dez crianças.

Da China e da Índia o conhecimento da variolação viajou para o Norte de África nas caravanas de comerciantes. Ao império otomano, a acreditar em Emanuel Timoni, médico da embaixada britânica junto da Sublime Porta no princípio do século XVIII, terá chegado por caminhos mais improváveis: com as mulheres que o sultão importava do Cáucaso para o seu harém. Timoni, em carta dirigida em 1714 à Royal Society, descreveu o hábito que essas mulheres tinham de se protegerem da varíola picando-se levemente com uma agulha embebida no pus dos doentes.

A carta de Timoni não teve grande repercussão na Europa mas o mesmo não sucedeu com o testemunho de Lady Mary Montague, uma aristocrata, escritora e feminista inglesa, mulher do embaixador inglês entre 1717 e 1721 e ela própria vítima de varíola. De volta a Londres, depois de fazer a corte assistir à variolação da filha e com o apoio de Sir Hans Sloane, médico do rei e presidente da Royal Society, conseguiu que fossem realizadas algumas experiências: tipicamente para a época, em prisioneiros de Newgate e em crianças de um orfanato. Não houve vítimas. No ano seguinte, as filhas do príncipe de Gales foram varioladas. Na Rússia a própria Catarina II submeteu-se à variolação e, com ela, centenas de aristocratas. Frederico II da Prússia e Luís XVI de França também foram variolados. Em 1760 é fundado em Londres o Smallpox and Inoculation Hospital, que oferecia a variolação gratuitamente.

Mas a expansão do método não foi pacífica. Quando, em 1721, um navio proveniente das Índias Ocidentais chegou a Boston e trouxe com ele uma epidemia de varíola, o reverendo Cotton Mather, que ficara a saber do método de variolação por um escravo negro vindo da África Ocidental, chamado Onésimo, que comprara em 1706, convenceu o Dr. Zabdiel Boylston, médico e seu amigo, a tentar o novo método para combater a doença.

A variolação promovida por Mather e Boylston foi um êxito: só dois por cento das pessoas que foram varioladas morreram durante a epidemia de 1721. Mas nem os outros médicos nem a populaça acolheram bem a novidade, que consideraram “bárbara” e, sobretudo, “ímpia”: para as mentalidades puritanas da Nova Inglaterra, a varíola era um “castigo divino” e, ao tentar travar a doença, Mather e Boylston estavam a contrariar “a vontade de Deus”. Houve campanhas violentas nos jornais. As autoridades da cidade proibiram a variolação. O reverendo Mather, que fora responsável por processos e condenações por bruxaria em Boston durante décadas e até escrevera um livro sobre a matéria, Memorable Providences, Relating to Witchcrafts and Possessions, viu a sua casa ser destruída por uma bomba purificadora.

A substituição da técnica de variolação pelo uso da vacina no início do século XIX não abrandou a contestação. A vacina utilizava o pus de doentes infectados com a varíola bovina, uma infecção com efeitos limitados nos seres humanos, e não tinha a mortalidade associada à variolação. Ainda assim, demorou a generalizar-se. Edward Jenner, que a inventou e promoveu, foi sujeito a chicana pública e a sua primeira comunicação à Royal Society sobre o tema, em 1797, foi recusada. Na sua revisão histórica da varíola em 2010, Angel of Death, Gareth Williams conta como o Vaccination Act, de 1840, foi das leis mais contestadas e impopulares do Reino Unido e como, em 1909, foi abolido: entre as razões então aduzidas, alegou-se que propagava outras doenças.

Esta discussão sobre os perigos secundários, ou laterais, das vacinas, a par da persistência de uma convicção atávica sobre a “impiedade” essencial do processo, nunca desapareceu. Na verdade, chegou aos nossos dias e ainda há poucos anos assistimos a uma versão renovada, agora a propósito dos riscos dos adjuvantes utilizados nas vacinas contra a gripe A.

Falaremos disso a seguir.

Médico patologista

 

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