O desporto moderno tem sido profundamente moldado pela tecnologia, impactando não apenas o desempenho dos atletas, mas também os equipamentos que utilizam. No centro deste ecossistema está a bola de futebol: um objeto que, apesar da sua aparente simplicidade, tornou-se um dos dispositivos mais sofisticados do mundo desportivo através de décadas de inovação.

O Equilíbrio entre a Engenharia e o Espetáculo 

No futebol, em particular, a bola é um produto de engenharia, onde a aerodinâmica, materiais utilizados e o design convergem. Esta evolução reflete uma procura constante pelo espetáculo, garantindo a precisão dos movimentos sem comprometer o conforto dos atletas. Fabricantes como a Adidas investem anualmente milhões em investigação, protegendo os seus avanços através de patentes e desenhos industriais, assegurando o domínio tecnológico nas maiores montras do mundo.

Um dos casos mais emblemáticos desta evolução foi a “Jabulani”, a bola do Campeonato do Mundo de 2010. Embora o seu design, com 11 cores celebrando os jogadores e as comunidades da África do Sul, fosse visualmente inovador, a sua construção com painéis reduzidos criou trajetórias imprevisíveis. Estudos da NASA confirmaram que a sua aerodinâmica a tornava instável em certas velocidades, servindo de lição para os futuros desenvolvimentos da indústria.

Al Rihla 

Já em 2022, a bola do Campeonato do Mundo no Qatar, batizada de “Al Rihla” (que em português se traduz “A Viagem”), foi uma das bolas mais avançadas já usadas num Campeonato do Mundo. Desenvolvido pela inventora Franziska-Maria Eva Löffelmann, este modelo introduziu um sistema de suspensão interno, protegido por direitos de propriedade industrial em mercados como os EUA, Europa e China até 2036. Com cores vibrantes, formas angulares e um visual dinâmico, foi objeto de um desenho ou modelo, um direito de propriedade industrial que protege o desenho ornamental da bola.

Mas o desafio técnico era enorme: como manter um dispositivo eletrónico imóvel no centro de uma câmara de ar sujeita a impactos constantes? A solução passou por um sistema de suspensão com cordões contínuos, detalhado no pedido EP4299146B1, que sustentam um elemento central (“pit”), onde o dispositivo eletrónico é alojado e garante que os dados de posicionamento e velocidade sejam recolhidos sem interferências.

Este elemento central encontra-se identificado com o número 140 no pedido de patente EP4299146B1 da ADIDAS AG.

O elemento central 140 destina-se a alojar componentes eletrónicos, tais como sensores, baterias e dispositivos de transmissão de dados, permitindo a monitorização do desempenho e da posição da bola. Este sistema de suspensão inovador reduz a interferência de movimentos indesejados, protegendo com maior fiabilidade os elementos eletrónicos no seu interior.

Campeonato do Mundo 2026

Olhando para o futuro, a nova bola “Trionda” eleva a fasquia. Com um visual fluido, mistura elementos dos três países anfitriões: EUA, Canadá e México. À semelhança das edições anteriores, esta parece incorporar as mais recentes inovações em materiais, construção e monitorização de desempenho. Mas mais do que uma evolução ao nível do desempenho, a nova bola “Trionda” mostra também como a inovação no futebol se projeta no plano da propriedade industrial.

De acordo com o comunicado da ADIDAS de outubro de 2025, na nova bola “Trionda”, o sistema de suspensão no centro da bola terá sido substituído pelo reposicionamento de um microchip com um sensor de movimento colocado diretamente num dos painéis. Para evitar o desequilíbrio da bola, os engenheiros utilizaram contrapesos nos painéis opostos. Esta inovação, desenvolvida em parceria com a Kinexon, uma empresa de tecnologia alemã especializada em real-time tracking e análise de dados, permite a precisão dos dados enviados ao VAR (Árbitro Assistente de Vídeo).

A tecnologia envia dados precisos da bola para o sistema VAR em tempo real, o que, quando combinado com dados de posicionamento dos jogadores e com a aplicação de inteligência artificial, ajuda os árbitros a tomar decisões mais rapidamente.

As tecnologias incorporadas poderão, contudo, permanecer parcialmente fora do domínio público caso tenham sido objeto de um pedido de patente depositado há menos de dezoito meses, mantendo-se, nesse período, em sigilo.

Em suma, a bola de futebol deixou de ser um mero objeto de couro para se transformar numa simbiose de alta engenharia e dados em tempo real. A transição da aerodinâmica controversa da Jabulani para a precisão sensorial da Trionda demonstra que o sucesso no relvado depende, cada vez mais, da proteção jurídica fora dele. Ao garantir direitos exclusivos sobre sistemas de suspensão e sensores integrados, as marcas não só asseguram uma vantagem competitiva no mercado global, como redefinem a própria natureza do jogo.

Assim, ao celebrar o Dia Mundial da Propriedade Intelectual, a 26 de abril, a bola de futebol serve como uma recordação perfeita de como a inovação tecnológica e a propriedade intelectual se cruzam no desporto, influenciando tanto o jogo como o mercado global que o rodeia.