Entre 19 e 23 de janeiro de 2026 decorreu, em Davos, o encontro anual do Fórum Económico Mundial. Os holofotes do debate focaram as relações internacionais, a nova ordem económica e a transformação impulsionada pela Inteligência Artificial (IA), no entanto, enquanto médico, não poderia deixar de destacar algumas discussões sobre o setor da Saúde.
A sessão “Healthcare Needs New Ideas” colocou a Saúde não como uma política social, mas como uma infraestrutura nuclear da resiliência, defesa e soberania de um país. Num contexto de profundas mudanças geopolíticas, torna-se cada vez mais evidente a vulnerabilidade dos sistemas de saúde: a dependência de terceiros para assegurar o fornecimento de medicamentos e equipamentos médicos essenciais, o enfraquecimento da cooperação internacional na vigilância epidemiológica, os conflitos armados com consequente disrupção das cadeias de abastecimento alimentar e de água, bem como o acentuar das desigualdades entre países do hemisfério Norte e Sul. A discussão avança na identificação de 4 campos de premente atuação: recursos humanos, gestão de dados, regulamentação e infraestrutura.
Prevendo-se um défice transversal de profissionais de saúde, torna-se prioritário o investimento no seu planeamento prospectivo, na optimização dos processos clínicos e no desenvolvimento de modelos de organização laboral que sejam flexíveis, atrativos e adaptáveis às expectativas dos profissionais. Explorando o potencial máximo dos sistemas digitais clínicos e de modelos de IA generativa, pretende-se acompanhar em tempo real o percurso do doente, permitindo a redefinição de processos internos, a monitorização sistemática do desempenho assistencial, a redução de desperdício e a melhoria contínua da eficiência operacional e da qualidade dos cuidados prestados. A emergência de novas tecnologias deve incentivar a revisão das estruturas regulamentares e legais nacionais, promovendo a inovação que assegure maior eficiência, qualidade e segurança na prestação de cuidados de saúde. Por fim, torna-se essencial investir em infraestruturas críticas para um sistema de saúde resiliente, nomeadamente num tecido industrial vocacionado para a produção de medicamentos e equipamentos médicos, nos sistemas logísticos e energéticos que suportam a atividade clínica das instituições e na interconectividade das redes de comunicação entre elas.
Na sessão “Making Healthy Choices, Better”, os oradores estabeleceram uma distinção clara entre o consumo de cuidados de saúde e a saúde que os utentes precisam de consumir, sublinhando o papel central da literacia em saúde na utilização de large language models. O advento da IA generativa permitiu democratizar o acesso à informação médica e facilitar a interpretação de grandes volumes de dados provenientes da monitorização contínua de marcadores biométricos e sociais. No entanto, é evidente a necessidade de investimento em literacia digital, a mitigação de vieses linguísticos, de género, raciais e culturais, o cumprimento dos enquadramentos legais e de proteção de dados, bem como a incorporação da perspetiva dos utentes no desenho e implementação destas tecnologias.
A segunda parte da sessão centrou-se na prevenção, tanto a nível individual como nacional. Com o aumento da despesa em saúde, que se reflete numa proporção cada vez maior do PIB, torna-se evidente que o investimento na prevenção é a única estratégia com potencial para reduzir custos a longo prazo e maximizar a esperança de vida saudável, num cenário de aumento da esperança média de vida. O investimento em prevenção assume múltiplas dimensões: ao nível micro, implica abertura à mudança e compromisso individual com a saúde mental, física e social, abrangendo áreas como a nutrição, o exercício físico, o sono e o bem-estar psicossocial; ao nível macro, exige a adaptação das estruturas regulamentares, como são a Agência Europeia de Medicamentos e a Food and Drug Administration nos EUA, à avaliação de intervenções com benefício preventivo comprovado, a eliminação de barreiras financeiras e logísticas no acesso à prevenção e o desenvolvimento de políticas locais, regionais e nacionais orientadas para ganhos em saúde.
Concluindo, no que respeita à sustentabilidade dos sistemas de saúde, torna-se evidente que o foco da ação governativa deve evoluir para além da resposta a problemas de primeira ordem, diretos e imediatos, para a antecipação e gestão de problemas de segunda ordem, de natureza indireta, e de terceira ordem, de impacto estrutural e a longo prazo. Em paralelo, é fundamental capacitar recursos humanos com competências para liderar esta transformação e assegurar a passagem do pensamento à ação, promovendo uma simbiose entre uma cultura de execução orientada para resultados (doers) e o pensamento estratégico e conceptual (thinkers).
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.