“Metade das vagas para médicos recém-especialistas ficou por ocupar em Lisboa e Vale do Tejo (LVT)” é o título de um artigo sobre os resultados do concurso que pretendia fixar cerca de 1552 médicos especialistas de áreas hospitalares a nível nacional. Enquanto jovem médico, natural do Norte, formado na Beira Interior e atualmente a trabalhar no Sul, quis explorar as razões que levam os jovens médicos a (não) escolher LVT.

Lisboa sofre da sua própria atratividade

A procura de oportunidades de emprego, o turismo, os fluxos migratórios e o envelhecimento populacional contribuem para o aumento da população que necessita de cuidados e de profissionais de saúde. Este crescimento não é uniforme e os dados do INE revelam que os municípios de LVT têm sido particularmente afectados. No entanto, as instituições de saúde não têm conseguido acompanhar a procura crescente, o que se traduz em limitações no acesso a cuidados, desafios na qualidade dos serviços e sobrecarga assistencial.

Uma capital europeia cada vez mais cara

Apesar de os médicos, em geral, auferirem salários superiores à média nacional, também são afetados pelo aumento do custo de vida, sobretudo os mais jovens. Segundo o economista Eugénio Rosa, desde 2011 a classe médica perdeu cerca de 16,2% do seu poder de compra. O aumento acentuado dos preços da habitação, particularmente em Lisboa, ilustra bem esta realidade, pelo que é natural que este e outros fatores ligados à fixação de médicos influenciem as suas escolhas profissionais e geográficas nas próximas décadas.

Dependência do trabalho suplementar e da prestação de serviços

A combinação dos factores anteriores, aliada à ausência de uma estratégia sustentável de recursos humanos, levou a uma dependência total de trabalho suplementar. De acordo com um estudo do PLANAPP, o SNS precisaria de contratar cerca de 14.287 profissionais para assegurar as necessidades atuais e, uma vez mais, os médicos internos são os mais prejudicados, destacando a “concentração muito elevada, e desproporcionada, do volume de horas de trabalho suplementar nos médicos internos que trabalham na região de LVT”.

Reféns da burocracia e da ineficiência, limitamos os projectos de carreira

A gestão de documentos, o pedido de exames e transporte, os registos clínicos, os desafios de comunicação intra e interhospitalar e os sistemas digitais desatualizados, agravados pela falta de um Registo de Saúde Eletrónico único, fazem com que as tarefas administrativas consumam grande parte do tempo dos médicos. Esta problemática agrava-se a nível regional, e estudos sobre eficiência hospitalar – exemplo 1 e exemplo 2 – evidenciam uma menor eficiência dos hospitais da região de LVT comparativamente aos seus homólogos do Norte, o que poderá limitar o desenvolvimento de projetos de carreira inovadores e diferenciadores.

Propostas melhores, mais flexíveis, mais ambiciosas

De acordo com as “Estatísticas da Saúde – 2023″ do INE em 2023, existiam em Portugal 242 hospitais, dos quais 130 privados (mais 28 do que em 2010), que englobam 11,5 mil camas de internamento. Face a este crescimento, o setor privado tem também necessidade de aumentar os seus quadros assistenciais e tem conseguido capitalizar a insatisfação com o setor público – desorganização das instituições, degradação das condições de trabalho, ausência de projetos motivadores, crescente burocracia e ausência de flexibilidade laboral – atraindo profissionais que procuram uma melhor qualidade de vida.

Especialidades basilares com carências agravadas

Apesar da falta de dados sistematizados sobre a carência de médicos por especialidade e instituição, sabemos que há áreas mais carenciadas do que outras, destacando-se a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar em LVT. Se a primeira acompanha a maioria dos doentes internados e atendidos em contexto de urgência, e a segunda gere a continuidade de cuidados ao longo da vida, a falta de profissionais nestas especialidades tem um profundo impacto no funcionamento do SNS e das restantes especialidades.

Num cenário de sobrecarga assistencial, custo de vida crescente, ineficiência institucional, burocracia sufocante, necessidade de trabalho suplementar, deterioração das especialidades basilares do SNS e face a propostas mais aliciantes, flexíveis e ambiciosas do setor privado, como podemos atrair médicos para o setor público? Termino este artigo com algumas questões de reflexão:

Se o custo de vida está a limitar a fixação de médicos, fará sentido que seja criado um suplemento indexado ao custo de vida de cada cidade?

Se a ineficiência afeta os gastos do SNS e a retenção de médicos, não fará sentido desenvolver uma análise interna dos processos assistenciais que procure otimizar o funcionamento dos serviços?

Se a flexibilidade laboral e a oportunidade de desenvolver projetos inovadores são decisivas para atrair médicos, não fará sentido desenvolver uma reforma laboral que permita contratos adaptados às preferências dos profissionais, em vez do modelo “one-size-fits-all”?

Se a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar são pilares fundamentais do funcionamento do SNS, não fará sentido implementar políticas de recursos humanos específicas para estas especialidades, como a criação de um suplemento salarial base que reconheça a sua importância estrutural?

Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.