Na passada semana terminou mais um concurso de acesso à formação especializada: 2375 candidatos para 2331 vagas, sendo que cerca de 20% ficaram por preencher. Este vazio é desigual e agrava a carência de especialidades que já tinham dado sinais de alerta – como Saúde Pública, Medicina Geral e Familiar e Medicina Interna – e estende-se a áreas como Medicina Intensiva, Doenças Infeciosas, Genética Médica, Farmacologia Clínica, Hematologia Clínica, Imuno-hemoterapia e Patologia Clínica.

Por que é que cada vez mais candidatos optam por não escolher? Por que é que certas regiões e hospitais permanecem cronicamente sem procura? Por que é que algumas especialidades deixaram de atrair jovens médicos?

Factores que influenciam as escolhas dos candidatos

Todos os candidatos – e eu já fui um deles – procuram a opinião de colegas mais velhos sobre as especialidades que ponderam: horário, carga de trabalho, perfil de atividade clínica, pressão para trabalho extraordinário, oportunidades no setor público, privado ou social, exigências curriculares, ambiente de trabalho, estilo de gestão da Direção de Serviço e apoio à formação e à investigação. A estes fatores somam-se os ligados à cidade onde decorre o Internato, nomeadamente, o custo de habitação, a mobilidade e a qualidade de vida, que assumem um peso crescente na escolha da especialidade e do local de formação.

Ponderados estes fatores, o que temos vindo a observar é um número crescente de jovens médicos que prefere não escolher entre as vagas disponíveis – seja por preferência, seja pelas condições de Internato, seja pelas perspectivas laborais futuras enquanto especialistas. Efetivamente, muitos optam por repetir a Prova Nacional de Acesso, determinante para a seriação, trabalhando temporariamente como prestadores de serviço (vulgo, tarefeiros), sobretudo em serviços de urgência, no setor público e privado.

Apesar de existirem fatores subjetivos e perceções difíceis de desconstruir, sobretudo no caso de especialidades cujo contacto durante a formação pré-graduada é limitado, há aspetos objetivos que ajudam a exemplificar a perda de atratividade do Internato Médico e, em particular, de algumas especialidades e locais de formação.

Saúde mental

No estudo “Avaliação do Burnout no Internato Médico Português”, 24,7% dos inquiridos apresentavam sintomas graves de burnout e 35,3% recorreram a apoio psicológico ou psiquiátrico durante o internato. Relativamente às condições laborais, 84,8% referiram realizar horas extraordinárias, com uma média semanal de 52,8 horas de trabalho.

Ambiente clínico de aprendizagem

O estudo “Withdrawals from the Residency in Intensive Care Medicine in Portugal: why and when?”, embora dirigido a médicos internos que rescindiram da especialidade de Medicina Intensiva, revelou dados preocupantes: 66,7% dos inquiridos referiram situações de assédio laboral, humilhação ou abuso verbal, 69,2% destacaram a influência da carga de trabalho na decisão de rescisão e 83,9% referiram o ambiente laboral.

Produção científica e apoio à formação

Os Inquéritos de Satisfação com o Internato Médico evidenciam uma insatisfação generalizada quanto ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional, com impacto na escolha de especialidade, rescisão e retenção de especialistas. O principal motivo de descontentamento é a falta de tempo protegido para estudo autónomo, obrigando os internos a usar o seu tempo pessoal para tarefas obrigatórias, como trabalhos científicos, assim como a falta de apoio institucional, logístico ou financeiro para o desenvolvimento destas atividades curriculares.

Remuneração e custo de vida

Embora o valor varie consoante o ano de internato e o trabalho extraordinário realizado, a Tabela Remuneratória Única estabelece que um médico interno, na posição 30, aufere 2188,90€ brutos (cerca de 12,60€/hora). Seguem-se despesas com cursos, congressos e publicações científicas, alguns dos quais obrigatórios e que podem ultrapassar os 1000€, assim como o custo de vida, a habitação e a mobilidade. Perante este cenário, é compreensível que muitos internos privilegiem especialidades com melhores condições remuneratórias, seja em regime normal ou suplementar.

Vivemos num contexto socioeconómico cada vez mais exigente, com uma prática médica cada vez mais complexa e uma crescente procura por cuidados de saúde. No entanto, a priorização da resposta assistencial em detrimento da formação, a quase inexistência de apoio institucional, logístico e financeiro à produção científica e a ausência de tempo de estudo protegido refletem uma gestão dos internos cada vez mais centrada em objetivos administrativos, em vez de se priorizar o seu benefício formativo.

Concluindo, discutir e resolver os problemas do Internato Médico exige que todas as entidades responsáveis – Ministérios, Ordem dos Médicos, hierarquias médicas, coordenações de Internato, direções de serviço e especialistas – estejam disponíveis para ouvir efetivamente os jovens médicos, façam uma análise abrangente sobre o padrão de escolhas de especialidade, reflitam sobre o seu papel nesta situação e apresentem soluções capazes de a inverter.

O Observador associa-se  aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.