Com a entrada em funções do novo Executivo, o foco volta-se para o programa do Governo, num contexto político e social marcado por enormes desafios em Portugal, na Europa e no mundo.
É precisamente em resposta a esses desafios que exploro o conceito “Saúde em todas as Políticas”, um conceito bem estabelecido a nível internacional, mas pouco discutido no panorama nacional. Esta abordagem implica pensar na Saúde como uma visão estrutural do que queremos enquanto sociedade: é ser simultaneamente o objetivo final, mas também o princípio das nossas políticas. Uma vez que a concretização desta visão transcende os limites do que é normalmente atribuído ao sector da Saúde e exige uma abordagem multidisciplinar, intersetorial e interministerial, procurei com este artigo juntar propostas de 10 Global Shapers de diferentes áreas e sectores.
David Cruz e Silva, Investimentos e Empreendedorismo
A visão de “Saúde em todas as Políticas” implica repensar e fortalecer o contrato social português. Atualmente, a elevada carga fiscal nem sempre corresponde ao acesso eficaz e equitativo a serviços essenciais, como cuidados de saúde e educação infantil, criando um sentimento generalizado de injustiça social e fragilidade no sistema.
Propostas: Portugal deve assumir a saúde como prioridade transversal, orientando políticas industriais e tecnológicas para áreas como biotech, saúde digital e foodtech. Estes investimentos podem gerar crescimento económico e simultaneamente assegurar a robustez do sistema social e sanitário, reforçando a equidade e sustentabilidade do contrato social. Medidas práticas como a expansão das redes públicas de creches e serviços de saúde preventiva são igualmente fundamentais. Tais investimentos sociais têm retorno económico comprovado, melhorando significativamente a qualidade de vida das famílias e reduzindo encargos futuros sobre o sistema de saúde.
João Maria Botelho, Sustentabilidade e Alterações Climáticas
A operacionalização do Fundo Social para o Clima (Reg. (UE) 2023/955- aplicável 2026-2032) é, a meu ver, a alavanca mais direta para transformar a saúde pública num resultado-chave da política climática. Ao financiar a reabilitação energética de edifícios e “subsidiar” tarifas de mobilidade sem emissões, o Fundo ataca simultaneamente a (i) pobreza energética, a (ii) exposição a poluentes atmosféricos e (iii) o sobre-esforço económico das famílias vulneráveis. Outra linha de ação poderá ser a inclusão de métricas de saúde na monitorização de finanças sustentáveis, ou seja, direcionar investimento para projetos que não apenas descarbonizam, mas que geram bem-estar e previnem doenças, o que amplia o retorno social de cada euro público mobilizado.
Proposta: Incluir no Orçamento de Estado uma rubrica autónoma para co-financiar candidaturas municipais ao Fundo e que a transposição da nova Diretiva da Qualidade do Ar Ambiente fixe limites intermédios já em 2027, o que ajudaria a converter cada µg/m³ de poluentes no ar evitados numa meta de saúde pública mensurável. Poderíamos ainda explorar uma ideia-piloto que integrasse indicadores de saúde (ambiente interno saudável) nas obrigações de reporte da CorporateSustainabilityReportingDirective e nas divulgações de SustainableDisclosure. Neste exemplo, cada green bond emitido para energia ou infra-estrutura teria benefícios fiscais (extra) se fosse desenvolvido um Health Impact Assessment ex-ante e metas de redução de dias perdidos por doença. Impacto esperado? Cada euro público passaria a gerar uma dupla externalidade (descarbonização e ganho de saúde) – maximizando a relação custo-benefício da despesa climática.
Henrdovino Felso Ganhane, Relações internacionais
A segunda edição do Global Cooperation Barometer 2025 aponta para um decréscimo generalizado da cooperação multilateral. A fragmentação geopolítica afeta profundamente a saúde global ao enfraquecer a coordenação em crises sanitárias, sendo um exemplo a pandemia de COVID-19. A falta de cooperação reduz a capacidade de resposta equitativa, compromete a pesquisa conjunta de vacinas e dificulta a monitorização de surtos e programas de vacinação. Indiretamente, afeta também áreas interligadas, como alterações climáticas e migrações.
Proposta: Adotar e massificar parcerias “desordenadas”, criando alianças ad hoc entre países e ONGs para responder a crises específicas. A diplomacia da saúde pode atuar como uma plataforma neutra, promovendo entendimento e cooperação independentemente de rivalidades políticas. Além disso, o uso de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e big data, pode melhorar a monitorização e resposta a ameaças de saúde globais, integrando-se em consórcios internacionais que superem divisões políticas. Esta abordagem promove uma cooperação adaptável e pragmática, centrada em desafios comuns.
Isabel Lopes Cardoso, Media e Democracia
A saúde de uma democracia depende da existência de uma esfera pública vibrante, onde a informação é acessível, transparente e plural e a população sabe interpretar e questionar os conteúdos que consome. O mais recente World Press Freedom Index 2025 que avalia a liberdade de imprensa, mostra que Portugal, apesar de manter uma boa posição (8.º lugar), desce de categoria, passando de “bom” para “satisfatório”. Isto reflete uma tendência global de fragilização dos media e erosão da confiança pública, o que está directamente relacionado com o crescimento da desinformação e com o consumo de conteúdos não baseados em evidência.
Proposta: Por um lado, é fundamental investir em políticas de literacia mediática, integradas nos currículos escolares e em programas comunitários, que cultivem uma cidadania ativa e coesão social. Por outro lado, a promoção de movimentos e projetos sociais, media comunitários e formas descentralizadas de participação ativa e comunitária poderão contribuir para a redução do isolamento social e fortalecimento dos laços sociais – todos eles determinantes sociais de saúde.
Afonso Oom, Indústria
Apesar do investimento em soluções menos nocivas para a nossa saúde, a indústria automóvel continua a ser um dos sectores com maior impacto na qualidade de vida individual e colectiva, através das emissões e da poluição sonora Neste sentido, o contínuo investimento em soluções de mobilidade sem emissões pode contribuir para redução da mortalidade global e para a incidência de doenças do foro respiratório. Adicionalmente, a adoção de tecnologia mais segura, como a condução autónoma (que já é uma realidade nos Estados Unidos), vai permitir a redução do número de carros em circulação, bem como a redução do número de acidentes.
Proposta: Definir metas claras para a transição elétrica de veículos de transporte público, nomeadamente táxis e autocarros, assim como para veículos ligeiros privados de uso comercial como os TVDE (exemplo: 2030). Continuar a apoiar a compra de veículos eléctricos e aumentar o número de veículos com incentivo para abate através do fundo ambiental, de forma a acelerar a renovação do parque automóvel português. Por fim, regularizar e autorizar a condução autónoma, como já se fez nos Estados Unidos e na China.
Na próxima semana, voltamos a olhar para a “Saúde em Todas as Políticas” porque, face a grandes desafios, precisamos de respostas eficazes – e a saúde pode ser a plataforma central para abordar estes desafios de forma integrada, sustentável e focada no bem-estar comunitário.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.