O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou recentemente às manchetes por motivos diferentes dos habituais. Desta vez, não foram as suas declarações políticas que geraram discussão, mas sim o diagnóstico de Doença Venosa Crónica. Trata-se de um episódio que desafia um dos estereótipos da Medicina, a ideia de que esta é uma condição de saúde associada ao universo das mulheres, mas que, como o caso de Trump demonstra, não poupa os homens. A realidade é que esta patologia não conhece fronteiras de género, apesar dos mitos que insistem em torná-la um exclusivo feminino.
Esta é uma notícia que ajuda a destruir, de uma vez por todas, o mito de que esta condição é apenas do domínio da saúde feminina. Sim, é um facto que as mulheres são mais vulneráveis – as hormonas, a gravidez e outros fatores biológicos específicos colocam-nas em maior risco. Mas aqui está o que pode surpreender: os números revelam uma realidade bem diferente do que muitos imaginam sobre as doenças venosas, que são as mais comuns em todo o mundo: entre 25% a 33% das mulheres sofrem com varizes, mas os homens não ficam muito atrás, com um estudo de 2021 a mostrar que entre 10% a 40% dos homens adultos também enfrentam este problema (1). Traduzindo em números globais, estamos a falar de milhões de homens que sofrem em silêncio, muitas vezes por vergonha ou desconhecimento.
E desengane-se quem pensa que isto é apenas uma questão estética, já que consome até 2% dos orçamentos de saúde nos países ocidentais (2,3), tornando-a um problema que vai muito além da aparência: é, sem dúvida, uma questão de saúde pública que merece toda a nossa atenção.
Mas, afinal, o que é que está a acontecer no corpo de um dos homens mais poderosos do mundo? Normalmente, quando falamos de Doença Venosa Crónica referimo-nos a uma situação que ocorre quando as veias das pernas não permitem que o sangue regresse ao coração, ou seja, quando as válvulas unidirecionais que mantêm o sangue a fluir na direção correta enfraquecem, permitindo que o sangue flua para trás e se acumule, sob a força da gravidade, nas pernas.
Trata-se de um problema que, quando se torna sintomático, é geralmente caracterizado por uma sensação de peso e inchaço nas pernas, sobretudo após longos períodos em pé ou sentado. Aliás, de acordo com as informações partilhadas pelos meios de comunicação social, foi mesmo um inchaço nos tornozelos do Presidente Trump que chamou a atenção para o problema e motivou a partilha do seu diagnóstico. Uma doença que pode evoluir para formas mais graves, capazes de levar mesmo ao comprometimento da pele, pelo que o reconhecimento precoce, o tratamento e a manutenção de um estilo de vida saudável, com a prática regular de exercício, compressão e elevação das pernas são muito importantes.
Quanto aos fatores de risco, são vários, ainda que alguns não se possam alterar, como é o caso dos fatores genéticos, que se acredita que aumentam a probabilidade de desenvolver esta condição. Outros fatores de risco podem ser modificados, como o excesso de peso, o nível de atividade física e a permanência de pé durante períodos prolongados. A boa notícia é que existem tratamentos, que são diferentes consoante o estádio da doença e que, além das mudanças no estilo de vida, passam também pelo uso de meias de compressão, para reduzir a pressão do sangue sobre as válvulas e o uso de medicação oral.
Porque há forma de tratar os sintomas, importa não ignorar este problema. E, para esse fim, o diagnóstico de Trump pode ter acabado por contribuir para quebrar tabus sobre esta condição e colocar o assunto na primeira página dos jornais. Quando o homem mais mediático do planeta torna público um problema de saúde, está a abrir uma porta fundamental para a desmistificação. De repente, milhões de homens que sofriam em silêncio têm permissão para falar sobre as suas pernas pesadas, o inchaço constante, a sensação de que “algo não está bem”. A transparência presidencial transformou-se, assim, numa lição: a de que a saúde não tem género, mas os preconceitos sim, e está na altura de os deixarmos para trás.
Referências
- Management of chronic venous disorders of the lower limbs. Guidelines According to Scientific Evidence. Part I – International Angiology 2018 June;37(3):181-254 – Minerva Medica – Journals (https://www.minervamedica.it/en/journals/international-angiology/article.php?cod=R34Y2018N03A0181)
- E Rabe, F Pannier. Societal costs of chronic venous disease in CEAP C4, C5, C6 disease. Phlebology. 2010:25 Suppl 1:64-7. doi: 10.1258/phleb.2010.010s09
- Insuffisance veineuse chronique, VIDAL, consulté le 10/03/2025 (https://www.vidal.fr/maladies/recommandations/insuffisance-veineuse-chronique-4045.html#prise-en-charge)