Há ambientalistas que respeitam a racionalidade e conhecem a ciência, mas também há ambientalistas que se guiam apenas por chavões adoptados de interesses politiqueiros ou mesmo arruaceiros, sem fazerem a mínima ideia do que estão a falar. Têm o seu direito, naturalmente, longe de mim a ideia de proibir esta, entre tantas outras, irracionalidades. Na batalha contra a ignorância e a superstição não há melhor arma que a educação. E terá de ser por aí que os faremos desaparecer. Preocupa-me, todavia, que o “peso” mediático e consequentemente político dos lobbies que constituem tem graves consequências para o progresso do conhecimento e da economia.

A invenção da agricultura há uns 10.000 anos foi dos passos mais críticos na história da humanidade, permitindo entre muitas outras coisas, a sedentarização, a emergência das cidades e da cultura, da filosofia e da ciência. Como é bem sabido, a agricultura trouxe aos que a praticavam uma enorme vantagem competitiva, como o demonstra a sua progressão inexorável do crescente fértil até ao ocidente da Europa: os agricultores não ensinaram o que sabiam aos caçadores-recolectores, ou estes não quiseram (ou não souberam) aprender.

Os agricultores foram avançando e substituindo os povos anteriores nos espaços que eles ocupavam, alterando para sempre a composição genética das populações europeias. Mas a agricultura não foi inventada apenas no Médio Oriente; sabemos que apareceu independentemente em pelo menos mais uns 4 ou 5 lugares por esse mundo, dando de novo lugar à proeminência dos seus praticantes. O mesmo se passa, de resto, com espécies “sociais” de outros animais: muitas dezenas de espécies de formigas “inventaram” a agricultura e, também aqui, nenhuma destas “reverteu” para uma forma de vida e organização social sem agricultura.

Se as primeiras espécies cultivadas parece terem resultado de “acidentes genéticos” naturais, ao longo destes milénios os agricultores têm vindo a proceder paciente e sistematicamente, ao “melhoramento” das espécies cultivadas ou domesticadas, seleccionando plantas mais resistentes a pragas e variações climáticas, que produzem mais e melhores frutos, sementes ou raízes, ou seleccionando animais mais inclinados a co-habitar com o homem, que produzem mais carne, gordura ou leite.

Este processo de melhoramento das espécies “domesticadas” foi uma verdadeira epopeia, como o foram as inúmeras e extraordinárias deslocações de espécies interessantes, transportadas das terras originais para todo o mundo (basta lembrar que antes das “descobertas”, a Europa vivia sem batatas, feijão, tomate, café, entre muitas outras coisas). Nos tempos modernos, a melhoria na agricultura foi dramática: ainda no século passado conseguimos um feito inimaginável pouco antes (particularmente pelos malthusianos e outros profetas da desgraça): o mundo passou a produzir dez vezes mais alimentos com dez vezes menos agricultores e ocupando apenas uma parte dos terrenos cultiváveis por esse mundo.

Esta evolução “cultural”, com tudo o que tem de “artificial”, ou seja, de mão humana, representa um enorme progresso na luta contra a fome e a subnutrição, e deve-se à conjugação de muitas outras descobertas e inovações, como o conhecimento dos solos, os processo “artificiais” de rega e outras protecções contra variações climáticas, a invenção e utilização de novos adubos e pesticidas, a mecanização e automatização de processos.

De resultados por vezes inesperados, o processo de melhoramento genético das variedades domesticadas foi, sobretudo, um trabalho paciente e lentíssimo, pois muitas gerações são habitualmente necessárias para “melhorar” uma qualquer característica do animal ou planta seleccionados. Tudo isto se foi fazendo, guiado por noções rudimentares de heriditariedade, mas “às cegas” e sem qualquer conhecimento das alterações genéticas, por vezes dramáticas, que assim fomos introduzindo em todas as espécies cultivadas/domesticadas. Ou seja, todos os produtos “biológicos” que hoje pagamos mais caro, foram obtidos por “manipulação genética” das respectivas espécies. Sempre por “interesse comercial” de quem as produzia, nunca para “respeitar” a natureza, mas para melhor a explorar.

Nos últimos 20 ou 30 anos, com o progresso da genética molecular e da fisiologia, tornou-se possível proceder ao melhoramento de espécies de maneira totalmente controlada e racional, com resultados quase imediatos. Naturalmente, agora como sempre na História, o “interesse comercial” continua a ser a força motriz de tudo isto, mas novos objectivos mais “nobres” são também agora prosseguidos. Por exemplo, arroz geneticamente modificado que contém vitaminas e assim salva da cegueira e de várias outras doenças os povos de regiões pobres. Por vezes, os dois tipos de interesses conjugam-se: a resistência de plantas transgénicas a várias pragas e parasitas permite limitar ou eliminar a utilização de pesticidas tóxicos, é “amiga do ambiente” e diminui grandemente os custos de produção.

Em resumo, hoje fazemos melhor, mais controladamente e, sobretudo, muito mais depressa o que sempre fizemos na História. Donde a minha enorme surpresa ao assistir à resistência de alguns ambientalistas contra os alimentos “transgénicos”. Lobby muito poderoso e vocal, promotor frequente de arruaças, o “movimento anti-transgénico” é fruto de uma total irracionalidade. Se os factos acima não são suficientes, podemos juntar muitos outros. Aqui ficam os mais óbvios.

Não é verdade que os alimentos “transgénicos” fazem mal à saúde: não há qualquer demonstração, nem mesmo qualquer resultado experimental ou epidemiológico que sequer o indique (as raras “declarações” iniciais do contrário foram, entretanto, sistematicamente desmentidas por observações mais rigorosas e sérias).  De resto, não é possível que tal seja verdade: o ADN do “transgene” introduzido na espécie modificada é exactamente igual ao ADN dessa espécie, feito das mesmas 4 bases (A,T,G e C) de todo e qualquer ADN que todos nós comemos diariamente em grande quantidade, mesmo aqueles de nós que só comem produtos biológicos, cujo ADN, ó cruel desengano, é também exactamente igual a qualquer outro ADN. O que nos faz diferentes dos macacos, mosquitos, eucaliptos ou bactérias é a sequência das 4 bases que os enzimas digestivos não distinguem (como se poderia ter antecipado pela enormíssima variedade de alimentos, cada qual com as suas sequências distintas e únicas.

Entrámos agora num novo período de “transgénicos”, razão deste texto. Investigadores japoneses descreveram recentemente uma variedade de porcos “transgénicos” com músculos muito desenvolvidos que, portanto, são excepcionais produtores de carne com pouca gordura. Imagino que o lobby dos anti-transgénicos dirá, como antes, que comer carne desses animais faz mal à saúde. Infelizmente para eles, todavia, estes porcos “transgénicos” não contêm nenhum gene novo ou adicional a um porco perfeitamente “biológico”. O desenvolvimento abundante dos músculos foi obtido pela remoção de algumas bases de ADN de um gene que, nos porcos correntes, inibe esse desenvolvimento. Ou seja, o ADN destes novos porcos não têm nada de novo, têm até menos que os porcos que muitos de nós comemos todos os dias.

Espero bem que alguns dos ambientalistas do lobby anti-transgénicos, pelo menos aqueles que mantêm algum respeito pela racionalidade, reparem agora na incongruência dos seus (antigos) argumentos. Um conselho para os mais radicais: preparem-se para uma nova “frente de luta”, pois estou certo que esta maneira de fazer “transgénicos”, por mais fácil, será abundantemente praticada no futuro. Além de tudo, estudos genéticos e fisiológicos indicam que a estratégia agora utilizada (inactivação de genes inibidores) foi, muito provavelmente, a base genética mais frequente do “melhoramento” feito às cegas de todas as espécies domesticadas que hoje possuímos. Ou seja, sabemos fazer agora em poucos meses o que levava muitas gerações a conseguir, usando o mesmo mecanismo genético.

Reconheço que, sendo de base irracional, o “medo” dos transgénicos, como todos os outros, só poderá ser vencido por mais e melhor educação nas escolas e nos media. Mas não será altura dos legisladores Europeus (e nacionais), que se deixaram levar por esses lobbies sem argumentos válidos mas com um forte “impacto” disruptivo, se deixarem “iluminar” pela ciência e levantarem o travão ao desenvolvimento económico que tais medos têm vindo a impor? Nem que seja por uma razão (constitucional) de equidade: não queremos proibir ninguém de comer apenas alimentos biológicos (se são suficientemente ricos para os pagarem), mas tão pouco podemos aceitar que nos proíbam, a nós, de comer “transgénicos”, tanto mais que a hipotética doença que provocam não é contagiosa.

Um último comentário sobre um argumento, aparentemente válido, do lobby anti-transgénico: a introdução dos trangénicos resultará, a termo, numa perda de diversidade genética das espécies/variedades domesticadas. Perda de diversidade, todavia, já existia com as variedades “tradicionais”, na medida em que, num mundo globalizado, as melhores (mais resistentes, ou produtivas) substituirão progressivamente todas as outras. No caso dos transgénicos, é verdade, esse processo pode ser mais acelerado, dada a superioridade tão vincada das novas variedades.

Todavia, o argumento não é inteiramente racional, já que, cada transgénico, representa ele próprio uma nova variedade, um acréscimo de diversidade; o que precisamos é da livre produção e circulação de transgénicos, de maneira que cada produtor possa escolher na diversidade (de transgénicos e não transgénicos) existente.

Mais uma vez, a solução não está em proibir, mas em antecipar as respostas: hoje sabemos identificar e preservar para sempre (justamente por métodos de genética molecular) todas as variedades de quase todas as espécies e devemos, isso sim, apoiar o trabalho sistemático dos investigadores e técnicos dos nossos laboratórios que a tal se dedicam. Ou seja, os laboratórios especializados de todos os países deviam ter as condições para o fazer sistematicamente para todas as espécies locais.

Em Portugal, esse projecto já está a ser prosseguido, por exemplo, para a extraordinária diversidade do nosso vinhedo, mas, para ir mais longe, teremos de esperar pela reforma dos Laboratórios de Estado, há muitos anos anunciada mas nunca feita, e por maior investimento na investigação. Se não apoiamos a investigação pública, não poderemos depois queixar-nos que todas as espécies foram preservadas por privados, para usos de interesse comercial.

Ex-director do Instituto Gulbenkian de Ciência 1998-2012, presidente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa