Em 22 de Agosto de 1965, nasceram em Winnipeg, no Canadá, os gémeos idênticos Bruce e Brian Reimer. Em Abril de 1966, com cerca de oito meses, Bruce foi submetido a uma circuncisão que correu tragicamente mal: o médico utilizou um electrocautério e destruiu-lhe o pénis. Desesperados, os pais consultaram, em 1967, o psicólogo John Money, da Universidade Johns Hopkins, um fervoroso defensor da ideia de que o género é essencialmente aprendido e socialmente moldável.

Money aconselhou a reatribuição sexual imediata. Assim, aos 22 meses (no final de 1967), Bruce sofreu uma orquiectomia, a construção de uma vulva rudimentar e passou a ser criado como uma menina, sob o nome de Brenda. Money apresentou publicamente o caso — que ficou conhecido na comunidade científica como “John/Joan” — como um sucesso absoluto que “provava” a sua teoria da neutralidade de género, utilizando o gémeo Brian como grupo de controlo.

Na realidade, Brenda rejeitou persistentemente o papel feminino, sofrendo de bullying, depressão e de uma angústia profunda. Em 1980, quando tinha entre 14 e 15 anos, os pais revelaram-lhe a verdade. Bruce assumiu então o nome de David, retomou a identidade masculina, submeteu-se a novas cirurgias e a tratamentos hormonais, mas viveu sempre com um trauma crónico. O irmão, Brian, faleceu em 2002 devido a uma overdose; David suicidou-se a 4 de Maio de 2004, aos 38 anos.

Money nunca reconheceu publicamente o fracasso do seu ensaio clínico. Embora o caso tenha desacreditado a premissa de que se pode transformar um rapaz numa rapariga através de cirurgias, hormonas e socialização precoce, a lição fundamental — a de que o sexo biológico não é infinitamente plástico e que as intervenções precoces podem causar danos irreversíveis — continua a ser minimizada ou ignorada.

Décadas mais tarde, as políticas de afirmação de género continuam a transmitir a crianças e adolescentes a ideia de que podem nascer no corpo errado, que a identificação autodeclarada deve ser validada de imediato e que as intervenções médicas (bloqueadores de puberdade, hormonas cruzadas e cirurgias) não comportam riscos significativos. O resultado desta abordagem reflecte-se em casos recentes como o de Fox Varian.

O veredicto de Fox Varian e o padrão que se repete

Em Fevereiro de 2026, um júri de Nova Iorque atribuiu uma indemnização de 2 milhões de dólares a Fox Varian (actualmente com 22 anos) num processo por negligência médica. Aos 16 anos, após cerca de um ano de acompanhamento psicológico em que questionou a sua identidade, Varian (uma rapariga biológica) submeteu-se a uma mastectomia dupla. Anos mais tarde, deixou de se identificar como rapaz, descrevendo-se hoje como uma mulher “incompleta” e “desfigurada para a vida”, ciente de que nenhuma reconstrução lhe devolverá o que perdeu.

O psicólogo responsável foi acusado de ter facilitado o acesso à cirurgia, de ter assegurado à mãe de Varian que o procedimento resolveria a ansiedade e a depressão da filha, e de ter pressionado a obtenção do consentimento. Em tribunal, um perito admitiu que a recomendação para a cirurgia carecia de fundamento clínico. Este caso constitui o primeiro veredicto do género, existindo actualmente quase três dezenas de processos semelhantes em curso nos Estados Unidos, na sua maioria envolvendo raparigas adolescentes. Como reacção, a American Society of Plastic Surgeons recomendou, também em 2026, o adiamento de cirurgias mamárias, genitais e faciais até aos 19 anos, invocando a baixa qualidade da evidência científica e os riscos irreversíveis associados.

Em Portugal, este padrão de afirmação médica célere não é uma realidade distante. O psiquiatra André Ribeirinho Marques — coordenador da Unidade de Diversidade de Género e Sexologia da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental e consultor da Direcção-Geral da Saúde (DGS) para a área da saúde LGBTI — escreveu, numa carta ao director publicada em 2024 na revista Acta Médica Portuguesa (em resposta a um caso clínico de disforia de género num adolescente de meio rural):

«Muitos adolescentes com identidades de género diversas, através do consentimento informado e de representantes legais, no contexto de intervenção integrada e multidisciplinar, podem beneficiar de intervenções médicas de afirmação de género (bloqueio puberal, terapia hormonal de afirmação de género e mastectomia), com impacto positivo na redução da disforia e na melhoria do funcionamento psicossocial do indivíduo.»

Por outras palavras, uma figura central na estrutura da saúde de género em Portugal recomenda explicitamente mastectomias — a remoção de tecidos mamários saudáveis — a adolescentes, logo, a menores de idade, no âmbito do protocolo de afirmação de género.

A evidência científica continua fraca

A chamada Revisão Cass (publicada no Reino Unido em 2024) concluiu que a base de evidência científica que sustenta o uso de bloqueadores de puberdade e de hormonas em menores é “extraordinariamente fraca”. Não existem dados fiáveis que provem que estas medidas melhoram a disforia, a saúde mental ou o bem-estar a longo prazo; simultaneamente, os efeitos no desenvolvimento cognitivo e psicossexual permanecem desconhecidos. A Directora do estudo concluiu que a maioria dos jovens com angústia relacionada com o género não beneficia de um percurso de medicalização.

Países como o Reino Unido, a Suécia, a Finlândia e a Noruega já restringiram ou limitaram severamente estas intervenções, privilegiando agora uma abordagem holística e psicoterapêutica. Historicamente, a maioria das crianças com disforia pré-puberal via a sua angústia resolver-se espontaneamente com a chegada da puberdade. Os padrões epidemiológicos recentes — caracterizados por um aumento explosivo de casos, sobretudo em raparigas adolescentes sem qualquer historial na infância, frequentemente associados a comorbilidades (como autismo, ansiedade, depressão ou trauma) e sob a influência de pares e redes sociais — revelam uma baixa estabilidade diagnóstica. Dados oficiais alemães apontam, por exemplo, que apenas cerca de 36% dos jovens mantêm o diagnóstico após cinco anos.

Riscos concretos e o papel dos pais

As políticas actuais de afirmação social e médica rápida tratam a identificação autodeclarada como um facto consumado que exige intervenção imediata, em vez de explorarem as causas psicológicas subjacentes. Os riscos conhecidos incluem a esterilidade, a perda da função sexual, impactos negativos na densidade óssea e no metabolismo, além do perigo de iatrogenia (a fixação médica de uma crise de identidade que seria apenas temporária).

O consentimento de menores sob forte angústia, pressão social ou influência do ambiente escolar é jurídica e clinicamente problemático. Muitos pais relatam ser pressionados pelas equipas médicas ou completamente contornados no processo de decisão. Casos como o de Varian e de outros detransitioners (indivíduos que reverteram a transição) provam que a resposta cirúrgica falhou em resolver os conflitos psicológicos originais.

Uma perspectiva crítica reconhece que o sexo é binário e biologicamente definido. Reconhece também que a disforia de género é real e profundamente dolorosa, mas defende que a resposta adequada não pode ser a afirmação cega seguida de intervenções sem base científica sólida e com consequências irreversíveis. A solução passa por uma avaliação clínica minuciosa, terapia exploratória, tempo e respeito pela biologia. A puberdade não é uma doença que necessite de ser bloqueada.

Cabe aos pais prestar a devida atenção a mudanças súbitas de identidade, especialmente quando estas surgem associadas a dinâmicas de grupos de amigos ou ao uso intensivo de redes sociais. É fundamental procurar profissionais de saúde mental dispostos a explorar as causas do sofrimento em vez de confirmarem e validarem imediatamente a transição. Documentar todo o processo e exigir o respeito pela autoridade parental são passos essenciais. Proteger os menores de procedimentos irreversíveis e sem evidência científica não constitui um acto de “ódio”; é, sim, o cumprimento da medicina prudente e da responsabilidade parental.

A tragédia dos irmãos Reimer demonstrou o preço trágico de ignorar a biologia em nome de uma teoria ideológica. Décadas depois, esse erro continua a ser repetido sempre que se convence uma criança de que é possível mudar de sexo sem perigos reais — e quando figuras de referência da medicina portuguesa chegam ao ponto de recomendar mastectomias a menores. O caso de Fox Varian é apenas o mais recente sinal de alerta.