O Comité Nobel acaba de promover Navi Pillay a “consciência da humanidade”, dando-lhe um prémio Nobel da Paz, e exaltando a sua intensa ou pretensa luminosidade. Os episódios menos luminosos da premiada, ficaram debaixo da alcatifa do sótão.
Mas merecem ser conhecidos por inteiro porque em Oslo a biografia parece ter sido entregue à secção de hagiografia, onde falta espaço para notas incómodas e sobra para a hipocrisia.
Nascida na África do Sul, Pillay, de origem indiana, começou cedo por aderir ao grupo trostkista e aparentemente racialista (a avaliar pelo nome) “Non-European Unity Movement”. A coisa prometia.
Em 2008, tornou-se Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, órgão com o poder de criar Comissões de Inquérito, e que exige, à partida, sólidas credenciais de hostilidade a Israel e gramática acolchoada relativamente à China.
Em 2009 começou a produzir e apoiou e subscreveu o relatório Goldstone, prodigiosa cornucópia de acusações a Israel, de tal modo inverosímil que o próprio Goldstone se demarcou das conclusões, numa retratação embaraçosa para os entusiastas do “antissionismo”. Mas já não interessava, as acusações viajam de avião e a verdade segue de burro, sem subsídio de transporte. Navi Pillay fez-se de morta.
Em 2010, censurou o “desprezo” israelita pelo direito internacional (que amiúde confunde com as suas opiniões), e logo a seguir pediu a suspensão das sanções ao Zimbabué de Mugabe, memorável paladino de todos os tipos de direitos, especialmente os dele.
Em 2014, reclamou uma investigação a possíveis crimes de guerra israelitas. Só israelitas. O outro lado da guerra era como se não existisse.
Em 2017 e 2020, comparou a situação de Israel ao apartheid e defendeu boicotes, sanções, suspensão de acordos comerciais e embargo militar. Curioso “apartheid” que permite que um juiz árabe (o senhor Karra), condene um Presidente de Israel (o senhor Katsav, judeu), a sete anos de prisão.
A futura premiada pela paz, ia assim acumulando um valioso currículo nas campanhas contra o objecto principal das suas “investigações”.
Em Junho de 2021, assinou uma carta a Biden, que identificava a “dominação” e a “opressão” israelitas como causas profundas da violência. Os grandes promotores mundiais da liberdade, da paz e do direitos humanos, como Iémen, China, Cuba e Rússia, gostaram do activismo da futura “consciência da humanidade” e, no mês seguinte, foi escolhida para presidir à comissão encarregada de investigar essas causas. Nomeada pessoalmente por Nazhat Shameem Khan uma muçulmana que se move há dezenas de anos na mesma bolha da obsessão anti-israelita e é agora procuradora do ICC, obviamente.
A comissão não tinha tempo limite, pelo que a liberdade estava agora em boas mãos. Os especialistas em mantê-la sequestrada, estavam de serviço permanente e eterno. Entregar o apito vitalício a elementos da claque de uma das equipas é uma notável contribuição da ONU para o conceito de imparcialidade.
Um momento esclarecedor ocorreu em Julho de 2022.
Miloon Kothari, indiano, já com um longo historial de críticas desaustinadas a Israel e compincha de Pillay na comissão eterna, atribuiu ao “lobby judaico” o controlo das redes sociais, numa arrojada evocação dos Protocolos dos Sábios de Sião. Questionou também por que razão Israel continuava a ser membro da ONU. Face à indignação de vários países ocidentais, Pillay assanhou-se na defesa do colega porque, perante a regurgitação de libelos antissemitas, a urgência é, obviamente, proteger o colega que os verbaliza.
Kothari acabou por pedir desculpa e reconhecer o erro, tudo muito arrancado a ferros, mas continuou na bem remunerada comissão até esta produzir as suas melhores peças, em 2025. Pillay, face à retratação, manteve-se calada como um sobreiro, ganhando mais um crédito no caminho da futura apoteótica consagração como “consciência da humanidade”.
Nesse mesmo ano, um relatório de 28 páginas sobre o monotrema (Israel) mencionava este país 277 vezes, mas as palavras “Hamas” e “terrorismo”, nem com um telescópio.
Em Março de Março de 2025, a comissão publicou um relatório sobre violência sexual e reprodutiva imputada a Israel, fazendo de conta que nada acontecera a centenas de mulheres israelitas no dia 07 de Outubro de 2023. Sim, havia filmes, testemunhos, provas, mas os factos são irrelevantes quando as convicções e a ideologia partilham o palco com a “consciência da humanidade”.
Perante uma chuva de críticas, em Julho os três comissários estarolas anunciaram a saída mas, 3 meses depois, ainda com a “consciência da humanidade” ao volante, deram à luz a estentórea acusação de “genocídio” em Gaza, prontamente ecoada em cascata por uma súbita eclosão de especialistas em exóticas versões do Direito Internacional.
Uma conclusão desta gravidade exigiria escrutínio sério, mas o Comité do Nobel ofereceu à Sra Pillay, uma canonização. Quem doravante questionar a independência da criatura, arrisca-se a ser insultado por estar a ofender nada menos que a “consciência da humanidade”.
Há dias António Guterres, com a postura gelatinosa de quem transporta umas tábuas da lei falsificadas, elogiou Pillay como sendo uma voz firme e independente ao serviço da justiça. A palavra “independente”, depois do historial “antissonista” da senhora Pillay e da sua leniência com China, Irão, e outros regimes autoritários ou totalitários, tem uma elasticidade que faria inveja à indústria dos elásticos e, dita por Guterres, suscita uma memória particularmente instrutiva: em 2022, perante o desbragamento do Sr Kothari, o porta-voz de Guterres ciciou, não fosse muita gente ouvir, que o antissemitismo não tinha lugar na ONU.
Quatro anos depois, Guterres celebra sem reservas uma companheira de estrada cujo historial demonstra exactamente o oposto. A incoerência não se esconde, pelo contrário, exibe-se e assina por baixo. Na ONU que Guterres ainda dirige, vigora a máxima de São Tomás, ouve o que ele diz, não repares no que ele faz.
O problema moral resolve-se com uma engenhosa esquizofrenia. Condena-se o antissemitismo enquanto abstracção, mas descobre-se-lhe nuances, circunstâncias e desculpas quando ele é cuspido pelos amigos.
Em Oslo, o Comité Nobel escolheu uma criatura da mesma tribo, na qual revê a sua própria virtude. Pillay recebeu um prémio e o Comité criou a ocasião de se admirar a si próprio. Guterres acrescentou a bênção institucional a si mesmo e ao que andou a fazer estes últimos anos.
Quanto à paz, que por acaso dá nome ao prémio, não esteve na cerimónia e poucos repararam nisso.
Acenderam-se os lustres, ajeitaram-se as gravatas, proclamou-se virtude, anunciou-se a vitória da “consciência da humanidade” e uma nova santa entrou para os anais.
O edifício moral de toda uma civilização está a afundar-se com fragor mas, cá dentro, continuam os aplausos e poucos se apercebem do que está a acontecer porque as janelas são feitas de espelhos e os narcisos precisam deles para confirmar que são pessoas iluminadas.