A surpreendente notícia de que um filme clássico, “E tudo o vento levou”, foi retirado do catálogo HBO para os Estados Unidos da América, por ser alegadamente racista, prova que o vento, se não levou tudo, pelo menos levou a inteligência e a sensatez de muito boa gente. Entre esta atitude, certamente ridícula, e destruir e grafitar monumentos, não há grande diferença. Pelos vistos, os vândalos vieram para ficar.

Danificar e derrubar monumentos é, de facto, um acto de vandalismo, censurável pela sua violência e irracionalidade, bem como pela gratuita destruição de uma obra de arte nacional. Censurar “E tudo o vento levou …” recorda o nazismo, quando promoveu a queima dos livros críticos do regime. Os manifestantes que danificaram estátuas, decapitando a de Cristóvão Colombo, ou grafitando a do Padre António Vieira, recordam os terroristas do Daesh, quando destruíram as ruínas de Palmira e outros vestígios arqueológicos, património cultural da humanidade.

Neste tipo de comportamentos há uma boa dose de violência gratuita que, não podendo ser compreendida, por ser irracional, só pode ser lamentada e reprimida. Mas há também, a par destas atitudes mais primárias, um processo de revisionismo histórico, que revela uma certa preocupação cultural.

Com efeito, a História deve abster-se de julgar os factos e pessoas do passado ou, pelo contrário, deve avaliá-los segundo um critério ético? Em caso afirmativo, pode-se julgar uma personagem do século passado, ou mesmo anterior, segundo os princípios morais hoje dominantes? Ou, pelo contrário, deve-se entender que cada pessoa e época devem ser julgadas em função dos seus próprios axiomas éticos e culturais?

Estas questões, que já fizeram correr muita tinta, não são de fácil resposta. Mas há um exemplo a ter presente: os Evangelhos. A fé católica crê que são palavra de Deus, porque divinamente inspirados: neles estão contidos os princípios da fé e da moral cristã.

Antes de mais, diga-se que a relação da Igreja católica com a verdade não é meramente circunstancial, mas essencial. Com efeito, Jesus Cristo identifica-se com a verdade, quando afirma que ele é o caminho, a verdade e a vida. Mais ainda, o seu adversário por antonomásia é também o principal inimigo da verdade, pois o demónio é mentiroso e pai da mentira.

As crónicas nacionais são, por regra, mais apologéticas do que verdadeiras, mas com os Evangelhos acontece o contrário: por serem absolutamente verdadeiros, não só não escondem as verdades inconvenientes, como as publicitam. Neste sentido, o Evangelho é, talvez, o mais anticlerical de todos os livros.

Não é muito positiva, por exemplo, a referência às miseráveis circunstâncias em que ocorre o nascimento de Jesus: num estábulo, servindo de berço uma manjedoura. Também era de evitar, por politicamente incorrecta, a oposição que fazem a Cristo os seus próprios parentes, que duvidam da sua saúde mental. Os seus conterrâneos não têm melhor impressão: quando regressa a Nazaré e lê a Escritura na sinagoga, foi expulso e, por pouco, não foi morto também.

Os Evangelhos também não ignoram que alguns o consideravam um glutão e bebedor. Foi condenado à pena capital, com os dois ladrões com quem foi crucificado. Os evangelistas nem sequer silenciam a traição de Judas Iscariotes, cujo nome podiam não ter referido, ou omitido a sua condição de apóstolo.

Foi vários anos depois de terminada a vida terrena de Jesus que Marcos, Mateus, Lucas e João redigiram os respectivos Evangelhos. Sendo textos dirigidos sobretudo aos cristãos, teria sido lógico que se tivessem suprimido as referências menos abonatórias, não só de Jesus, mas também dos evangelistas e dos apóstolos.

São patentes, nos Evangelhos, as limitações daqueles que o próprio Cristo escolheu para seus principais discípulos: muitas vezes, não entendem as parábolas mais simples e evidentes; discutem entre eles qual será o maior; impacientam-se com os pedintes e as crianças; são vingativos, quando querem que o fogo do céu destrua os samaritanos que os não receberam; acreditam em fantasmas e temem que o próprio Jesus o seja, quando o veem a caminhar sobre as águas; não acompanham o Mestre nos seus tempos de oração, nem sequer na iminência da sua paixão e morte, etc.

Quem pior fica, nos quatro Evangelhos, era até quem então mais mandava na Igreja: o apóstolo Simão Pedro, o primeiro Papa, que deveria ter sugerido, ou mandado, que se suprimissem os episódios que não lhe eram, de facto, favoráveis.

Por exemplo, logo depois de Pedro ter sido instituído por Cristo, em Cesareia de Filipe, como primeiro Papa, Jesus de Nazaré anuncia a sua paixão e morte, a que Pedro reage negativamente. Nessa ocasião, Jesus diz-lhe: Afasta-te de mim, Satanás! Atribui ao primeiro Papa o nome do seu principal inimigo e adversário! Como poderiam os primeiros cristãos obedecer a alguém a quem o próprio Cristo chamou, publicamente, Satanás?!

Pior foi a tripla negação de Pedro, que Jesus tinha profetizado, não obstante o protesto de Pedro, dizendo-se disposto a dar a sua vida pelo Mestre. Mas, quando chegou a hora de o galo cantar, a profecia cumpriu-se. Este episódio é secundário nos Evangelhos e, por isso, era factível a sua eliminação, que facilitaria aos primeiros cristãos a obediência e união ao vigário de Cristo.

As memórias nacionais estão sujeitas ao revisionismo histórico e ao vaivém das paixões ideológicas. Os que agora vandalizaram a estátua de Winston Churchill, não teriam podido fazê-lo se este primeiro-ministro inglês não tivesse ganho a segunda Guerra Mundial. É paradoxal que, um tal abuso da liberdade de pensamento e expressão política, seja usado contra quem mais lutou por essa mesma liberdade. O mesmo se diga do nosso Padre António Vieira, a quem Fernando Pessoa chamou “imperador da língua portuguesa”: insultaram-no na própria língua que ele tanto dignificou!

A história da Igreja tem também luzes e sombras: as luzes de Deus e as sombras humanas. As misericórdias de Deus ocorrem a par e passo das grandezas e misérias dos homens. A História não tem de ser politicamente correcta, tem de ser verdadeira. O Evangelho é o paradigma, porque onde abundou o pecado, sobreabundou a graça. Só Cristo é caminho do homem, na verdade da sua história e vida em Deus. ‘E’ o resto é, afinal, o ‘tudo’ que ‘o vento levou …’