Os recentes resultados dos estudos PISA e TIMSS lançam mais discussões, pois a continuar assim certamente existirão algumas sombras sobre o futuro da educação em Portugal. Globalmente ficámos abaixo da média em áreas cruciais como Matemática e Ciências, e apesar de avanços pontuais no passado, os dados atuais mostram um retrocesso potencialmente preocupante. Não é apenas um problema de números, mas um reflexo de cultura de facilitismo, desinvestimento nas bases do sistema educativo e da incapacidade de transformar a educação num verdadeiro motor de desenvolvimento nacional estratégico para as próximas gerações. Este conceito de “próximas gerações” é muito importante, pois na Educação (com E maiúsculo) não vale a pena investir em facilidade só para termos ganhos de curto prazo ao agradavelmente simples e sem exigência. De uma forma simplificada, e usando a base do ditado popular “Não dês o peixe, dá-lhe a cana de pesca e ensina-o a pescar!”. Ou seja, nos últimos anos para não ouvir gritos de pais e crianças, o investimento não tem sido na “pesca”, mas na doação de “peixe”.

Portugal precisa de uma revolução silenciosa, mas profunda, na educação. Para isso, é essencial recuperar os alicerces básicos da aprendizagem. No 1.º e 2.º ciclos, precisamos de um reforço significativo nas competências práticas e na valorização de atividades que promovam a socialização e o pensamento estruturado. É fundamental apostar em manualidades, música e desporto como práticas regulares e no ensino aprofundado da história do nosso país e do mundo (entendemos melhor o futuro se conhecermos o passado), elementos que ajudam a construir uma identidade própria individual, coletiva e uma visão crítica de passado e futuro.

De igual importância, o foco deve estar em garantir que todos os alunos saibam ler, escrever e interpretar textos em português, que garanta não só a necessária comunicação, mas que garanta que a nossa língua e sentido patriota (não nacionalista) perdure por gerações, tal como desenvolver o cálculo e a lógica matemática. Esta abordagem, uma espécie de back to basics, centra-se no fortalecimento das fundações da estrutura cognitiva e social das crianças e jovens. A proposta aqui é clara: nas escolas, especialmente nos primeiros anos, e sendo eu das áreas tecnológicas, deve haver um afastamento das tecnologias, que já dominam o mundo exterior e onde as crianças já terão necessariamente esses estímulos. Os ambientes escolares são espaços de concentração, brincadeira (e não é problema cair e fazer feridas nos joelhos), reflexão e curiosidade, onde forçar a pergunta que nos deve acompanhar toda a vida do “Porquê?”, seja estimulada a cada passo.

Os números do TIMSS são também claros no seguinte: os alunos dos colégios privados têm desempenhos consistentemente superiores aos das escolas públicas. Isso não deve alimentar divisões ideológicas, mas sim funcionar como um alerta de que algo não está bem no ensino público! E por isso, não vale a pena pensar que a mesma metodologia terá resultados diferentes.

Para mim, que tenho 4 filhos, dos 21 aos 8 anos, cada um com as suas particularidades e que andaram em escolas públicas e privadas, revejo-me hoje, no contexto de um modelo de ensino focado no ensinar a aprender o que são direitos, deveres e responsabilidades, independentemente de ser público ou privado. Quando as crianças são incentivadas a explorar e a questionar, desenvolvem competências para enfrentar desafios futuros. A repetição da prática e a busca pela compreensão profunda, em vez de respostas imediatas ou perguntas fáceis, são cruciais para formar cidadãos críticos, resilientes e capazes de se adaptar a um mundo em transformação cada vez mais profunda e rápida.

Mais do que nunca, precisamos de preparar os nossos jovens para um futuro onde a transição digital continuará a reduzir a participação humana em muitas tarefas rotineiras (e não só), mas que exigirá um pensamento analítico ainda mais apurado. Sem um investimento sério nessas competências básicas e na capacidade de análise crítica, corremos o risco de continuar a criar gerações mais frágeis e vulneráveis à manipulação, incapazes de interpretar o mundo ao seu redor.

A cultura de respeito e responsabilidade no ecossistema escolar também precisa de atenção. Educação não é apenas um direito; é um compromisso de todos: alunos, professores, auxiliares, gestores e pais. Restabelecer a autoridade dos professores, onde o respeito pelo professor tem de ser uma verdade inalienável, e não apenas a do aluno, promovendo a autonomia das escolas, que sejam efetivamente avaliadas e comparadas entre si, para permitir uma prioridade absoluta em ambientes que inspirem a excelência com exigência, sabendo que existem naturalmente diferenças sociais em todo o país.

A história prova que mudanças estruturais são possíveis. No final da década de 80, o “choque educativo” liderado por Roberto Carneiro demonstrou que políticas consistentes podem trazer resultados. Não há soluções mágicas ou rápidas, mas o compromisso com uma educação robusta e sólida é o único caminho sustentável para um país que ambiciona ser competitivo e socialmente coeso.

Portanto, a pergunta não é apenas se o nosso país tem futuro, mas se estamos dispostos a construí-lo. Essa construção começa hoje, com aulas sem distrações ideológicas ou tecnológicas (agora chegou-se à conclusão de que os telemóveis não devem estar no 1.º ciclo…), com professores valorizados e com crianças ensinadas a questionar, interpretar e pensar. E assegurar que os nossos filhos pensam, pois pensar dá trabalho!