Há um momento onde a prudência deixa de ser virtude e passa a ser desculpa. Governar não é gerir o dia-a-dia para evitar conflitos, esperar pela próxima eleição autárquica, parlamentar ou presidencial, nem equilibrar silêncios para sobreviver politicamente. Governar é liderar a agenda, tomar decisões difíceis e assumir custos quando a decisão é correta. Quando um governo não lidera, alguém lidera por ele e, em regra geral, não são os moderados nem os responsáveis.
Os extremismos e o populismo não crescem porque são fortes. Crescem porque o poder democrático é fraco, hesitante e pouco transformador. Alimentam-se do vazio político, da lentidão reformista e da perceção de que “nada muda” e do “são sempre os mesmos”. Sempre que o centro abdica de decidir, os extremos ocupam o espaço com gritos, simplismos, teorias da conspiração e culpabilizações fáceis. Não é ideologia sofisticada, é oportunismo de soundbites para massas, alavancados na frustração coletiva.
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais são um sinal claro. Não representam uma maioria radicalizada, mas revelam um excesso de conversa e reformas adiadas, um cansaço profundo com anos de pouca execução dos governos de António Costa e o início de uma sensação similar (ou perceção, como agora se diz) que cai sobre os governos de Luís Montenegro. A pergunta que se impõe não é apenas “por que crescem os extremos?”, mas sobretudo “por que é que o governo deixou de liderar?”. A resposta é desconfortável: porque governar com medo tornou-se regra (infelizmente que se estende à União Europeia).
Reformar a saúde, a justiça, a administração pública ou a transformação digital do Estado não é opcional; é estrutural! E nenhuma dessas reformas se faz sem confronto com interesses instalados, corporações, lobbies e zonas de conforto político. Um governo que foge desse confronto não está a governar; está a adiar o inevitável. E cada adiamento reforça os poderes instalados, tal como os que vivem da indignação permanente e da promessa de soluções milagrosas do “comigo acabava a corrupção”, “comigo iam todos para a terra deles”, “comigo não haveria filas de espera nos hospitais”. Estas soluções milagrosas tiveram a inteligência irónica da candidatura presidencial de Manuel João Vieira, que subtilmente foi um grito de revolta, à semelhança da mensagem “Construam-me porra!” que havia no Alqueva, quando a decisão e construção da barragem demorava décadas.
A melhor forma de mitigar extremismos não é combatê-los diretamente no discurso. É torná-los irrelevantes pela ação. Quando um governo lidera com clareza, define prioridades, executa reformas e mostra resultados, o populismo perde oxigénio. As pessoas não seguem quem grita mais, seguem quem resolve. A política do medo combate-se com política de decisão.
Governar exige coragem para errar, corrigir e continuar com uma estratégia, com planos de ação e evidências de concretização. Exige assumir que algumas decisões serão impopulares hoje para evitar colapsos amanhã. Exige não ter medo de desagradar quando o interesse coletivo o exige. E exige, sobretudo, assumir que liderar é definir o rumo, não esperar que o ruído decida por nós.
Por isso, agora que as eleições presidenciais estão tecnicamente encerradas, a questão já não é ideológica, nem eleitoral. É existencial para a democracia: “E agora Governo? Finalmente vais começar?”.
Porque, enquanto a liderança hesita, os extremos avançam. E isso não é inevitável, é uma escolha com impactos futuros e, potencialmente profundos.