Um pouco por todo o mundo, somam-se eventos, conferências e inúmeras ações com uma missão em comum: a transformação digital designada também por Revolução Industrial ou Indústria 4.0.
Esta é uma condição histórica e não se desenha no horizonte – estamos neste momento a vivê-la.
Comecemos por enquadrar este processo de transformação. A primeira revolução aconteceu no período de 1760 e 1840 — com a invenção da máquina a vapor por James Watt. A segunda ocorreu entre 1850 e 1870 e foi assinalada pela descoberta do petróleo — o que potenciou o uso de motores de combustão e máquinas, contribuindo para uma maior eficiência das indústrias. Foi também nesta altura que surgiu a eletricidade. Na terceira, entre 1950 e o final dos anos 1970, destacou-se o avanço tecnológico. E, agora, a quarta, poder-se-á dizer que foi potenciada em Junho de 2020 com o lançamento do Plano de Cooperação Digital da ONU.
Efetivamente, foi em 2016 que o alemão Klaus Schwab introduziu a monografia 4.º Revolução Industrial, quando lançou o livro The Fourth Industrial Revolution. No entanto, só agora surge enquanto movimento global.
Não se trata de um momento fugaz ou transitório, é mesmo uma revolução e a sua imperatividade situa-se em três eixos: (1) a tecnologia ao serviço dos cidadãos, (2) uma economia digital justa e competitiva e (3) uma sociedade aberta, democrática e sustentável.
Será, então, interessante destacar aqui alguns pontos.
A transformação digital é, essencialmente, impulsionada pelas tecnologias 5G, IA, IoT, IoS, e Big Data, às quais não podemos renunciar ou prescindir da sua instrumentalização. Trata-se de um momento que está a ser experienciado à escala planetária e de uma realidade em que o tangível e o digital acontecem em conjunto e de um modo complementar.
Esta transformação digital é, também, uma revolução com pontos de ligação entre cidadãos, empresas e organismos. Ou seja, envolve-nos a todos pelos seus mais relevantes aspetos — como é o caso da saúde do planeta e das desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, coloca-nos perante uma sequência de problemas globais que exigem a nossa atenção e intervenção. Resultado: esta é uma missão de relevo e, por isso, está no topo das agendas e na linha da frente das prioridades dos países da UE.
Em Portugal, mais de 40 empresas da área das tecnologias assinaram em Maio deste ano um compromisso para concretizar o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas e dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas até 2030, uma operação organizada pela Global Enabling Sustainability Initiative.
A relação entre a tecnologia e o desenvolvimento sustentável é simétrica e está amplamente anexada à transformação digital.
Em Portugal, e de acordo com a Política de Coesão da União Europeia, foi lançado no passado dia 6 de Julho o programa “Eu Sou Digital” que está inserido no Plano de Ação do Governo para a Transição Digital e tem como objetivo promover a literacia nesta particular matéria e capacitar mais de um milhão de portugueses que nunca utilizou a internet.
Voltemos um pouco atrás.
Terá sido no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 que Leonard Kleinrock e Douglas Engelbart realizaram com um forte intuito exploratório a sua primeira experiência de interconectividade. Aconteceu na Califórnia, entre o SRI International – American Nonprofit Research Institute e o Network Measurement Center. Este foi o princípio de um sistema global ligado em rede.
Em 1990, a internet teve um enorme e surpreendente impacto na sociedade e no comércio mundial, muitíssimo marcado pela extensão das comunicações instantâneas. E aqui é importante destacar o acesso à informação que é fundamental, pois promove a dimensão humana e uma sociedade aberta e democrática.
Será também oportuno fazer referência à sigla ESG: o ambiente, a sociedade e os métodos de organização empresarial. São estes os principais indicadores na tendência dos mercados onde os consumidores apostam em produtos e serviços com impacto positivo no meio ambiente e na sociedade. Ou seja, atualmente, os investidores fundamentam e firmam a sua aposta nas empresas socialmente responsáveis e sustentáveis.
Um bom exemplo é o da TagusPark – o maior Parque de Ciência e Tecnologia de Portugal – que instalou 1566 painéis solares com a capacidade de produzir anualmente mais de 1 GWh de energia elétrica. Desta forma, foi assegurado que 97% da energia produzida pertence ao consumo das instalações, o que permite que este polo empresarial reduza a sua dependência da rede elétrica em 23% e evite a emissão de 251 toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano.
Ora, o recurso às energias renováveis na matriz energética global é uma medida assinalável para a sustentabilidade do planeta e para o desenvolvimento económico. E este é um dos principais objetivos da Green Digital Coalition (Coligação para uma Europa Verde e Digital), uma coorganização da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia e da Comissão Europeia que aconteceu no dia 19 de Março.
De modo similar, a Global Solutions Summit 2021, que ocorreu nos dias 27 e 28 de Maio, está concentrada no realinhamento do mundo pós-Covid, com o propósito de conciliar o progresso económico com a prosperidade social e a sustentabilidade ambiental.
Por sua vez, a UN Global Compact Leaders Summit: 2021, um evento que reuniu mais de 25 mil líderes empresariais, Governo, ONU e Sociedade Civil, realizou-se nos dias 15 e 16 de Junho para discutir sobre a ambição de uma ação coletiva estratégica, com objetivos focados na recuperação da crise climática.
No conjunto, a Quarta Revolução Industrial engloba a sustentabilidade ambiental, social e económica. A sua arquitetura é assumidamente estabelecida pela transformação digital que está na vanguarda e protagoniza um vertiginoso progresso. É, talvez, um dos momentos mais históricos do planeta e estamos a vivê-lo e a fazer parte dele.