Eles andam por aí. Continuam por aí. E isso até é bom para não nos esquecermos, que às vezes a memória dos povos é curta.

Esta semana foi Augusto Santos Silva que regressou à superfície – por via de uma entrevista ao Público – e Mário Centeno que deu a conhecer algumas passagens do livro que se prepara para lançar. Dois dos grandes responsáveis pela governação que nos trouxe onde estamos – Santos Silva é mesmo o político português que mais tempo foi secretário de Estado ou ministro (15 anos, 5497 dias), que mais acumulou pastas ministeriais (um total de cinco), servindo três primeiros-ministros diferentes – continuam a intervir como imaculados oráculos e sapientes visionários.

Um bom exemplo da absoluta falta de noção de algumas destas figuras é a confissão, por Mário Centeno, de que ambicionava novos voos depois das eleições de 2019:

“O titular das Finanças sugeriu manter-se como ministro até ao verão, mas com um papel transversal no Governo que lhe permitisse, sobretudo, olhar para a área da Saúde e promover mudanças que considerava importantes na interação entre o financiamento do setor e a sua gestão”.

Por outras palavras: Centeno queria ser uma espécie de vice-primeiro-ministro, uma ambição a que naturalmente António Costa não deu seguimento, o que o deixou “agastado” mas incapaz, aparentemente, de ainda hoje perceber o disparate do seu desiderato. Reparemos: primeiro que tudo, Centeno achava, e pelos vistos ainda acha, que os problemas da área da saúde se resumem ao financiamento e à gestão do sector e que nada teriam a ver com o próprio modelo do SNS.

Surpreendidos? Não deviam estar. Centeno fez parte do governo que desmantelou a anterior lei de bases do SNS e fez aprovar no Parlamento uma nova lei de bases aprovada à esquerda, com o Bloco e o PCP. Centeno sentou-se à mesma mesa do Conselho de Ministros que Marta Temido, a ministra que deu cabo da maioria das PPP no sector.

Mas Centeno não ficou por aqui. Num outro fórum afirmou que o governo das “reversões”, isto é, o das contra-reformas, foi o governo mais reformista de sempre. O mesmo governo que num ápice deixou cair a mais emblemática reforma do programa económico que o mesmo Centeno tinha desenhado para a campanha eleitoral do PS, ou seja, a redução da TSU paga pelos trabalhadores de salários mais baixos.

Ao mesmo tempo que queria subir na hierarquia do Governo – mas acabou por descer, Costa “despromoveu-o” de terceiro para quarto lugar –, Centeno só parecia ter duas preocupações, ambas bastante umbiguistas: a primeira, prosseguir ministro para poder continuar a presidir ao Eurogrupo; a segunda, sair do Governo a tempo de se ir sentar na cadeira de Governador do Banco de Portugal, uma transição que nunca devia ter acontecido por comprometer a independência do banco central, uma transição que depois permitiu a um despudorado Mário Centeno continuar a defender o seu “legado” nas intervenções que fazia como Governador.

Dir-se-á: é Centeno a ser Centeno, autocentrado como sempre e incapaz de reconhecer os danos que anos de cativações e, sobretudo, anos de subinvestimento causaram aos serviços públicos. Mais uma vez ninguém devia ficar surpreendido.

Igualmente inimitável continua Augusto Santos Silva. A entrevista que agora deu é toda ela um tratado, mas a minha passagem preferida é mesmo esta:

“Tenho procurado acompanhar o mais de perto que consigo [o julgamento de José Sócrates] porque eu também tenho uma pergunta: saber se aquele com quem trabalhei enquanto primeiro-ministro cometeu algum crime, qual e quando.”

É extraordinário: ASS continua com dúvidas sobre se existirá ou não algum crime que tivesse permitido o evidente, irrecusável, obsceno enriquecimento súbito de José Sócrates (ou será que ainda acredita na tese do cofre onde ele guardaria o dinheiro das heranças?).

De novo surpreendidos? Também não deviam estar. É bom não nos esquecermos que ASS sempre foi o “bulldog” de Sócrates, o seu cão de ataque que acompanhava a sua retórica sobre as “campanhas negras”, o governante que tentou reescrever as leis dos órgãos de informação para limitar a sua liberdade, o político com vontade de “malhar” na direita, o homem que esteve sempre mais preocupado com o segredo de Justiça que com o fazer-se Justiça.

Afinal, diz também na entrevista, a sua relação com Sócrates quando este era primeiro-ministro foi óptima. Até quando, vejam lá, trabalharam juntos “nos anos difíceis de 2009 a 2011 para que o país encontrasse uma solução que não passasse pela troika”. Viu-se: 2009 e 2010 foram os anos com maior défice orçamental deste século (9,9% e 11,4%) e em 2011 chegou a troika.

Mesmo assim ASS parece não se arrepender de nada, nem sequer da forma como deu protagonismo a André Ventura e ao Chega nos anos em que foi presidente da Assembleia da República. Nem sequer de um dia ter respondido a deputados do Chega algo tão pouco democrático, já para não dizer tão pouco respeitável, como pedir-lhes para imaginar que se a sua bancada o considerasse “seu presidente” isso seria imensa “nódoa” no seu currículo.

Mais: acha que a direita radical “pode ser derrotada a partir do campo democrático, como aliás a segunda volta das eleições presidenciais mostrou cristalinamente em Portugal”, uma afirmação assumidamente despudorada já que se opôs o mais que pôde à candidatura de António José Seguro, pois considerava que ela “não cumpria os requisitos mínimos”. Agora já vê nessa campanha eleitoral um exemplo a seguir.

Enfim, Augusto Santos Silva a ser Augusto Santos Silva, mas isso eu agradeço pois, até pela sua sinceridade: afinal os pecadilhos de Luís Neves pouca importância têm porque o que conta mesmo é contrariar “a operação de tentar liquidar (…) aqueles que, no seu passado e no seu presente (…), souberam distinguir entre criminalidade, segurança, migrações”.

Voilà: mais do que a probidade ou mesmo a competência de um ministro da Administração Interna, o que conta mesmo é o seu alinhamento com o discurso de que não há qualquer relação entre criminalidade e migrações. Em Portugal, como sabemos, faltam dados, mas noutros países (Alemanha, Suécia, Reino Unido, por exemplo) essa relação está estabelecida, mas isso pouco importa para quem vive de “narrativas” e não de factos, e não há ninguém melhor colocado para tratar de “narrativas” do que aqueles que fizeram parte do núcleo duro de José Sócrates.

Podia continuar, mas não vale a pena: é mesmo preciso ter muita falta de noção para acreditar, como parecem acreditar Centeno e ASS, que é sempre possível regressar ao discurso da superioridade moral, da inteligência fulgurante e da competência inatacável dos governantes quando estes são do PS. Muita falta de noção e também muita falta de vergonha, mas isso nunca incomoda uma elite socialista que nunca assume os erros das suas políticas, nunca faz o luto dos seus períodos negros e nunca tem a humildade de sequer respeitar os eleitores quando estes lhe viram as costas.

Costuma dizer-se dos Bourbon que “não aprenderam nada e não esqueceram nada”. Talvez seja altura de dizer o mesmo dos nossos socialistas.