“Os senhores [Chega] lembram-me bolas de sabão. Vê-se, são atrativas, toca-se, rebenta-se e não há nada”
António Leitão Amaro, ministro da Presidência, 17 de junho de 2025

Se há coisa que ficou evidente nos dois dias de debate sobre o Programa de Governo é que Luís Montenegro está empenhado em rebentar a grande bolha de ressentimento que faz de André Ventura a maior ameaça à Aliança Democrática. Se isso significa que o Governo vai empenhar todos os meios ao seu alcance para resolver os verdadeiros problemas do país, não é nada mau. Se, em alternativa, isso quer dizer que o Governo vai ser uma espécie de Chega versão mais polida, é pouco provável que as coisas venham a correr bem: entre a cópia e o original, já se sabe o que é que o consumidor prefere.

Vem isto a propósito da imigração e do embate entre Leitão Amaro e a bancada do Chega. Qualquer pessoa com algum bom senso perceberá que país algum no mundo consegue acomodar, sem sobressaltos, sem tensões, sem problemas sociais, mais um milhão de imigrantes em apenas sete anos, passando de 4 para 15% da totalidade da população. E também não é preciso ser um brilhante analista político para perceber que essa transformação social serviu de combustível para o crescimento do Chega — basta ler e ouvir o que dizem muitos dos eleitores de André Ventura e olhar para os mapas eleitorais das últimas eleições legislativas.

Quer dizer, há gente que nega estas duas evidências. Há quem sobre a imigração se limite a falar sobre contribuições para a Segurança Social, como se as pessoas que nos procuram fossem cifrões e que não importe nada a forma como são recebidas e como se integram nas nossas cidades. Se dão dinheiro, se trabalham nas nossas estufas, se servem à mesa, se nos conduzem e se nos entregam comida, então pois que se arranje mais um beliche, uma garagem ou um despensa exígua para juntar mais um à multidão que já lá (sobre)vive. E o bairro aguenta? A comunidade aguenta? Os transportes aguentam? As escolas e os hospitais aguentam? Ai aguentam, aguentam, e dizer o contrário é não ter mundividência, é não ser cosmopolita, é ser xenófobo, racista ou coisa pior.

Os atuais responsáveis pelos partidos mais à esquerda demitiram-se desta discussão e são, por estes dias, uma caricatura montada em frases feitas e negação. É uma escolha, não há muito a fazer. Uma parte dos analistas sempre que ouve “imigração” e “Montenegro” na mesma frase desata a gritar “Chega” e “plágio”. Também não acrescentam muito ao debate que se exige maduro e responsável. Resta, como parte da solução, o Partido Socialista.

No entanto, neste momento, e no que respeita à imigração, o PS é uma espécie de ovni político. Pedro Nuno Santos tinha começado o processo de reencontro com a realidade, assumindo os erros do passado, criticando a figura de “manifestação de interesse” e procurando contribuir de forma moderada para o debate. Foi trucidado por uma parte do partido, grupo onde se incluía José Luís Carneiro, então apenas e só um comentador que ia fazendo pela vida para se manter como reserva do PS.

Só que o salto para a titularidade chegou mais cedo do que seria de esperar e agora é José Luís Carneiro quem tem a batata quente nas mãos. Acontece que os primeiros sinais não foram particularmente animadores. No debate do Programa de Governo, o momento mais vivo do socialista foi quando decidiu pedir a defesa da honra para garantir que não tinha sido ele o “pai” da extinção do SEF — uma forma pouco subtil de atirar António Costa e demais camaradas de partido para a linha de comboio e lavar daí as mãos.

José Luís Carneiro também já tinha vindo dizer que a imigração não era um “problema nacional de segurança pública”, como se fosse esse o cerne do debate. Não é e não deve ser. O que deve ser discutido é de que forma é que é possível regularizar e humanizar a imigração, protegendo em simultâneo quem procura e quem recebe. É sobre isso que os partidos moderados devem discutir e encontrar soluções tão consensuais quanto possível. Carneiro tem esse perfil. Portanto, resta esperar que, na qualidade de secretário-geral do PS, venha explicar de forma estruturada e com propostas o que pensa sobre o tema.

Voltando ao Governo de Luís Montenegro. Se é verdade que um movimento migratório com esta intensidade implica desafios e que esses desafios devem ser encarados com realismo e moderação, convém, ainda assim, que não se transformem no alfa e ómega da próxima legislatura. Por um motivo muito simples: para algumas pessoas, para os vencidos da vida, para aqueles que acham que é o “outro” quem está a impedir que tenham um futuro glorioso, um imigrante no país será sempre um imigrante a mais; mas existe uma generosa maioria de pessoas que o que espera verdadeiramente é que a vida se torne pelo menos suportável. E não há lei de imigração alguma que resolva, por si só, esse problema. Onde existir desesperança e desigualdade, sobrará raiva e ressentimento. E “bolas de sabão” também.

Por isso, se Montenegro quiser travar Ventura, deve empenhar o mesmo esforço que está aplicar no desafio da imigração na garantia de que daqui a quatro anos o país cria e distribui mais riqueza, tem melhores empregos, melhor Saúde, mais Habitação, melhores transportes e mais segurança. Numa ideia, deve garantir que as pessoas têm mais esperança num futuro melhor. É mais difícil do que rever mecanismos sobre imigração em Conselho de Ministros? É. Mas também ninguém disse que ia ser fácil.

Nas próximas eleições legislativas, Montenegro será mais avaliado por aquilo que melhorou na vida concreta das pessoas do que por aquilo que disse e fez em matéria de imigração. André Ventura, já se viu, não vai dar um minuto de descanso ao líder da AD e é bom que os sociais-democratas percebam que ter sucesso nesta legislatura pode ser determinante para que não conheçam o mesmo destino do PS. E para que isso não aconteça, seria importante que Montenegro não esquecesse as prioridades e aquilo que prometeu nas duas vezes a que foi a votos.

No fundo, e regressando à imagem deixada por Leitão Amaro, é a única coisa que permitirá fazer de Ventura um comum adepto do clube londrino West Ham, o mesmo que ajudou a imortalizar a música “I’m forever blowing bubbles”. Não é uma equipa particularmente ganhadora, os adeptos estão habituados a não ganhar e reconhecem a pouca fortuna do clube (“Estou sempre a soprar bolas de sabão / Lindas bolhas no ar / Voam tão alto, quase atingem o céu / Depois, como os meus sonhos, desaparecem e morrem”). Mas quando os grandes falham, as surpresas acontecem.