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“Está tudo bem contigo?”, perguntou-me um colega de trabalho que só vejo amiúde, cortesia do teletrabalho (dele). «Sim», respondi, acrescentando: “À parte a privação de sono, ‘normal’ de pais/mães de crianças pequenas, estou ótima”. Só que não. Aparentemente, e na semana em que se assinalaram 12 meses desde o primeiro caso de Covid diagnosticado no país, dei o berro.

Na verdade, já vinha desconfiando disso há cerca de 24 horas, quando – na tentativa de entrar no prédio onde vivo – saquei do pente que trago sempre na mochila e fiz pontaria à fechadura. O que me transportou para um episódio semelhante, de há 15 anos, quando – esgotada das “n” horas semanais que bulia no meu primeiro emprego, fiz igual com o cartão eletrónico de picar o ponto.

Ex-aequo com cansada, sinto-me desiludida. Quero dizer, cansada ando há cinco anos, desde que a minha primeira filha nasceu e não comia; o que se intensificou com o irmão, que – ao cabo de quase dois anos e meio – não dorme. Só que achava mesmo que estava a lidar bem com a pandemia e respetivas consequências. Este alerta, somado à frase inicial, confirmou que estava errada.

Mas exausta com quê, afinal?

É que, mais burguesa do que eu dificilmente encontrarão: vivo a sete minutos de carro de onde trabalho. Sou funcionária pública. Por esse motivo, beneficio do direito à jornada contínua que a lei me proporciona, trabalhando 30 horas semanais por ser mãe de filhos menores de 12 anos. Dada a falta de condições (físicas e materiais) para trabalhar a partir de casa, só o fiz via remota durante 10 dias.

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Noutras palavras, há 11 meses e meio que desfruto de uma sala só para mim, onde trabalho no silêncio, conforto e segurança mais absolutos. Para o poder fazer – e porque o pai das crianças é considerado essencial numa das microempresas que, estoicamente, ainda se aguenta à crise – temos uma pessoa em casa há cinco anos, a quem podemos pagar para cuidar das crianças.

É um facto que passei a visitar o supermercado três a quatro vezes por semana, quando “antigamente” esse número se limitava a uma ou – no máximo – duas. E que, já há um mês – aos trabalhos de jurista (remunerado), mulher, mãe e fada-do-lar (não remunerados) –, acumulo as funções de auxiliar de educação, todas as manhãs, de segunda a sexta-feira, das 9 horas ao meio-dia e meia.

Também é verdade que os meus fins-de-semana são passados em prisão domiciliária – agora, que os passeios são limitados ao bairro –, a alternar atividades pedagógicas com puzzles, lutas de almofadas com corridas, jogos de escondidas com pinturas, desenhos e o que mais os miúdos se lembrem (sim, sou daquelas que faz tudo, desde que eles se mantenham em relativo silêncio).

Sem esquecer a elaboração dos pequenos-almoços, que se colam à logística dos almoços, que por sua vez se encadeiam no preparo dos lanches e – sem se perceber como, nem porquê – já vamos na confeção do jantar. E no dia seguinte toca a dobrar. Pensando bem, é cansativo. Nem consigo, honestamente, imaginar, como fazem tantos/as outros/as menos afortunados/as.