Em Portugal, o modelo de fisioterapia convencionada, comparticipado pelo Serviço Nacional de Saúde e por sistemas complementares como a ADSE, tem sido alvo de críticas cada vez mais contundentes. O que está em causa não é apenas um conjunto de imperfeições ou lapsos administrativos, mas sim a própria estrutura que sustenta estes serviços. Trata-se de um sistema que, em vez de promover cuidados especializados, individualizados, seguros e baseados na evidência, recompensa a velocidade, a quantidade e a execução mecânica de atos clínicos de baixo valor.

Esta realidade produz um paradoxo social profundamente injusto, enquanto quem tem capacidade financeira procura fisioterapia privada, com acompanhamento individualizado, exercício terapêutico estruturado e intervenções ajustadas ao seu caso clínico, quem não tem meios económicos é forçado a contentar-se com tratamentos padronizados, baseados em modalidades ultrapassadas e frequentemente desprovidas de eficácia comprovada. Não estamos perante uma desigualdade subtil, estamos perante uma clivagem evidente entre dois modelos de cuidados, onde o estatuto económico determina, na prática, o acesso à verdadeira fisioterapia.

A chamada “fisioterapia de encher chouriços” não é um exagero retórico, é uma descrição fiel do que acontece em muitas clínicas convencionadas. A sobrecarga é tal que um fisioterapeuta pode ser obrigado a acompanhar quatro a seis utentes por hora, tornando impossível qualquer avaliação rigorosa, intervenção personalizada ou acompanhamento da evolução clínica. Os fisioterapeutas passam de especialistas em movimento e reabilitação a meros operadores de máquinas e executores de prescrições médicas padronizadas.

Para agravar a situação, este modelo incentiva práticas que colocam em risco a segurança dos utentes e desvalorizam a própria profissão. Muitas clínicas recorrem a auxiliares de  Fisioterapia (pessoas sem formação superior em fisioterapia) para desempenhar tarefas que deviam estar exclusivamente nas mãos de fisioterapeutas. Tudo isto é ilegal, perigoso e eticamente indefensável. A ausência de supervisão real transforma estes tratamentos num campo fértil para erros clínicos, falta de segurança e agravamento das condições de saúde dos utentes. E, no entanto, este funcionamento é tolerado, quando não é implicitamente incentivado, por um modelo de financiamento que remunera principalmente atos rápidos, baratos e, muitas vezes, de valor clínico questionável.

O uso recorrente de modalidades passivas, perpetua práticas há muito ultrapassadas pela evidência científica internacional. Estas técnicas podem ter um efeito temporário de conforto, mas não constituem intervenção terapêutica robusta nem promovem ganhos funcionais sustentados. Continuam a ser amplamente utilizadas porque são simples, rápidas e permitem que um fisioterapeuta “trate” vários utentes em simultâneo, mantendo o volume de produção necessário para que a clínica seja financeiramente viável dentro do sistema convencionado.

Os efeitos desta lógica são devastadores. Os utentes permanecem presos num ciclo de cuidados ineficazes, que pouco acrescentam ao processo de recuperação e prolongam a dependência do sistema. Ao mesmo tempo, os fisioterapeutas vêem-se impedidos de aplicar práticas baseadas na evidência, de desenvolver raciocínio clínico aprofundado e de exercer uma intervenção plena, ética e verdadeiramente transformadora. O resultado é um ambiente profissional marcado pela frustração, desmotivação e desgaste contínuo.

Este cenário cria a ilusão de que a fisioterapia convencionada é acessível, eficaz e equitativa. Mas o que realmente se promove é um serviço que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. O sistema apresenta números impressionantes de atendimentos, mas falha redondamente naquilo que deveria ser o seu objetivo central: melhorar a saúde, a autonomia e a qualidade de vida da população.

Para ultrapassar este problema estrutural, é urgente repensar o modelo de financiamento e contratualização dos serviços de fisioterapia. É necessário abandonar a lógica do pagamento por ato e implementar um modelo que valorize verdadeiramente a qualidade, o acompanhamento contínuo, a intervenção ativa e a personalização do tratamento.

Urge também reforçar a fiscalização das clínicas, garantindo que apenas fisioterapeutas realizam atos de fisioterapia, a segurança dos utentes e a credibilidade da profissão dependem disso.

Só com um sistema que remunere qualidade, transparência e evidência científica será possível devolver dignidade à prática profissional, respeito pelo utente e, acima de tudo, resultados clínicos que façam justiça ao que a fisioterapia realmente pode oferecer. Portugal merece melhor. Os fisioterapeutas merecem melhor. E, acima de tudo, os utentes merecem cuidados que transformem vidas, não sessões que apenas alimentam estatísticas.