Quem comigo conversou um instante que seja, seguramente reparou que trago Murça em cada passou que dou. Não só pelo bairrismo do orgulho transmontano, mas principalmente pela permanente e presente lembrança do sítio que me inspira.
O que para muitos é uma porca ou um toucinho do céu e uma queijada, para mim é identidade, memória e história. E existem nomes que transformam a história, marcando-a de tal forma que deixam de pertencer somente ao passado, sendo obrigatoriamente parte do nosso quotidiano. Um destes nomes é o de Aníbal Augusto Milhais, o eterno Soldado Milhões.
Há 108 anos, entre lama, medo e o caos da Primeira Guerra Mundial, fazia-se um herói. A 9 de abril de 1918, a Batalha de La Lys revelou-se um dos momentos mais duros da participação portuguesa na guerra, circunstância que se materializou numa das mais violentas ofensivas alemãs na frente ocidental, tendo apanhado o CEP (Corpo Expedicionário Português) numa posição completamente desfavorável.
No meio da penumbra física e estratégica emerge um homem simples, oriundo do concelho de Murça. Que embora não tenha nascido herói, nem tão pouco procurado ser lembrado como tal, acabou por o ser pela forma como resistiu, pela coragem silenciosa e pela humanidade que não se perde nem mesmo no caos da guerra.
A história confirma-nos que ali resistiu sozinho ao avanço de sucessivas vagas de soldados alemães, tendo o seu fogo permitido que muitos militares portugueses e britânicos conseguissem retirar em segurança.
A familiaridade ao trabalho duro e à dureza própria das terras transmontanas certamente serviram combustível à bravura que o fizeram ficar quando seria mais fácil fugir, atitude que lhe valeu a consagração do nome e feito na História de Portugal.
É do conhecimento comum que a frase que o torna eterno é: “Tu és Milhais, mas vales milhões!”, que a sua aldeia passou, em sua homenagem, a denominar-se Valongo de Milhais, em adição ao anterior Valongo e que foi o único soldado raso português da Primeira Guerra Mundial a receber a Ordem Militar da Torre e Espada, a mais alta condecoração nacional. No entanto, a sua maior grandeza não se limita ao relatado.
A verdadeira dimensão de Aníbal Milhais está na forma como viveu depois da guerra. Longe dos holofotes e da vaidade, regressou à sua terra para viver como sempre soube: de forma simples e sem necessidade de reconhecimento, sendo o Aníbal e não o gigante que nunca pediu para ser.
Da sua história fizeram-se inúmeras reportagens, artigos e até um filme. Em abril de 2023, o executivo municipal inaugura – e bem – a Casa Museu “Soldado Milhões”, tendo recuperado a casa do soldado para a transformar num centro interpretativo onde se dá a conhecer a respetiva história, a vida da época na localidade e diferentes momentos da Grande Guerra.
No sentido inverso, embora se evidencie e reconheça o bom trabalho na execução da Casa Museu, fica difícil de compreender o respetivo horário de funcionamento: apenas terça e quinta-feira, das 09:00h às 12:00h, permanecendo encerrada nos restantes dias, incluindo fins de semana.
Mostra-se inegável o esforço desenvolvido pelo Município, bem como pela Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça, que numa edição limitada do nosso reputado azeite homenageou o soldado. Porém, tendo por consideração o legado histórico do visado, deve-se procurar promover ainda mais a marca Milhões, podendo-se começar pelo lançar do convite à rede de escolas (pelo menos da região centro e norte), com o desafio de conhecerem a história e a vida do homem que inspira várias gerações de murcenses.