A revista Forbes publica anualmente as tendências do mercado internacional da saúde em toda a sua dimensão, tendo em 2018 acertado quase na totalidade das previsões. Nesse sentido, as tendências apresentadas para 2019 são um ótimo ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre a nossa realidade nacional, avaliando o alinhamento que o país tem conseguido face a essas tendências internacionais e a importância da saúde no desenvolvimento da economia dos países e do mundo.

Em 2019 foram apresentadas oito tendências: 1) crescimento significativo dos modelos baseados no valor, com pagamentos baseados em resultados clínicos, alcançando 15% dos gastos totais em saúde; 2) a Inteligência Artificial para aplicações IT irá ultrapassar 1,7 mil milhões de dólares no final do ano; 3) a tecnologia digital usada fora do hospital crescerá 30%, ultrapassando os 25 mil milhões de dólares; 4) a Ásia torna-se o novo local de inovação, para fármacos e para dispositivos médicos; 5) a análise de dados de saúde muda do Big Data para o Small Data, bastante mais útil para as especialidades de cada hospital; 6) os cuidados de saúde passam a ser dominantes nos questionários sobre a opinião pública; 7) os sistemas de Blockchain deixam de ser meras campanhas publicitárias, passam a ser realmente implementados comercialmente, gerando retornos nos investimentos; 8) os novos modelos de seguro privado irão abanar a indústria dos pagadores de cuidados de saúde.

Analisando ponto por ponto, em Portugal já existem algumas terapêuticas alvo de contratos baseados no valor. No entanto, a difícil e demorada contratação pública e a sua dependência do Ministério das Finanças têm limitado a autonomia das instituições para inovar na contratação com fornecedores de bens e serviços, por forma a acompanhar esta tendência mundial. Mas existe, por parte das administrações hospitalares – algumas públicas e, provavelmente, todas as privadas – e de alguns profissionais de saúde, nomeadamente médicos, a vontade de progredir nestes processos. Para tal, além de negociar com os seus pagadores, os prestadores de saúde devem negociar com os seus fornecedores na mesma base, ou seja, com pagamentos baseados nos resultados clínicos obtidos previamente ao contrato.

A colaboração e envolvimento do corpo clínico neste processo é essencial e transmite uma mudança cultural pois, tradicionalmente, os médicos não gostam de ver publicados os seus níveis de eficácia clínica. No entanto, vão aceitando e aderindo a esta tendência à medida que desenvolvem as suas aptidões para a gestão moderna e que a avaliação da eficácia clínica é um importante dado para gerir os recursos significativos para a saúde dos cidadãos.

No dia 10 de maio, na Cimeira de Cascais, foi assinado um acordo entre várias instituições e a Universidade Nova de Lisboa, no qual todos os signatários se comprometeram a enveredar por este caminho da medição dos outcomes clínicos e pela valorização da prestação de cuidados que vão ao encontro do princípio do Value Based Health Care.

No que toca ao software de saúde há inúmeras oportunidades que o envelhecimento ativo e o crescimento das doenças crónicas trazem para este mercado fora e dentro do hospital. Infelizmente tudo indica que embora a produção nacional dedicada à saúde tenha um peso já significativo, apresenta pouco peso nas exportações, mostrando-se esta indústria ainda muito dedicada ao mercado nacional.

Por outro lado, as dificuldades e falta de incentivos que os reguladores do mercado nacional oferecem à investigação clínica têm impedido que o país aproveite os seus excelentes investigadores e instituições universitárias, bem como a motivação que existe entre os profissionais e as empresas internacionais que, muitas vezes, acabam por escolher outros destinos, como a previsão da Forbes indica. Creio que o país oferece uma relação qualidade-preço que poderia competir mesmo com os destinos asiáticos. Recentemente, também, foram assinados pactos para acelerar a investigação clínica em Portugal e que podem trazer alguma esperança a este sector.

De salientar que os hospitais já começam a apostar no Small data, enquanto as autoridades pretendem construir um Big data, também muito importante para o controlo da saúde de uma população. Independentemente da escala, podemos considerar que existem alguns instrumentos a nível nacional que permitem fazer benchmarking entre serviços de especialidades clínicas de forma a aplicarem estratégias de melhoria contínua dos resultados de produção clínica. Mas a recolha de dados, que eventualmente os novos modelos de negócio baseados em valor permitirão iniciar, podem constituir fortes instrumentos de gestão dentro de uma lógica de Small data. Existem alguns dados de performance, mas poucos de resultados clínicos.

Em Portugal existem empresas de software com forte conhecimento em Blockchain, que terão que diversificar o seu conhecimento agarrar a oportunidade que o sector oferece em termos de segurança dos sistemas de informação sobre a saúde dos cidadãos.

Finalmente o ponto relativo aos seguros privados. Por muito que ideologicamente se pretenda para Portugal um SNS universal e completo, no qual a saúde dos cidadãos é devidamente tratada e melhorada, temos que enfrentar o problema do financiamento. Creio não haver outra alternativa à de, contrapondo os devidos e merecidos incentivos, chamar os empregadores para responder a este problema, pois são os que mais ganham com um sistema eficaz de saúde.

Por outras palavras, proponho combinar um serviço público que dedique mais esforços à regulação do mercado, deixando a prestação e o diagnóstico para o sector privado. Nem todos os cuidados de saúde são economicamente viáveis. A maior parte são possíveis numa lógica privada e outros são mais viáveis do ponto de vista público. A experiência tem-nos ensinado que as tecnologias inovadoras se tornam mais baratas e eficazes à medida que ganham escala, ganhando assim capacidade de serem incluídas na cobertura dos seguros privados. Exemplo disso são alguns transplantes e cirurgias – antes impensáveis de constar na cobertura de seguros de saúde – que hoje já estão incluídos.

Portugal tem condições e conhecimentos que permitem acompanhar as tendências mundiais, podendo competir na inovação em diversas áreas e prestar cuidados de saúde com elevada qualidade a todos os seus cidadãos. Precisamos ser mais estratégicos e perceber que estamos todos de acordo quanto aos objetivos. A saúde é um bem de todos e para todos, que se insere num mercado que requer uma regulação exigente à sua medida, pela competência de quem exerce, pela responsabilidade de quem paga e pela capacidade de inovação de quem fornece este mercado, que é a base do desenvolvimento económico-social no mundo inteiro.

Luís Lopes Pereira é diretor-geral da empresa de dispositivos médicos Medtronic.