Como podemos garantir que as políticas de hoje estão preparadas para os desafios de amanhã?
Segundo a OCDE, cerca que 14% dos empregos podem vir a desaparecer, consequência da automação. Outros 32% poderão ser profundamente afetados, requerendo-se novas competências. O impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho, sobretudo entre os jovens e os trabalhadores menos qualificados, é uma preocupação crescente. De acordo com um inquérito aplicado pela Comissão Europeia, em 2023, mais de 60% dos cidadãos europeus manifestaram receio sobre o impacto da IA nos seus empregos.
Estes não são receios abstratos, são sinais claros de que precisamos transformar a palavra “futuro” numa prioridade estruturante das políticas públicas nacionais e europeias. Legislamos, demasiadas vezes, em excesso; regulamos, quase sempre, em resposta a algo que aconteceu; e decidimos, quase sempre, para a urgência ou para o imediato. Os desafios que enfrentamos hoje, na sua maioria, têm horizontes de décadas e é para essas décadas que temos de decidir. O mesmo é dizer: temos de decidir mais para as futuras gerações e menos para as próximas eleições.
Muitas vezes, o decisor político faz escolhas importantes sobre realidades que desconhece ou que não conhece suficientemente bem. O jogo da reação faz parte da política, mas não podemos ficar destreinados no jogo da antecipação. É compreensível que seja difícil acompanhar a velocidade do desenvolvimento tecnológico que, hoje, ultrapassa, em larga medida, a do processo político. Ainda assim, temos de, pelo menos, esforçar-nos por fazer da política um instrumento ao serviço da inovação que cria empregos, gera riqueza e promove o crescimento, e não um obstáculo a quem quer arriscar, investir e fazer diferente.
A IA, a automação, a computação quântica, a transição climática e digital, a descentralização e as novas tecnologias financeiras (fintech), as novas tendências na Defesa ou a inversão da pirâmide demográfica são realidades que estão, hoje, a mudar as nossas vidas e que, amanhã, serão dados adquiridos para as novas gerações. É para essas novas gerações, com justiça e solidariedade intergeracional, que temos de decidir, mas decidir bem.
Isto significa olhar para a economia com a consciência de que a aliança entre a IA e a automação vão revolucionar processos produtivos. Olhar para a as finanças públicas, sabendo que os capitais são hoje mais móveis e descentralizados. Desenhar políticas migratórias olhando para lá dos movimentos de hoje, mas para as realidades demográficas de todos os continentes. Decidir sobre o investimento público, tendo presente a inevitabilidade do pagamento das dívidas por futuras gerações.
Foi com este propósito que lancei o Laboratório do Futuro (Future Lab), enquanto Vice-Presidente do Grupo do Partido Popular Europeu no Parlamento Europeu — família política que integra o PSD e o CDS-PP. Iniciámos com um debate sobre o impacto das redes sociais na democracia, num tempo marcado pela desinformação e pela interferência eleitoral promovida por potências hostis. Contámos com especialistas, jornalistas, deputados e a participação especial de José María Aznar, antigo Presidente do Governo de Espanha, numa iniciativa que marca o arranque de um trabalho de longo prazo: estudar, debater e propor soluções com e para os cidadãos. Somos a primeira família política europeia a colocar o “Futuro” como prioridade.
As pessoas esperam dos decisores as soluções para os seus problemas concretos. Esses decisores existem para as encontrar, mas também para olhar mais adiante, para os desafios que se seguem. O Laboratório do Futuro está a trabalhar para construir essas soluções para o hoje e para o amanhã.