Ao longo dos séculos, a relação entre o poder executivo e a Igreja Católica apresentou-se de diferentes formas: desde a aliança estreita entre o trono e o clero na Idade Média; à limitação do poder eclesial no Iluminismo; à separação Igreja-Estado no século XIX; passando da perseguição em regimes totalitários à cooperação institucional no século XX; até à autonomia mútua sem poder político directo na história mais recente, com uma tendência clara de transição da laicidade dos Estados para o laicismo.

A laicidade surgiu para pôr fim às guerras religiosas, contribuindo não só para a paz civil, mas também para limitar o poder absoluto — tanto do Estado, que não deve impor conceitos religiosos às pessoas, como da Igreja, que não deve interferir no Governo. É fundamental para proteger a dignidade de cada indivíduo, impedindo que crenças ou convicções religiosas se sobreponham à liberdade pessoal. Só num Estado laico é possível uma governação justa, onde as leis respeitam a diversidade de convicções e ninguém é privilegiado ou discriminado por causa da sua fé.

Enquanto a laicidade garante a neutralidade do Estado e a liberdade religiosa, o laicismo vai mais longe: não se limita a separar Igreja e Estado, mas tenta expulsar a religião do espaço público, tratando a fé como algo embaraçoso ou ilegítimo fora da esfera privada. Quando isso acontece, o Estado deixa de proteger a liberdade e passa a condicionar ou reprimir a expressão religiosa, criando clivagens sociais e atentando contra a dignidade humana — precisamente aquilo que diz querer salvaguardar.

O “rasgar de vestes” pela saída de André Ventura da missa, após os resultados eleitorais de 11 de Janeiro, é um exemplo claro disso. Alguns pseudo-comentadores não hesitaram em mostrar indignação, insinuando que o político estaria a tentar capitalizar votos. Como se — numa altura em que menos de um quinto da população é católica “praticante” (redundância: ser católico implica prática) e outra parte protestante — tal gesto tivesse efeito eleitoral relevante. Pode, sim, ser interpretado como provocação, sobretudo para as “camadas intelectuais bem-pensantes”, mas é, acima de tudo, uma afirmação pública que visa restaurar a laicidade, enquanto combate ao laicismo. Ou seja, a prática religiosa não deve limitar-se ao foro privado; deve regressar à esfera pública — e até política —, devendo ser tão ou mais defendida quando tradição e cultura se vêem ameaçadas pelo relativismo e pela entrada de culturas avessas ao nosso “modus vivendi”.

É precisamente nesse contexto que se compreende o verdadeiro significado da laicidade: ela não é neutral ou passiva, nem uma formalidade. Encontra expressão prática nos crucifixos presentes em tribunais e escolas, não como religião, mas como símbolo dos valores fundacionais da sociedade ocidental, que a distinguem de outras tradições, como o Islão. A fé serve de referência ética, mas não impõe normas obrigatórias: as leis civis não privilegiam cidadãos de determinado credo, os juízes aplicam a lei civil (e não textos sagrados) e não existem punições que incluam flagelação ou outras ameaças à integridade física. A Cruz lembra ao juiz que a justiça deve ser temperada pela misericórdia, enquanto, por exemplo, na sharia tradicional, o perdão e a redenção são limitados.

O que muitos católicos que se dizem laicos não entendem é que o laicismo, entranhado na cultura do relativismo, compromete a verdadeira laicidade.

O manifesto “Católicos por Seguro”, não passa de um documento que revela um pensamento altamente primário e superficial, fundado em critérios emocionais e manipuladores: “Todo o católico, no essencial, reconhece o que o afasta de discursos e práticas marcados pelo ódio, pela promoção da guerra, pela ofensa ao Papa, pela mentira e pela discórdia. O Evangelho pede humildade, misericórdia e respeito pela dignidade humana; pede pontes, não fogueiras.”

Como assim? Jesus não expulsou os vendilhões do templo? Jesus não chamou à verdade os hipócritas? Jesus não condenou o pecado, mesmo quando doía? Jesus não confrontou poderosos e falsos profetas? Jesus não exigiu justiça, ainda que incómoda? Jesus não foi firme na lei e no Evangelho? Jesus não amou o próximo corrigindo-o, em vez de apenas abraçá-lo?

Porventura para os socialistas — sociais-democratas incluídos — “amar o próximo” significa escancarar indiscriminadamente as portas do país a mais de um milhão e meio de imigrantes? Quem é, afinal, o “próximo”: os que chegam ou os portugueses que cá vivem? Ou será que, na sua lógica, não se ama ninguém — quando políticas mal concebidas empurram os portugueses para o empobrecimento e condenam dos que vieram de boa fé a vidas indignas, marcadas por condições miseráveis? O resultado está à vista: todos privados de acesso digno à saúde, à habitação, a serviços públicos funcionais e a salários justos, num país de recursos finitos.

Ora, a Boa Nova é amar na Verdade: amar sem ilusão nem fingimento, com um amor activo e operante no mundo real — não num mundo imaginário de infinitos recursos.

Mais… Estes “paladinos da paz”, com notável desonestidade intelectual, confundem (intencionalmente?) uma liderança pacifista com uma liderança pacífica. O pacifista é perigoso e enganador: não é apenas calmo ou não violento (como o pacífico), mas recusa-se a enfrentar a injustiça, confunde passividade com virtude, substitui autoridade moral por neutralidade e, assim, facilita o mal. É essa mesma passividade e conformismo que a ideologia “woke” explora, estando profundamente enraizada na mentalidade socialista vigente. Essa ideologia propõe a desconstrução de todas as hierarquias — família, autoridade religiosa, instituições tradicionais, meritocracia —, defende aborto legal e eutanásia, reinterpreta o passado segundo categorias de opressor e oprimido e promove o relativismo moral. Tudo isto se opõe frontalmente ao legado de Cristo: defesa da dignidade humana conforme a ordem natural e divina; individualidade do sexo à nascença; espiritualidade do matrimónio e função unitiva e procriativa do sexo; protecção da vida desde a concepção até à morte natural; valorização da verdade histórica; perdão e reconciliação. A mensagem de Jesus é exigente, hierárquica e moralmente firme — nada pacifista, de facto.

Na última década, alguns políticos perceberam esta deriva ideológica, bem financiada e imposta através de manipulação de massas e de estratégias de engenharia social meticulosamente planeadas e documentadas. Compreenderam que o combate exigia uma mudança de forma, a adopção de uma linguagem “fracturante” e meios menos convencionais — é certo —, mas comprovadamente os únicos eficazes. André Ventura percebeu-o. Percebeu também que a direita falhou em cinquenta anos de “democracia” — muitas vezes apenas para alguns. Falhou por excesso de contenção, medo de desagradar, obsessão com o politicamente correcto.

E foi precisamente esse falhanço que nos empurrou para o pântano onde hoje nos afundamos, perigosamente próximos do abismo. O CDS é, aliás, o exemplo mais evidente: não caiu por falta de razão, nem por ausência de quadros ou de ideias. Caiu por se recusar a usar os meios necessários, por tentar “parecer bem” a um público já doutrinado. E não faltaram avisos (silenciados)…

André Ventura trouxe aquilo que faltava: coragem. A coragem de dar voz a milhares que permaneceram calados por medo do ridículo, do cancelamento, da perseguição profissional. Numa época em que divergir da narrativa oficial implicava — e ainda implica — penalizações reais: ameaças ao sustento, ao emprego, à estabilidade das famílias.

André Ventura é um político absolutamente instrumental na actualidade. Voltará o tempo dos políticos verdadeiramente elevados — à semelhança de Konrad Adenauer, Ronald Reagan ou Margareth Thatcher — quiçá o próprio, assumindo uma persona diferente no palco que é a política.

Mais socialismo, mais compadrios, mais regime não são instrumentos: são ameaças concretas. Acreditar em narrativas como “não-socialistas apoiam Seguro” é inevitavelmente lembrar que “o maior truque do diabo é fazer crer na sua não existência”. Negar a ameaça é, assim, render-se à ilusão.

A autora não reconhece o AO 1990.