Os Portugueses são verdadeiramente afortunados por terem nascido e viverem numa cultura onde, pelo Catolicismo, tem imperado a Boa-Nova, representada pela misericórdia e perdão, promessa da Salvação e a Encarnação de Deus que se fez homem e humilde em Cristo.
Para um Católico (e muitos cristãos), não há festa mais sagrada do que a Páscoa, que é o culminar da mensagem de Cristo, que não existiria sem a Paixão e sua Morte. A Sexta-feira Santa é um dos dias mais solenes do ano litúrgico e tem um profundo significado espiritual e religioso – comemora a morte de Jesus na Cruz, convidando ao luto, silêncio e recolhimento, com jejum e abstinência, aliados a profunda meditação sobre o sacrifício e o profundo amor de Deus por nós, convidando-nos a agir à sua imagem e semelhança, onde imperam a compaixão e absolvição. Ou seja, este dia é um dia de dor sagrada, marcado pela seriedade e não por celebrações ou divertimento.
Na nossa tradição cristã, a mensagem de Cristo, com toda a sua profundidade e simplicidade, serve de alicerce não apenas para a fé, mas também para a construção da nossa identidade cultural. Infelizmente, em tempos em que imperam o hedonismo e o individualismo, as instituições começam a não reconhecer e respeitar o que as fundou – não esquecer que as instituições europeias nascem numa cultura cujos pilares éticos e deontológicos se encontram na mensagem da Boa-Nova.
Esse desrespeito está bem presente em órgãos dirigentes do desporto, nomeadamente no futebol, quando convertem em aceitável e habitual o agendamento de jogos nas Sextas-feiras Santas, um claro ultraje e desrespeito para com Portugal, enquanto nação fundada no Cristianismo. Uma competição desportiva, que deveria reflectir os valores de união e fraternidade, parece ter-se desviado da sua missão original, ao priorizar o entretenimento em detrimento de momentos de reflexão e respeito pelas tradições culturais.
E não fosse apenas por uma questão de respeito, estas iniciativas nem ao próprio futebol convêm: poderão ter impacto na assistência, pois há quem evite eventos lúdicos neste dia, e fere a imagem institucional destas instituições, que deveriam procurar ser reconhecidas e dignificadas, mas insistem em passar uma imagem de grupos de interesses alheios à cultura dos portugueses que representam no Desporto.
E não é difícil perceber que não há vazios culturais – há substituições culturais! Não tarda, talvez o povo português, à semelhança do que já começa a acontecer noutros países europeus, comece a viver de acordo com as regras e celebrações de outras religiões, onde o perdão e a misericórdia não são claramente a palavra de ordem.
Abre-se, assim, um precedente negativo, ao potenciar a desconsideração de outros momentos simbólicos no futuro. Se as nossas origens e o legado cristão não forem preservados, corremos o risco de perder não só os momentos de celebração religiosa, mas também aquilo que nos faz sermos quem somos enquanto povo. As festas religiosas, que sempre foram um ponto de encontro para a família e para a comunidade, poderão passar a ser vistas apenas como eventos secundários, facilmente substituídos por outras formas de lazer.
Deveremos esperar pelas próximas Consoadas vividas não à volta de uma mesa com a família reunida, mas em frente a um ecrã, entusiasticamente a assistir a um dérbi? Não será altura de começar a preservar e respeitar o que nos faz verdadeiramente únicos enquanto nação?
PS: Este artigo é uma reflexão e um desabafo de uma mãe católica, que viu com preocupação e pesar a escolha de marcar competições na Sexta-feira Santa, em escalões jovens de futebol e de voleibol, envolvendo os clubes onde os filhos praticam as modalidades.
A autora não reconhece o Novo AO.