Acontecia-me com alguma frequência, ao sair da escola, após mais um dia de aulas, ficava no carro a olhar para o portão da escola a observar os alunos que saíam. Alguns a correr, outros a andar, mas a grande parte com um ar feliz. Nas malas que transportavam carregavam muito mais que simples livros, carregavam sonhos, esperança, mas também medos. Olhando para aquelas crianças do 1.º ciclo fui pensando que nós, professores, somos muito mais que transmissores de conhecimento. Somos arquitetos de futuro.
Esta reflexão surge numa altura em que o debate educativo se perde frequentemente em discussões sobre tecnologias. Não que esse aspeto não seja importante — é. Mas há algo que me inquieta profundamente: raramente falamos do elemento humano que verdadeiramente faz a diferença. Raramente falamos de nós, os educadores, e do papel transformador que a nossa liderança pode ter.
Trabalhei em várias escolas no meu percurso e em todas elas o diretor era uma figura temida, quase mitológica. Falava-se dele em sussurros nos corredores. As decisões chegavam de cima para baixo como decretos divinos, e nós, professores, éramos meros executores de vontades alheias.
Durante os meus anos de docência, aprendi que a verdadeira autoridade não vem do cargo ou da idade, mas da capacidade de inspirar confiança. Lembro-me de uma colega que, apesar de não ter qualquer posição hierárquica, era procurada por todos quando surgiam problemas. Porquê? Porque as suas palavras tinham peso e o seu interesse pelo bem-estar dos outros era genuíno.
Se há algo que aprendi nestes anos todos é que a confiança é como um vaso de cristal: demora anos a construir e segundos a partir. Uma mentira, por mais pequena que seja, uma promessa não cumprida, uma informação omitida — e pronto, meses ou anos de trabalho vão por água abaixo.
Vivi isso na pele e posso garantir-vos que a sensação é tremenda. Quando a verdade veio ao de cima — como sempre acontece —, o ambiente mudou radicalmente e levará meses a recuperar, e enquanto isso uma nuvem de desconfiança instalou-se sobre tudo e todos.
Vai demorar tempo a recuperar, porque a confiança, quando perdida, só se reconquista com ações, nunca com palavras.
Considerando a minha experiência enquanto professor, vivenciei uma das experiências mais marcantes da minha carreira quando tomei posse como diretor. Cheguei à escola, e, em vez de apresentar ideias pré-concebidas e imutáveis, nos órgãos comecei por perguntar: “O que acham desta ideia?”
A reação foi interessante porque estamos mais habituados a receber instruções, a não a ser consultados do que a ser ouvidos e levados a participar. Mas, gradualmente, começámos a partilhar ideias, a propor soluções, a assumir responsabilidades. O objetivo deste estilo de liderança é fazer com que os professores se sintam verdadeiramente profissionais qualificados, não apenas funcionários executores. Um diretor não é por inerência o que mais sabe de todos os assuntos dentro da organização, não é aquele não tem dúvidas é aquele que deve procurar dentro da comunidade as respostas para as suas ideias em perfeita harmonia colaborativa.
Esta liderança traduziu-se diretamente no ambiente escolar. Quando nos sentimos valorizados e respeitados, quando temos espaço para inovar e experimentar, esse entusiasmo contagia os alunos. Torna-se num círculo virtuoso que beneficia toda a comunidade escolar.
Não me entendam mal, as questões salariais são importantes. Todos temos contas para pagar e famílias para sustentar e, infelizmente, em Portugal paga-se muito mal aos professores. Mas se é só por dinheiro que alguém entra na educação, escolheu mal a profissão. O que verdadeiramente me move, o que me faz levantar todas as manhãs mesmo nos dias mais difíceis, é a possibilidade de fazer a diferença. Pelo menos tentar!
Lembro-me de um aluno que tive há alguns anos. Um bom aluno, mas com um contexto familiar complexo, atrasava-se, faltava muitas vezes. Eu, em vez de o repreender publicamente, fui falando com ele mostrando compreensão e disponibilizando-me para o que ele precisasse. Em vez de o penalizar, encontrámos, juntos, formas para que alcançasse o sucesso educativo. Hoje é engenheiro e aqui há tempos mandou mensagens por uma rede social a dar-me conta disso e a agradecer-me essa ajuda longínqua!
Estas histórias, estes pequenos “milagres”, são o que nos alimenta a alma. E é aqui que a liderança faz toda a diferença. Um bom líder cria condições para que estas histórias se multipliquem. Reconhece o nosso trabalho, celebra os nossos sucessos, apoia-nos nos momentos difíceis. É isso que tento todos os dias fazer!
Sei que há dias que os professores chegam a casa exaustos, não só fisicamente, mas sobretudo emocionalmente. Carregar com os problemas de dezenas de alunos, lidar com as ansiedades dos pais e ainda navegar pelas pressões burocráticas, tem um preço muito alto.
É por isso que, enquanto líder, tento compreender esta realidade, reconhecer a humanidade de cada um de nós, estar atento aos sinais de esgotamento, para conseguir fazer a diferença de forma a que um professor possa permanecer na profissão em vez de a abandonar por burnout, esgotamento, muitas vezes por falta de reconhecimento.
Muitos podem achar que esta forma de estar é condescendência ou baixar exigências, mas, na verdade, trata-se de tentar compreender que somos seres humanos completos, com vidas, preocupações e limitações. E que, paradoxalmente, é quando nos sentimos cuidados que melhor cuidamos dos outros.
O potencial de uma organização só se concretiza se criarmos as condições certas para florescer e essas condições não dependem apenas de recursos ou programas curriculares. Dependem fundamentalmente da qualidade das relações humanas que estabelecemos. Dependem de líderes que inspirem em vez de intimidar, que confiem em vez de controlar, que vejam em cada professor um parceiro na construção de um futuro melhor.
A educação está numa encruzilhada, por isso temos duas alternativas ou continuar com modelos hierárquicos obsoletos, baseados na desconfiança e no controlo, ou podemos abraçar uma nova forma de liderar, assente na colaboração, na transparência e no respeito mútuo.
Pessoalmente, acredito que não temos escolha, devemos optar pela segunda forma, ou seja, exigir um diretor que decida confiar nos seus professores de forma a que estes se sintam legitimamente ouvidos e valorizados fazendo com que esse transmita esse entusiasmo aos seus alunos. É tentar unir uma comunidade escolar em torno de uma visão partilhada.
Uma revolução que coloca o ser humano no centro da educação. E, no final do dia, não é isso que a educação sempre deveria ter sido?