A eleição presidencial que se realizará no Brasil no dia 4 de outubro tem mostrado profundas camadas dos diversos atores políticos que se propuseram a candidatar-se ao cargo de Presidente da República. À esquerda, temos Lula da Silva (PT), que concorrerá a um 4º mandato presidencial e à direita, Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que tentará ocupar a vaga do executivo brasileiro. Mas há um candidato que, ao longo desta corrida eleitoral, tem crescido nas intenções de voto entre os jovens, como possível terceira via ao petismo/lulismo e ao bolsonarismo.
Renan Santos, 42 anos, é o candidato com maiores hipóteses de roubar votos a Lula e Flávio. É Presidente Nacional do recente Partido Missão, homologado em novembro de 2025 pelo Tribunal Superior Eleitoral. É também cofundador e Coordenador Nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), criado em 2014 e que se tornou nacionalmente conhecido por liderar as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Nessa altura, Renan tornou-se Vice-Presidente do Comitê do Impeachment de Dilma, dialogando com vários atores políticos.
No dia 20 de julho, Renan Santos foi oficializado candidato à Presidência da República, tendo como vice-presidente o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina. É a primeira vez que Renan Santos disputa um cargo eletivo. Até setembro de 2026, Renan Santos e o Missão têm apostado fortemente nas redes sociais como mecanismo de engagement para angariar votos e tornar a sua candidatura mais conhecida. Por ser um partido recente, pequeno e não ter participado em eleições gerais antes, o Missão terá um financiamento eleitoral reduzido, pelo que carece de um grande número de apoiantes online. Até à escrita do presente artigo, no site queroapoiar.com.br, Renan Santos aparece como o maior político com financiamento coletivo, com cerca de R$ 2 milhões, e o seu partido também lidera o ranking com R$ 3 milhões.
Mas o que mais tem chamado atenção para estas eleições na candidatura de Renan Santos é o seu eleitorado. A 1 de julho de 2026, a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, um instituto que faz sondagens exclusivamente online, dava a Renan 37,9% das intenções de voto entre jovens de 16 a 24 anos. A 17 de setembro, este valor desceu para 25,1% (uma diferença de 2,8 pontos percentuais em relação a Flávio Bolsonaro, com 22,3%), enquanto o valor estava em 5,1% para votos gerais. Por que razão é Renan Santos tão popular entre os jovens da Gen Z?
Num cenário político, social e economicamente conturbado, Renan Santos comunica de forma agressiva e firme, o que muitos jovens desacreditados com o país querem ouvir. Ele e o partido souberam cativar um eleitorado cada vez mais ansioso, afirmando até que “as pessoas mais novas querem soluções mais rápidas” para as crises nacionais. O Missão critica abertamente o petismo e o bolsonarismo, posicionando-se como a única força política não corrupta no Congresso Nacional. Mais ainda, o partido é extremamente ativo na internet, utilizando vídeos curtos, linguagem direta, estética atrativa e engajamento em tempo real, algo que difere das restantes siglas partidárias.
Há uma vasta rede de sites, apps, contas nas redes sociais e até mesmo jogos que difundem as propostas do candidato. Por exemplo, a Valete é uma revista que funciona como um ecossistema de debates, notícias e venda de cursos online para os assinantes e militantes; Renanpédia é um site que apresenta todo o plano de governo detalhado do Missão, com indicações de cortes ou entrevistas de Renan sobre múltiplos assuntos, e o visitante pode conversar com uma IA sobre cada ideia defendida pelo partido. Todo este ecossistema serve, não só para engajar a militância na vida política, mas também para descentralizar as propostas partidárias em diversos meios, fugindo do status quo eleitoral clássico. E isto torna-se visível online: em cada entrevista ou podcast que Renan participa, milhares de pessoas comparecem e comentam “o futuro é glorioso”, “o único com propostas de verdade”, “Prendeu, Matou”, “dito isso, Renan 14”.
Quais seriam as intenções iniciais com o partido? Numa entrevista de 2024, Renan disse que a sua intenção é cativar os votos das gerações Millennials e Zoomer: “Se a gente domina a geração Z e a geração Millennial, vai demorar um pouquinho mais, mas vamos chegar sempre dominando”. O candidato estaria a refazer o caminho que Lula fez nos anos 80 e 90, consolidando uma geração de eleitores e quadros técnicos fiéis para, daqui a 10 ou 15 anos, influenciarem a política brasileira. Para isso, o partido possui um manual, chamado “livro amarelo”, onde todas as ideias do partido devem ser lidas e seguidas pelos membros do partido e militantes.
Para esta eleição, o partido tem dois objetivos centrais: ultrapassar a cláusula de barreira, atingindo uma percentagem mínima de 2,5% dos votos válidos em todos os estados, para a Câmara dos Deputados, ganhando assim representação nacional; e tornar a figura de Renan e do partido mais conhecida fora da internet. Se uma presença forte neste meio ajuda a difundir as ideias do partido, a verdade é que os números gerais são modestos: nas sondagens presenciais e telefónicas, Renan ronda os 3% a 5%, e mesmo na AtlasIntel, apenas online, caiu de quase 8% para 5,1%.
Variando consoante a metodologia, nenhuma sondagem deve ser lida isoladamente, mas o conjunto sugere que a sua força está sobretudo entre os mais jovens. E aí está o maior desafio da estratégia do partido: quem mais consome internet são os jovens, mas estes são uma parte minoritária do eleitorado – chegar a eleitores mais velhos, que se informam por outros meios, exige notoriedade que as redes, sozinhas, dificilmente dão.
Em 4 de outubro saberemos: o fenómeno Renan Santos é real nas urnas ou apenas nas redes?