O mundo tornou-se uma verdadeira selvajaria em 2025. Não que já não o tenha sido antes — sei bem que a modernização enquanto processo político e social não é linear. No entanto, é especialmente deprimente para um atlantista liberal como eu ver os Estados Unidos darem o espectáculo absolutamente grotesco a que o mundo assiste todos os dias. Não tenho qualquer expectativa de que 2026 venha a ser um ano melhor. Espero, isso sim, que as elites europeias comecem a agir de forma contundente, reclamando a sua maioridade política. Entretanto, continuando a tradição anual, aqui ficam alguns dos melhores livros que li este ano. Muitos não são recentes – simplesmente, por um motivo ou outro, foram lidos este ano pela primeira vez.

Zadie Smith: Uma Questão de Beleza. Quando este livro saiu, em 2005, muitos de nós – eu, ainda jovem aluno de licenciatura, certamente não estava – não estaríamos preparados para compreender tudo aquilo de que o livro trata. Depois de passar um ano como Radcliffe Fellow em Harvard, Zadie Smith escreveu um romance passado em Wellington, em Cambridge, Massachusetts, onde Harvard se reconhece sem esforço sob a máscara ficcional. O enredo gira em torno de duas famílias, os Belsey e os Kipps, cujos respectivos patriarcas mantêm uma animosidade académica, pessoal e política que, para quem anda nos meios universitários, é fácil de reconhecer. O livro trata de relações raciais, da presença de minorias afro-americanas nos campus de elite nos Estados Unidos e da reacção conservadora contra a affirmative action. Tudo isto misturado com humor cáustico, traições e sexo. O modo presciente como Smith tratou estes temas em 2005 é notável.

Jana Bakunina: The Good Russian: In Search of a Nation’s Soul. Jana Bakunina é uma escritora russa que vive no Reino Unido há mais de vinte anos. Nascida em Ecaterimburgo, uma cidade nos Urais que, simbolicamente, marca a divisão entre a Europa e a Ásia, Jana cresceu numa família intelectual com um pai de convicções liberais e pró-ocidentais. Aos dezasseis anos, ganhou uma bolsa para um colégio interno na Alemanha e, a partir daí, chegou a Oxford. Quando Putin invadiu a Ucrânia em 2022, Jana sentiu-se envergonhada. Um ano depois, tendo passado muito tempo sem visitar a sua cidade natal, decidiu voltar à Rússia para falar com antigos colegas da escola, amigos e, acima de tudo, o seu pai. Ao contrário da propaganda ocidental que nos garante que a Rússia está a semanas do colapso económico — sim, naturalmente existe uma componente de propaganda também deste lado —, encontrou uma cidade completamente intocada pela guerra e com uma economia pujante. Para além de discussões dolorosas com o pai, que passara de liberal convicto a defensor de Putin, Jana fica chocada com a indiferença da classe média russa perante o destino do povo ucraniano. O afastamento da família, que a vê agora como alguém que traiu os valores russos em nome de um Ocidente em decadência, é um dos fios condutores mais pungentes do livro.

Javier Cercas: O Louco de Deus no Fim do Mundo. Javier Cercas voltou em grande forma. Ateu convicto e militante, ficou surpreendido quando o Vaticano o convidou para um trabalho especial: acompanhar o Papa Francisco numa viagem pastoral à Mongólia. Este convite incluía ainda a possibilidade de entrevistar longamente várias figuras-chave no Vaticano, antes e depois da viagem. Cercas pediu a possibilidade de falar com o Papa porque tinha uma pergunta pessoal para lhe fazer. Filho de uma mulher muito devota, pretendia perguntar ao Papa, em nome da mãe, se esta voltaria a ver o marido depois da morte. O livro é absolutamente notável, de uma densidade incrível sem nunca perder o registo clássico de Cercas. As passagens mais interessantes são, em minha opinião, aquelas que acontecem na Mongólia, um país com uma comunidade católica de apenas 1.500 pessoas. As conversas com os missionários sobre as dificuldades de adaptação à língua, ao clima, à cultura e à desconfiança inata de um povo com o gigante chinês ao lado são fascinantes. A Mongólia surge como uma espécie de cápsula do tempo intocada, em que o trabalho destes missionários é muito semelhante àquele que acontecia noutras partes do mundo há séculos. O livro termina num dia de chuva, quando Cercas e a mulher estão a sair do cemitério após o enterro da mãe, com o autor a parar ao lado da estrada, no meio do nada, e a receber um telefonema do Papa Francisco.

Omar El Akkad: Um Dia, Sempre Teremos Sido Todos Contra Isto. Não gostei deste livro, apesar de o ter lido até ao fim. Esteticamente é um livro interessante; no entanto, tem uma perspectiva de tal modo enviesada sobre Gaza que não podia deixar de escrever sobre ele. Do conforto de Portland, beneficiando das liberdades cívicas dos Estados Unidos, o autor comete, a meu ver, dois erros capitais. Em primeiro lugar, minimiza totalmente os acontecimentos de 7 de Outubro de 2023. Sei bem, para citar Guterres, que o ataque terrorista a Israel não ocorreu num vácuo. No entanto, num livro de duzentas páginas dedicado a Gaza, não passar mais de uma — juro! — a falar do 7 de Outubro é, no mínimo, perturbador. Em segundo lugar, toda a perspectiva do autor apresenta o povo palestiniano, e todo o mundo árabe, de resto, como meros espectadores e vítimas de um mundo que não controlam nem sobre o qual têm qualquer influência. Por exemplo, a dada altura, El Akkad conta que vivia já no Canadá quando ocorreu o 11 de Setembro e que esse acontecimento marcou um ponto de inflexão na forma como os muçulmanos são tratados no Ocidente. Em vez de fazer uma reflexão séria sobre as implicações desta afirmação, limita-se a constatar o facto — existiu o 11 de Setembro —, como se se tratasse de uma mera nota de rodapé na história. Mais uma vez, não existe qualquer agência política ou moral por parte dos terroristas, que surgem como figuras abstractas, meras consequências da política imperialista do Ocidente, desprovidas de vontade, responsabilidade ou ideologia próprias. O problema desta leitura não é apenas a sua simplificação: é a condescendência implícita de recusar a certos actores a capacidade de agirem por si mesmos, para bem ou para mal. Vale a pena ler este livro para compreender como certas correntes políticas ainda não parecem ter percebido que o mundo não é preto e branco — ou, talvez mais ironicamente, como acabam por reproduzir exactamente o maniqueísmo que julgam criticar.