A Alemanha vive o momento mais complexo desde o final da Guerra, incluindo os momentos de ajuste de contas nacionais como os julgamentos de Frankfurt, a fúria terrorista dos anos 70 e a reunificação. Neste momento o país enfrenta uma tempestade perfeita que põe em causa o seu modelo económico e social. O interesse para Portugal é óbvio: uma crise existencial na Alemanha tornar-se-á rapidamente uma crise da própria União Europeia, especialmente num momento em que o destino político de França é altamente imprevisível.
Em primeiro lugar, a Alemanha está neste momento a viver o seu choque chinês. Em 2001, quando a China entrou para a Organização Mundial do Comércio, a já de si pequena base industrial da periferia da Europa foi dizimada. A indústria alemã, pelo contrário, floresceu, uma vez que era um complemento quase perfeito ao mercado chinês, vendendo químicos, máquinas sofisticadas e carros. Hoje, passados 25 anos, a China está a dizimar a indústria alemã. Nos automóveis, por exemplo, a indústria alemã ainda consegue ser competitiva graças às tarifas – sim, tarifas, a Europa também sabe jogar sujo quando está desesperada – impostas aos carros chineses.
Em segundo lugar, a invasão da Ucrânia pôs em causa a ligação histórica que as elites alemãs tinham à Rússia, assim como a estratégia que desenvolveram durante décadas de controlar o gigante do leste através da integração económica. A consequência mais imediata foi o fim do gás barato, o que agudizou ainda mais as dificuldades económicas trazidas pelo choque chinês. A invasão russa aconteceu em cima de um verdadeiro tiro no pé que Merkel deu de forma completamente irracional e sem pesar as consequências de longo prazo: o fim da energia nuclear. Em 2011, quando o tremor de terra abalou Fukushima, Merkel decidiu, quase do dia para a noite, acabar com o nuclear na Alemanha, matando, assim, a fonte de energia mais eficiente e que, neste momento, poderia ser bastante útil. Para piorar tudo isto, depois do fim do nuclear por iniciativa própria e da guerra da Ucrânia, a Europa virou-se para o golfo, especialmente para o gás liquefeito importado do Qatar como substituto barato da energia russa. Em Março passado, a guerra que Trump estupidamente começou com o Irão fragilizou também esta componente.
Em terceiro lugar, a Alemanha está perante um problema de declínio demográfico e um potencial problema no sistema de pensões. Em tempos, este problema poderia ser resolvido com mais imigração. Todavia, hoje, o consenso político no país é claro: o eleitor médio – incluindo à esquerda – quer uma política de imigração muito mais restritiva. A opinião pública é inequívoca também sobre a decisão de 2015 de abrir as fronteiras: foi um erro colossal. A isto soma-se o crescimento de sentimentos de chauvinismo do Estado-providência, isto é, da ideia de que os benefícios sociais devem ser reservados aos nativos, excluindo os imigrantes. Independentemente daquilo que pensemos sobre imigração, e a minha posição é certamente bastante liberal, esta é a posição do eleitor médio e, numa democracia, essa posição deve ser respeitada.
Em quarto lugar, para embalar tudo isto, a Alemanha perdeu o seu referente na política internacional. Desde 1949 que a aliança entre Bona, primeiro, e, depois, Berlim, e Washington foi o eixo central da política alemã, muito para lá da relação com Paris. O fim do consenso atlântico e a total incerteza existente sobre o futuro da NATO colocam a elite atlantista alemã à beira de uma crise existencial. Sem a garantia de segurança americana, a Alemanha enfrenta agora a perspectiva de ter de financiar sozinha, ou quase, a defesa europeia — um fardo orçamental e político para o qual não está preparada, nem tem consenso interno para assumir.
O corolário de tudo isto é o crescimento explosivo da extrema-direita no país da Europa cujos fantasmas do passado tornam a existência de movimentos como a AfD mais difíceis de gerir do ponto de vista político e até emocional. A AfD nasceu no meio da crise do Euro, alimentada por um grupo de académicos que estavam contra o resgate à Grécia. Entretanto, transmutou-se num partido que mistura neoliberais, libertários e neo-nazis. A sua estratégia de acção recupera, de forma expectável, muitos dos movimentos orgânicos do século XX através da activação de redes de sociedade civil, que se mobilizam constantemente – e não apenas em momentos eleitorais – em manifestações contra a Islamização da Europa, as políticas de resposta à Covid-19 ou a própria globalização. Algum do seu argumentário sai directamente de grupos de inspiração declaradamente nacional-socialista. Por exemplo, o líder do partido na Turíngia, Björn Höcke, já afirmou abertamente que a Alemanha tem de “fazer escolhas difíceis” quanto à expulsão de cerca de dez a vinte milhões de pessoas que não pertencem ao Volk.
De forma curiosa, muita gente parece ainda alimentar a secreta esperança de que o voto na AfD é meramente económico e feito por descamisados que, infelizmente, ficaram para trás na globalização. Num paper ainda não publicado, o cientista político alemão Hanno Hilbig utiliza dados das eleições regionais de 2026 para mostrar, através de métodos estatísticos sofisticados que comparam a região da Saxónia-Anhalte com a mesma região numa versão sintética e hipotética — isto é, um cenário contrafactual construído a partir de 178 municípios sem investimento —, qual teria sido o resultado eleitoral da AfD na ausência de investimento. Hilbig analisa 86 projectos de investimento anunciados em 40 municípios entre as eleições de 2021 e de 2026, desde a fábrica de gelados da Florida Eis, em Schönebeck, ao centro logístico de 500 milhões de euros da Daimler Truck, em Halberstadt. Os resultados são muito interessantes. Nos municípios que receberam investimento, a subida da AfD foi entre 2 e 3.5 pontos percentuais inferior à do grupo de comparação sintético, consoante a definição utilizada. Mesmo nos dois municípios com investimentos individuais superiores a 500 milhões de euros, o travão ao avanço da AfD não ultrapassou os 3.5 pontos percentuais. Tendo em conta que o partido cresceu cerca de 23 pontos percentuais em toda a Saxónia-Anhalte nestas eleições, o efeito do investimento equivale, na melhor das hipóteses, a pouco mais de um décimo do avanço total da AfD. Por outras palavras: o crescimento económico visível até ajuda a travar a extrema-direita a nível local, mas o seu efeito é modesto de mais para explicar, sozinho, o fenómeno — o que sugere que a secreta esperança de muitos, a de que bastaria mais investimento para resolver o problema, não encontra grande apoio empírico nos dados.
Esta crise não é apenas alemã. Se Berlim vacilar ao mesmo tempo que Paris atravessa a sua própria paralisia política, a União Europeia fica sem os dois pilares que a sustentaram durante décadas. E, para Portugal, os sinais dessa fragilidade vão na próxima negociação do quadro financeiro plurianual, quando ficar claro que um envelope de coesão mais magro é o preço concreto de uma Alemanha que deixou de ter a força — e talvez a vontade — de continuar a pagar, como fez durante décadas, a factura da integração europeia.