Quando dois comboios chocaram na linha entre Madrid e Sevilha, fazendo de Espanha o país com mais mortos em acidentes de comboio per capita de sempre, passando uma imagem perfeitamente terceiro-mundista de um país que Sánchez e os seus apaniguados, que também existem em Portugal, juram ser uma luz no mundo das políticas progressistas, a narrativa que Sánchez esperava ter até às eleições de 29 de Novembro estilhaçou-se.
O lugar simbólico que a alta velocidade ocupa no ethos Espanhol é muito importante para perceber as consequências políticas e sociais de dois acidentes muito graves em menos de um ano. Em Espanha, a alta velocidade é sinónimo de desenvolvimento, de modernização, de, finalmente, depois de décadas da autarcia, o país estar a tornar-se Europeu, no sentido mais amplo da palavra. O desmoronar de tudo isto é, simbolicamente, algo que representa bem o fim do Sanchismo enquanto corrente política.
O Governo, no entanto, nunca perdeu o sangue-frio. Poucas horas depois do acidente, ainda o corpo de António Acedo não havia sido retirado dos escombros e entregue à sua família para fazer o luto, já circulavam em todos os jornais as gravações dos momentos finais entre o maquinista e a central de comunicação em Madrid. Sejamos claros. Gravações desta natureza não saem de uma central de controlo da Adif, uma empresa pública que responde ao Ministério dos Transportes, por geração espontânea. É evidente que o Governo deu ordens para que as gravações fossem tornadas públicas, a fim de servir o propósito político: transformar o acidente num erro humano que, segundo Óscar Puente, ministro que passa mais tempo nas redes sociais a malhar, fazendo-me recordar alguém que tinha papel análogo num governo de má memória em Portugal, nos adversários, do que a governar. Num primeiro momento, Puente disse que a decisão de avançar depois de o sistema de segurança falhar era “inexplicável”. Só depois, e porque lho perguntaram, acabou por reconhecer que o sistema falhara cento e setenta vezes só em 2026.
Sánchez passou os últimos três anos completamente desinteressado do país, mais preocupado em acções performativas – como ser o campeão da imigração descontrolada ou fazer da causa Palestiniana o centro do mundo — para tentar tornar-se uma espécie de bússola moral da Esquerda na Europa. Quanto ao país, não aprovou um único Orçamento do Estado, a primeira vez que um executivo da democracia acaba a legislatura nestas condições. Aprovou, segundo dados oficiais, apenas 37 leis em mais de três anos, fazendo desta a legislatura menos produtiva desde a democratização em 1978, muito longe de qualquer legislatura normal, de qualquer governo, de qualquer partido.
A conta acabaria por chegar. Um país governa-se com orçamentos, porque é neles que se decide o que se constrói, o que se mantém e o que se renova, e uma rede ferroviária que o Estado deixou envelhecer, como se vê pelos cento e setenta falhanços de um único sistema de segurança, é precisamente o tipo de coisa que só uma política de investimento planeada, aprovada e fiscalizada consegue travar. Nada disso foi feito, não porque faltasse dinheiro, mas porque o governo de Sánchez era, desde o início, contra-natura, juntando preferências políticas que iam da extrema-esquerda à extrema-direita. A atenção de Sánchez foi toda para os votos de que precisava na semana seguinte, os dos partidos independentistas que lhe cobravam cada favor, os da esquerda à sua esquerda, que lhe cobravam outros, e para a gestão da própria imagem num mundo em que a imagem era, de facto, a única coisa que o Governo produzia com regularidade.
A desfaçatez de Sánchez é de tal modo extraordinária que, quando começaram os protestos da habitação ou, agora, no momento do acidente de comboio, falou num tom indignado, dizendo que o Governo tinha de prestar contas sobre o que havia sucedido, como se ele próprio não fosse o titular do cargo de primeiro-ministro nos últimos dois anos.
Só que a previsível vitória de Feijóo será a de um homem que ganha e não consegue governar sozinho. O líder do PP precisa de Vox em quase todos os cenários plausíveis, e Abascal, que percebeu isso antes de toda a gente, já veio dizer que as suas condições passam pela «remigração», pela «prioridade nacional» e pela desregulação económica, um programa que em qualquer capital europeia exigiria meses de negociação e, com alguma probabilidade, um divórcio. Feijóo, que governa com Vox em quatro comunidades autónomas e exibe esses pactos como prova de que a coisa funciona, vai ter de explicar a Bruxelas, ao eleitorado moderado que lhe dará a vitória e a uma parte do próprio partido por que razão o que funciona numa autonomia funcionaria no Estado, e vai ter de o fazer sob a vigilância de uma imprensa e de um adversário que durante anos invocaram precisamente este espantalho, e que agora o vêem crescer à custa do que próprio Sánchez deixou apodrecer.
É essa, talvez, a ironia final. Sánchez passou três anos a governar com o medo de Vox como único programa, e é Vox quem lhe vai cobrar a factura, e a Feijóo também. Se a direita ganhar mas encalhar nas negociações, Espanha arrisca-se a repetir o que já conhece: governos frágeis, orçamentos que não passam, um sistema político que troca de dono sem trocar de método. E ficará, aos olhos do continente, como o país que construiu uma das maiores redes de alta velocidade do mundo e se esqueceu de quem a faria andar em segurança, governado durante anos por um homem que, quando lhe pediram contas, só soube oferecer mentiras.