Há muito que Zygmunt Bauman nos alertava para os perigos da “modernidade líquida”, um tempo em que tudo escorrega, tudo se desfaz, tudo se substitui. Pessoalmente, acho que hoje, já não vivemos apenas numa modernidade líquida. Entrámos numa fase ainda mais volátil, efémera e desestruturada. Uma modernidade gasosa, onde os valores se evaporam, a consciência colectiva rareia e o único culto que se mantém firme é o novo culto do “EU INDIVIDUAL”.
O recente caso com que nos deparámos nos últimos dias — a violação de uma jovem de 16 anos por três “influencers”, em Loures, filmada e disseminada nas redes sociais sem qualquer intervenção ou denúncia de quem assistiu — não se afigura como uma simples tragédia individual. É um retrato brutal do estado da nossa sociedade. Um vídeo de sofrimento foi consumido e partilhado por milhares, em silêncio, como se fosse apenas mais um conteúdo viral. Um crime tratado como entretenimento.
Vivemos obcecados com a exposição e a aprovação instantânea. O sofrimento dos outros transformou-se em espectáculo mediático. A empatia foi substituída por estatísticas de visualização. A moral cedeu lugar à performance digital. Desliza-se o dedo para cima e para baixo presos numa realidade que já não choca — apenas distrai.
O digital, omnipresente, já não é apenas um meio — tornou-se um fim, uma nova doutrina sagrada, onde os influencers assumem o papel dos novos pastores de uma fé sem transcendência. Uma fé que prega a estética da vida perfeita, o imediatismo, a validação social e a exposição constante. A sua palavra molda comportamentos, dita tendências, cria mitos — e apaga consciências. O palco digital substituiu o púlpito, os seguidores tomaram o lugar da comunidade, e os likes tornaram-se a nova forma de absolvição.
Nesta nova doutrina, pratica-se o culto do “EU” — um eu moldado pela auto-satisfação imediata, pela lógica cega dos algoritmos, pela efemeridade das partilhas e pela necessidade constante de interacção e aprovação. Já não se pensa no impacto do que se vê ou do que se faz, apenas na reacção que pode gerar. A dignidade humana é esmagada sob o peso da performance digital. A dor do próximo é só mais uma notificação. Tudo vale para potenciar narrativas através dos algoritmos.
É urgente resgatar o sentido de comunidade, de responsabilidade cívica, de empatia. Educar para a cidadania não é um luxo — é uma urgência. Precisamos de literacia digital, pensamento crítico e valores éticos adaptados à era digital. Precisamos de ensinar que assistir a um crime e calar não é neutralidade — é cumplicidade.
As redes sociais, outrora promissoras plataformas de partilha e democratização da informação, tornaram-se arenas de julgamento, vitrinas de egos e repositórios de indiferença. Tudo é medido em alcance. Nada em profundidade. Isso não é liberdade de opinião e inclusão — é nivelar por baixo. A dignidade humana acaba por ser o preço a pagar. Ortega y Gasset sublinhou isso quando disse: “o homem-massa não quer ter razão nem dar razões, quer simplesmente impor as suas opiniões”.
O caso de Loures não pode ser apenas mais uma manchete. Tem de ser um ponto de ruptura. Um alerta para a urgência de mudar. Não se trata apenas de responsabilizar os autores dos crimes. Importa também responsabilizar os que vêem, partilham, comentam — e nada fazem. O silêncio de milhares vale tanto quanto a violência de três.
Temos de ser capazes de olhar para os olhos dos nossos filhos, irmãos, alunos, vizinhos e questionar: que sociedade estamos a permitir criar? Uma sociedade onde a dignidade é negociável? Onde a violência é consumível? Onde a empatia é facultativa?
Bauman dizia que, na sociedade líquida, os vínculos eram frágeis e descartáveis. Hoje, na sociedade gasosa, os vínculos já nem existem. Somos átomos isolados, flutuando num vazio moral, viciados na ilusão da disrupção digital.
Ainda vamos a tempo. Mas só se trocarmos o conforto da indiferença pela coragem da acção. Que este momento nos sirva de espelho. Porque, enquanto ainda formos capazes de nos indignar, existe esperança. Mas essa esperança não é passiva — exige acção. Exige consciência. Exige coragem.
Nota final: Este artigo não pretende chocar. Pretende ser apenas um aviso — um apelo — para que não sejamos cúmplices da indiferença. Porque o silêncio e a inacção colectiva são o solo fértil onde germinam os horrores do presente e do futuro.