No último final de semana, entre os dias 14 e 16 de fevereiro, teve lugar a Conferência de Segurança de Munique – talvez a mais importante conferência de segurança do mundo. No primeiro dia da conferência, o novo Vice-Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), JD Vance, proferiu um discurso no qual afirmou que o maior perigo para a União Europeia (UE) não é a Rússia nem a China, mas sim a própria UE (apontando deficiências no cerne das democracias europeias). Para muitos, estas declarações foram apenas uma reafirmação de que a UE já não conta com os EUA, tornando claro que valores comuns que outrora uniam os países da União Europeia ao seu maior aliado transatlântico deixaram de o ser.

Não bastassem as declarações do Vice-Presidente JD Vance, as mais recentes notícias sobre a Guerra da Ucrânia, entre enviados da Casa Branca e do Kremlin, à revelia da UE, reforçam a desconsideração dos EUA para com o seu parceiro e aliado. Mais ainda se acrescenta o sentido transacional, demonstrado pela intenção da administração Trump, que só deverá garantir apoio militar à Ucrânia se tiver direitos sobre as terras raras abundantes no território ucraniano.

Em reação aos últimos acontecimentos, o Presidente francês, Emmanuel Macron, convocou alguns líderes da UE para uma reunião de emergência em Paris, a que se juntou o Primeiro-Ministro britânico, Keir Starmer. O ponto principal da agenda foram as negociações de cessar-fogo na Ucrânia lideradas por Trump, das quais a UE não fez parte até ao momento. Mas, afinal, que opções há para a UE face a esta mudança de atitude dos EUA?

Talvez a principal opção ao alcance da UE, que lhe permitirá tomar o futuro nas suas mãos, seja continuar e intensificar os esforços já em curso para estabelecer uma indústria de defesa europeia. Mas não só: é essencial que seja consensual entre os Estados-Membros da União Europeia, o sentido de urgência em matéria de Defesa e Segurança. Desde os Bálticos até à Península Ibérica, não devem haver dúvidas sobre quão próxima está a ameaça Russa. Seria ilusório pensar que a ameaça Russa está distante de Portugal, aliás, essa foi a ideia defendida pelo Secretário-Geral da NATO na sua recente visita a Portugal, quando, perante o Governo Português, realçou que o objetivo de 2% do Produto Interno Bruto em investimento na defesa – que Portugal só deverá atingir em 2029 – já não é suficiente.

Os países da UE precisam de preparar-se para todos os cenários possíveis, incluindo o de uma eventual saída dos EUA da NATO. Essa possibilidade impõe desafios, mas também abre oportunidades. As lições aprendidas em crises passadas mostram-nos que a UE cresce e amadurece quando confrontada por adversidades. Um exemplo recente foi a forma como a UE lidou com a pandemia da COVID-19, com a compra conjunta das vacinas, seguida do pacote Next Generation EU, que originou instrumentos como o Plano de Recuperação e Resiliência – a “Bazuca” – de que as economias da UE tanto precisavam.

O momento atual exige uma UE ainda mais inovadora e empreendedora na sua forma de decidir e atuar. Uma UE capaz de reduzir dependências em setores estratégicos como a defesa e a segurança, incluindo a segurança económica.

Os mais recentes acordos internacionais assinados ao abrigo da estratégia Global Gateway, que visam a diversificação das cadeias de valor e o abastecimento de matérias-primas críticas, têm um enorme potencial de crescimento. Esse movimento tem sido impulsionado, em grande parte, pelo impacto dos primeiros quase 30 dias desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, período em que vários países, como o Canadá, o México e a África do Sul, têm procurado aproximar-se mais da UE – um ponto extremamente positivo numa altura de total reorganização da geopolítica mundial.

Com uma Comissão Europeia voltada para a competitividade, o alargamento e a defesa, o executivo liderado pela Presidente Ursula von der Leyen será tão eficaz e bem-sucedido quanto maior for a vontade dos Estados-Membros da União Europeia de olhar para aquilo que os une e os torna mais fortes – a união na diversidade, a democracia e o Estado de direito. Só assim conseguirão ultrapassar os desafios presentes e futuros.

O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.