A ninguém terá passado despercebido o manifesto empobrecimento, quando não esgotamento, da nossa belíssima língua. Não há muito – século XIX e mesmo XX -, a língua tinha outro fôlego e os homens de letras não hesitavam quando confrontados com a escolha entre uma palavra corrente e esses ‘riquíssimos minérios do mais fino ouro”. Escrevessem eles hoje, evidentemente que seriam apupados e considerados pernósticos ou barrocos.

Como prova do que dizemos bastará compulsar um livro de Camilo Castelo Branco ou Aquilino Ribeiro e cotejá-lo com obras contemporâneas, cujo mérito estético (por vezes até superior) é irrelevante para o propósito deste artigo.

Ora, não necessitamos de um Wittgenstein para saber que o tamanho do nosso mundo é equivalente ao arsenal do nosso conhecimento e que esse conhecimento apenas se manifesta e é compreensível através dessa construção colectiva chamada linguagem. Assim é e continuará a ser, pelo menos até essa curibeca de transhumanistas demoníacos não lograr robotizar a espécie inteira, induzindo-nos chips que possibilitarão a comunicação mental instantânea e, portanto, desumanizando-nos em nome do progresso.

Naturalmente, a pergunta que se impõe, contanto que não nos tenhamos demitido do dever de pensar, é simplíssima: cui bono? Quem beneficia com esta mutilação e indigência da linguagem, que nos enclausura em pequenas bolhas incomunicáveis nas quais vivemos dilacerados por sentimentos que somos incapazes de explicitar (justamente porque nos servimos de uma linguagem exangue, como necrófagos banqueteando-se em carcaças)?

Quem detém o poder, claro está. Ou, falando sem punhos de renda, os mestres e bonifrates de um certo liberalismo gangrenado que mais não é senão o imperialismo internacional do dinheiro referido por Pio XI na sua encíclica Quadragesimo Ano, ainda nos idos de 1931. Desenraizado, mundialista, lá onde julga conveniente funda a sua pátria – ubi bene, ibi patria est. Tudo com a conivência, claro está, das elites estrangeiradas e cosmopolitas que nos governam (e que, surpresa das surpresas, não sabem o “que é isso da cultura portuguesa”). E, como assim quer continuar – outra vez, cui bono? -, inventa diversões e direitos que em nada lhes beliscam, mas que nos dão uma sensação ilusória de maior liberdade e bem-estar, ao mesmo tempo que nos torna homúnculos. É que, lampedusianos, tudo mudam contanto que tudo fique na mesma, elásticos o suficiente para assimilar supostos movimentos contracorrentes.

Polvo que é, espalha os seus tentáculos pelas elites políticas e sobretudo pelos mass media e redes sociais, embrutecendo quem neles consente participar, activa ou passivamente. E assim, ao andamento da sua batuta, tornamo-nos enfim no Homo Videns brilhantemente descrito por Giovanni Sartori, em que “a linguagem conceptual (abstracta) é substituída por uma linguagem perceptiva (concreta) que é infinitamente mais pobre: mais pobre não apenas em palavras (ao número de palavras), senão sobretudo na riqueza de significado, ou seja, de capacidade conotativa”.

Naturalmente, o efeito secundário deste empobrecimento da linguagem (portanto, da diminuição da capacidade reflexiva) é uma maior permeabilidade à manipulação e ao orquestramento e fabricação das opiniões ou doxas tidas por admissíveis pelos novos Déspotas Ilustrados.

Com a manipulação vem, enfim, o atrofiamento da razão e do juízo, que substitui o discernimento e a criteriosidade necessárias a qualquer análise por uma emotividade desbragada, sloganizada e, as mais das vezes, monstruosamente gregária e seguidista.

É neste pano de fundo que devemos entender os comentadorecos e palradores de serviço – para quê pensar se já temos a sentença sumaríssima dos preclaros hermeneutas? -, cada qual falando para as respectivas caixas de ressonância num exercício que apenas pode ser descrito como onanismo intelectual – agradável e alegrete que seja, é sempre um exercício infecundo. O resultado inevitável é, nas palavras de Prada, um curto-circuito mental em que apenas “escutamos ou lemos opiniões que fortalecem e reafirmam o que ilusoriamente cremos que são as nossas convicções; e que, afinal de contas, não são senão as opiniões que outros nos instilaram muito sibilinamente”.

Assim, fabricam-se falsos problemas; esquerditas e direititas dos mais variados quadrantes entretêm-se enquanto julgam servir o Povo; as análises e interpretações enfermam sempre de baixa resolução, num pronto-a-vestir impressionante; introduz-se, enfim, a novilíngua da Igreja Universal do Progressismo com conceitos etéreos e pseudocientíficos como “género” e “redesignação de género” (ou novos pecados como “islamofobia”, “gordofobia” e quejandos, que nós prontamente assumimos e integramos no léxico). Como as belas adormecidas da hipnopedia huxleyiana nesse Admirável Mundo Novo, é através da repetição melíflua e dissolvente destes termos que somos condicionados a falar uma linguagem criada in vitro.

Desengane-se quem acha isto inocente. É o que acontece quando a linguagem deixa de se estribar na realidade, fruto de séculos de um idealismo que recusa à linguagem a sua função de adequação entre o pensamento e as coisas, depois de ter defenestrado o realismo aristotélico-tomista e, com ele, o bom senso (no limite, a realidade torna-se mera construção mental ou projecção da nossa subjectividade). Orwell (compatriota de Berkeley, ironicamente), profeta moderno que era, intuiu brilhantemente esta ligação entre linguagem, liberdade e verdade e o perigo de um sistema que tolera, incentiva e depende da mentira (mesmo da mentira que se serve da verdade, mais sofisticada e por isso mesmo mais destrutiva):

“A liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Se isso for concedido, todo o resto se seguirá”.

Mas nós nunca aprendemos. Chegará um dia em que, juntando as peças, tentaremos denunciar os fautores do nosso empobrecimento. Mas de nada adiantará: atolados sob a verborreia que diariamente nos é administrada, tentaremos falar, mas faltar-nos-ão as palavras. Ou, nova Babel pelos quatro cantos dispersa, ninguém entenderá ninguém.