Aqui há uns dias passei por um local onde antigamente existia um videoclube e isso levou-me a uma reflexão.

Ainda se lembram dos videoclubes? Aqueles espaços físicos, cheios de prateleiras e capas plastificadas, onde bastava entrar, olhar em volta e escolher o filme para a noite? Eram outros tempos, tempos em que se não rebobinássemos a cassete pagávamos uma multa, algo impensável nos dias de hoje. Havia alguma coisa de tangível, quase como um ritual, que consistia em sair de lá com uma cassete VHS ou DVD. Paradoxalmente, numa era onde hoje tudo é digital e supostamente à distância de um clique, encontrar uma série ou filme tornou-se uma tarefa árdua.

É curioso – e frustrante – perceber como encontrar uma série ou um filme específico se tornou uma tarefa cada vez mais difícil. Aquilo que parecia ser o auge da comodidade, com o surgimento dos serviços de streaming, revelou-se um labirinto digital onde a abundância de plataformas criou um novo tipo de escassez: a da acessibilidade. Nos últimos anos acompanhámos o crescimento explosivo das plataformas de streaming — Netflix, Disney+, Amazon Prime Video, Sky Showtime, Max, Apple TV+, entre tantas outras — seria lógico pensar que teríamos um mundo do entretenimento nos nossos bolsos. Mas a realidade não podia ser mais frustrante. A simples missão de ver uma série específica transforma-se num jogo de adivinhação. “Onde está disponível?”, “Ainda está disponível?” ou “Teremos de assinar mais uma plataforma só para ver uma temporada?”.

O mais irritante ainda é a prática recorrente de remoção de conteúdos sem qualquer aviso prévio. Séries e filmes desaparecem de um dia para o outro, como se nunca tivessem existido. Começamos a assistir uma série, recomendamos a alguém, e dias depois, desapareceu. Sem alternativa legal para vê-la, e sem sequer a possibilidade de comprar uma cópia. Isso seria simples, não fosse o facto de que os media físicos estarem praticamente extintos — não por desinteresse do público, mas por decisão da própria indústria.

Durante décadas, existia a possibilidade de comprar um CD de música, ou um DVD, o que transmitia um sinónimo de posse. Aquela cópia era sua. Hoje, os mesmos conteúdos digitais comprados são muitas vezes meras licenças temporárias, sujeitas a expiração, remoção ou restrições de uso. A ilusão de “acesso total” revelou-se isso mesmo: uma ilusão. Um caso conhecido é o da plataforma Steam que recentemente foi forçada a avisar os seus utilizadores de que estes apenas estavam a adquirir uma licença de utilização de um jogo, podendo o mesmo ser removido da sua biblioteca a qualquer momento.

Este cenário contrasta fortemente com o ocorrido na indústria da música. No início dos anos 2000, o iTunes veio revolucionar o mercado ao permitir que o consumidor comprasse faixas individuais, legalmente, e a preços acessíveis 0.99$. Foi o primeiro grande passo contra a pirataria digital. Mais tarde (em 2008), surge o Spotify como um primeiro nome de peso do streaming e, em 2015, o Apple Music, acompanhado de uma polémica que resultou no aumento do valor a ser pago ao intérprete por cada stream. Em plataformas como o Spotify ou Apple Music, o modelo é simples e eficaz: o utilizador pesquisa uma música e, com raríssimas exceções, ela está disponível – em ambas as plataformas, e nas restantes. A oferta é praticamente universal e estável. Se há exceções, essas são a minoria. Este modelo agregador cumpre exatamente o que se esperava do streaming: acesso fácil, centralizado e legal a praticamente toda a discografia.

Já no caso das séries e dos filmes, a lógica é a oposta. Cada estúdio decide criar a sua própria plataforma, revestindo os seus conteúdos atrás de Paywalls exclusivos. A Netflix, que antes agregava de tudo um pouco, agora perdeu boa parte do seu catálogo para as concorrentes. A Disney+ resgatou os seus títulos do acervo da Netflix. A Max removeu produções originais sem aviso prévio. A Amazon Prime Vídeo mistura o seu catálogo próprio com títulos para aluguer ou compra. E o consumidor? Esse que paga cada vez mais para ver cada vez menos.

O mais curioso é que os serviços de streaming de vídeo surgiram como resposta direta à pirataria. No início dos anos 2010, plataformas como a Netflix e o Hulu nos EUA mostraram que era possível competir com o download ilegal, oferecendo conveniência, qualidade e preços acessíveis. De facto, durante algum tempo, a pirataria digital sofreu uma queda significativa. O argumento era simples: porquê arriscar com a utilização de sites ilegais, de qualidade duvidosa e vírus, se por uma mensalidade baixa era possível ver tudo, com boa imagem e sem culpa?

Todavia, essa promessa ficou pelo caminho. O modelo atual é fragmentado, caro e confuso, o que gerou o efeito inverso: a pirataria está de volta — não por desrespeito às leis ou desejo de “levar vantagem”, mas sim por frustração pura. Muitos voltaram aos torrents ou a sites de streaming ilegal porque simplesmente não conseguem encontrar o conteúdo que procuram. Ou não querem pagar cinco ou seis mensalidades apenas para acompanhar duas ou três séries específicas, custando uma quantia superior à mensalidade de um serviço de TV+Net. A indústria, ao priorizar o lucro imediato e a exclusividade, esqueceu-se daquilo que motivou os utilizadores a abandonar a pirataria em primeiro lugar: a simplicidade.

E há ainda um fator adicional: a instabilidade dos catálogos. Uma série pode estar disponível hoje e desaparecer amanhã. Uma temporada pode estar acessível, mas não as seguintes, ou uma série ter várias temporadas disponíveis, mas cada uma num serviço diferente. Um filme pode ser anunciado e, dias depois, removido por “motivos contratuais”. Este ambiente volátil gera insegurança, desconfiança e desilusão. O consumidor deixa de sentir que está a pagar por acesso — está a alugar um serviço que muda as regras a qualquer momento e sem aviso.

No mundo da música, isto seria impensável. Supondo que um álbum dos Coldplay ou da Rihanna fosse removido do Spotify sem aviso, certamente seria notícia na imprensa. Já no vídeo, é algo banal. A perda da posse física — outrora garantida por DVDs e Blu-Rays — não foi compensada por um modelo de acesso duradouro. Nem sequer se oferece, na maioria dos casos, a possibilidade de comprar uma cópia física. O que existe é uma ilusão de permanência.

A comparação com o iTunes, nesse contexto, também é reveladora. O iTunes permitiu ao consumidor comprar músicas avulsas, criar bibliotecas pessoais, manter a posse de ficheiros. Era um modelo híbrido entre a era física e a digital. No cinema e na televisão, esse modelo foi abandonado quase por completo. Quem hoje quiser comprar uma série em formato físico terá dificuldades em encontrar edições recentes, sobretudo em mercados fora dos EUA. A decisão de matar os media físicos partiu da própria indústria, mas sem nunca oferecer uma alternativa duradoura.

O mais grave é que, ao contrário da música, o vídeo depende de muito mais investimento — financeiro, técnico e humano — para ser produzido. Cada série ou filme envolve equipas gigantescas, orçamentos milionários, anos de produção. E ainda assim, os conteúdos são tratados como descartáveis. Removem-se episódios, censuram-se cenas, apagam-se títulos inteiros para “otimizar custos”. O catálogo de uma plataforma deixa de ser um acervo cultural e passa a ser um produto de rotação comercial. Aquilo que não “rende” é eliminado, ainda que tenha uma base de fãs.

É por isso que hoje, muitos olham para trás com saudade dos videoclubes, assim como eu que na minha infância ansiava pela sexta-feira para alugar um título novo.  Não por romantismo exagerado, mas porque o modelo era, de certa forma, mais honesto. Sabíamos o que lá estava. Sabíamos que poderíamos voltar na semana seguinte e o filme ainda estaria lá. Hoje, com tantos recursos tecnológicos, paradoxalmente estamos mais limitados do que antes.

O streaming ainda tem potencial para se tornar no que prometeu: uma forma prática, acessível e legal de consumir cultura audiovisual. Mas para isso é necessário aprender com os erros do presente — e com os acertos da música. O público não está contra as plataformas, muito pelo contrário, quer usá-las. Mas quer poder escolher. Quer pagar um preço justo. Quer saber que o conteúdo não desaparecerá do dia para a noite.

O desafio fica lançado. O futuro do streaming — e talvez até da própria indústria audiovisual — depende da sua capacidade de reencontrar o equilíbrio entre conveniência, diversidade, estabilidade e respeito pelo público. Até lá, seguimos nesta estranha era onde temos tudo… menos aquilo que realmente queremos ver.