“O povo é o meu patrão”, declaração de Nyusi no seu discurso da primeira posse, foi assumida como um mantra, uma lufada de ar fresco ao temor de aparentes tendências autoritárias do Presidente cessante, Armando Guebuza.
De 2005 a 2014, o antigo estadista teve um desempenho económico notável, com a construção de infraestruturas, projectos de desenvolvimento e a introdução de noções de empreendedorismo no sistema público de educação.
Houve, neste período, uma expansão inédita de instituições de ensino técnico e superior privado em todo o país, para além das universidades públicas Eduardo Mondlane e Pedagógica, que também se instalaram em todas as províncias.
O crescimento do parque de ensino pôs no mercado numerosa mão-de-obra qualificada, que poderia ser absorvida por um mercado competitivo que parecia estar a surgir com o incentivo ao empreendedorismo. Foi também com Guebuza que desabrochou a promessa dos dividendos da exploração de recursos naturais.
Entretanto, igualmente foi uma década manchada por escândalos de corrupção institucionalizada. Igualmente gerou desconforto a tendência do presidente e dos seus próximos de combater pensamentos diferentes dos seus e silenciá-los.
Há que reconhecer que este modus operandi já existia antes de Guebuza. Na era Chissano, o jornalista Carlos Cardoso e o economista Siba Siba Macuacua foram assassinados. Os casos nunca foram esclarecidos. É público, porém, que estavam a trabalhar em matérias que envolvem a Key decision-makers da política moçambicana.
Com efeito, a 15 de Janeiro de 2015, Nyusi herdou este país ao qual prometeu devolver a soberania ao povo, o que foi interpretado como presidente de e para todos, sensível às necessidades quotidianas das pessoas, dos moçambicanos, despido de cores partidárias.
Cumpriu a sua promessa de alcançar a paz. A sua ida à Serra da Gorongoza para conversar com Dhlakama foi simbólica nesse sentido.
Neste contexto, é seu legado o desarmamento da RENAMO através do diálogo e a consequente assinatura do Acordo de Paz Definitiva com Ossufo Momade, a 8 de Junho de 2019.
Esse gesto projectou a imagem de Nyusi como um líder pragmático, necessário para lidar com desastres naturais e com a dívida pública insustentável num país que vive essencialmente de importações.
Ainda sob a aura dessa circunstância sensível, que nos levou a perder o apoio externo devido às Dívidas Ocultas, Nyusi conduziu o país com fundos internos. Contra todas as previsões pessimistas, o país não colapsou. A economia encolheu, é facto, mas continua funcional. Poderia, sem dúvida, ter um desempenho melhor.
Tropeçou na Tabela de Salário Único. Não soube comunicar os desafios e desdobramentos técnicos da implementação dessa tabela, que foi percebida como um aumento salarial generalizado na Função Pública, quando na verdade pretendia uniformizar as categorias salariais.
Enquanto os recursos humanos do sector público sentiam o seu bolso afectado, os pronunciamentos do Chefe de Estado caíam como deboche ao sofrimento dos outros. Ouvimos, da sua boca, por exemplo, “vão beber água, deixem o Governo trabalhar”.
Habituado à estabilidade salarial, o funcionário público, repentinamente, não sabe se este mês irá auferir. A consequência desse processo é uma nódoa da qual não se desfez.
Do mesmo pacote surgiram as sucessivas greves dos médicos, dos professores, e a demora na distribuição dos livros escolares, com conteúdo questionável.
Outra questão sensível que o presidente não esclareceu foi relativa à guerra em Cabo Delgado. Quem são? Como resolvemos? E as soluções foram tratadas de forma isolada, em segredo. Se é público, é de difícil acesso às contrapartidas do acordo com o Ruanda, por exemplo.
Os acordos entre Estados têm de ser públicos, em democracia, pois permitem uma cidadania consciente. A semelhança da actualização regular em comunicação com a nação no período da pandemia, poderia ter feito o mesmo a este respeito.
Embora ainda não se saiba qual será o seu papel depois da presidência, Felipe Nyusi, através dos seus movimentos no Comité Central, que elegeu Daniel Chapo candidato, sinalizou que continuará a ser um personagem relevante na cena política moçambicana.
No seu derradeiro momento como Chefe de Estado, escapa-lhe a habilidade de participar de forma activa num diálogo com o verdadeiro protagonista da crise, a chave do problema, Venâncio Mondlane. Oficialmente dado como o segundo candidato mais votado, com 24%, tem tido a proeza de mobilizar milhares de pessoas em todo o país. Quando ordena que as actividades sejam paralisadas, é obedecido.
Há zonas sombrias no legado de Felipe Nyusi. Nunca esclareceu publicamente se esteve ou não envolvido nas Dívidas Ocultas. Não obstante, o seu nome foi sendo mencionado nos vários processos no país, EUA e Reino Unido, pelos envolvidos. Está para se fazer o balanço do Sustenta, da dívida pública, tanto a interna quanto a externa.
Na qualidade de Chefe de Estado Maior General, não condenou as assassinas Forças de Defesa e Segurança. Pilatos, ao menos, lavou as mãos da condenação de Cristo.
Nyusi encontrou um país em crise política e é como o deixa. Daniel Chapo, candidato eleito pelo Conselho Constitucional, é uma absoluta incógnita. Venâncio Mondlane, autoproclamado eleito pelo povo, mobiliza o país para manifestações. De hoje a quarta-feira, as cidades estarão novamente sem circulação por três dias. Serão mortas mais pessoas. A economia vai parar.
Em seus últimos dias como Presidente de Moçambique, Felipe Nyusi deixa um legado complexo e contraditório. Se, por um lado, concretizou avanços significativos, como a paz com a RENAMO e a resistência a uma crise económica global, por outro, o seu governo ficou marcado por falhas de comunicação, falta de transparência e crises que abalaram a confiança popular, como as Dívidas Ocultas e a situação em Cabo Delgado.
A sua habilidade em manter o país em funcionamento, apesar das adversidades, não foi suficiente para evitar a erosão da sua imagem junto de muitos cidadãos, especialmente devido a promessas não cumpridas e a uma gestão que, em muitos momentos, se revelou insensível às necessidades da população.
O futuro político de Nyusi permanece incerto, mas a sua gestão será, sem dúvida, lembrada pelas suas controvérsias e por uma Moçambique que, ainda que sobrevivente, enfrenta desafios profundos e urgentes que exigem uma liderança mais transparente e responsável.