Rádio Observador

Venezuela

Nicolas Maduro ao serviço de Cristo /premium

Autor
148

Maduro enviou uma carta ao Papa e disse-se ao serviço da causa de Cristo quando faz exatamente o oposto, pois esta implica dar a vida pelos outros, não dar a vida dos outros para salvar a própria pele

Nicolas Maduro enviou uma carta ao Papa Francisco, pedindo-lhe ajuda e mediação na crise que a Venezuela enfrenta. “Disse-lhe que estou ao serviço da causa de Cristo (…) e, nesse espírito, pedi a sua ajuda no processo de facilitação e de reforço do diálogo“.

É prática comum nos dias que correm invocar-se Cristo, a Igreja e o Papa em nome de tudo e o seu contrário (Ana Leal, por exemplo, associou-se “ao Deus do Papa Francisco” após publicar uma “reportagem” absolutamente imprestável, que viola os direitos à imagem, à reserva da vida privada e ao livre exercício da profissão e religião de diversas pessoas). O mais espantoso – e sintomático de ignorância ou má fé – é quando estas invocações partem da boca de quem pratica exatamente o contrário do que Cristo, a Igreja e o Papa ensinam. É o caso do ditador da Venezuela.

Nicolas Maduro, que está ao serviço da causa de Cristo, saberá que a Igreja entende a propriedade privada – o salário transformado, nas palavras de Leão XIII – como de direito natural e se opõe veementemente à luta de classes e à sua dialética da violência? Não é de hoje a lição; já em 1891, Leão XIII escrevia, na Rerum Novarum, que a ideia de luta de classes é «uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital», ao que Pio XI acrescentou, mais tarde, com a publicação da Quadragesimo Anno, que a cura só «será perfeita, quando a estas classes opostas se substituírem organismos bem constituídos, ordens ou profissões, que agrupem os indivíduos, não segundo a sua categoria no mercado do trabalho, mas segundo as funções sociais que desempenham».

Nicolas Maduro, que está ao serviço da causa de Cristo, saberá que a Igreja não acredita na via revolucionária mas na evolução bem orientada, visto que aquela «só e sempre destrói, nada constrói; só excita paixões, nunca as aplaca; só acumula ódio e ruínas e não a fraternidade e a reconciliação» (João XXIII, Pacem in Terris)?

Nicolas Maduro, que está ao serviço da causa de Cristo, saberá que a Igreja se opõe veementemente a qualquer regime que contraponha os interesses da coletividade aos dos indivíduos e que, pelo contrário, para a Igreja, «a ordem social será tanto mais sólida, quanto mais (…) procurar modos para a sua coordenação frutuosa», já que «onde o interesse individual é violentamente suprimido, acaba substituído por um pesado sistema de controlo burocrático, que esteriliza as fontes da iniciativa e criatividade» (João Paulo II, Centesimus Annus)?

Nicolas Maduro, que está ao serviço da causa de Cristo, saberá que a Igreja, não obstante a sua opção preferencial pelos pobres, não encara toda a desigualdade como necessariamente má, posto que a própria vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, não sendo as desigualdades naturais «de modo algum obstáculo à existência e ao predomínio de um autêntico espírito de comunidade e fraternidade» (Pio XII, Benignitas et Humanitas)?

Não saberá, certamente, pois tudo aquilo que defende e põe em prática – e aqui nem sequer nos referimos aos flagrantes atropelos em matéria de direitos humanos e aos escandalosos níveis de corrupção na Venezuela – é o contrário de tudo isto. Vir agora, com o suor, as lágrimas e o sangue de milhões de venezuelanos nas mãos, dizer-se “ao serviço da causa de Cristo”, é, no mínimo, uma piada de muito mau gosto. A causa de Cristo implica dar a vida pelos outros, não dar a vida dos outros para salvar a própria pele.

Advogado

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Assembleia Da República

Quotas para quem?

Pedro Morais Vaz

Quem nos garante que, caso os africanos passem a beneficiar de quotas, não teremos os brasileiros – um dos grupos mais discriminados em Portugal – a exigir o mesmo tratamento no dia seguinte?

Civilização

A Europa e a cultura do repúdio

Pedro Morais Vaz
140

A maior ameaça ao futuro da Europa reside no que Roger Scruton apelidou de “cultura do repúdio” e que se propõe repudiar tudo o que encara como tipicamente “nosso” para que ninguém se sinta "excluído"

Educação

A doutrinação das crianças

Pedro Morais Vaz
4.773

Convém perceber exatamente que mensagem se pretende transmitir aos nossos filhos de 11 anos quando alguém se lhes propõe falar acerca de “igualdade de género” ou “orientações sexuais”.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)