No seu livro Como Ser Um Conservador, Roger Scruton brinda os leitores com um dos exercícios de maior honestidade e abertura intelectual que tenho visto. Scruton, um rosto incontornável do conservadorismo, procura esboçar o que nos resta enquanto sociedade, interrogando-se acerca das verdades contidas no nacionalismo, no socialismo, no capitalismo, no liberalismo, no multiculturalismo, no ambientalismo, no internacionalismo e no conservadorismo. No caso do nacionalismo, por exemplo, Scruton entende que este é perigoso da mesma maneira que o são as ideologias, na medida em que “ocupa o espaço deixado vazio pela religião e, fazendo-o, incita o verdadeiro crente a venerar a ideia nacional e, simultaneamente, a procurar nela o que ela não pode dar”, desde logo a finalidade última da vida. Significa isto que não podemos extrair nenhum mérito do nacionalismo? Não. Para Scruton, quando nos questionamos a que pertencemos e o que define as nossas lealdades e compromissos enquanto sociedade, não encontramos a resposta numa religião ou em laços de tribo ou de sangue, mas em coisas que partilhamos com os nossos cidadãos, designadamente o território, a história e os costumes. Aqui reside a “verdade” do nacionalismo.

Nos dias que correm, este espaço para a problematização minguou. Abundam as certezas absolutas, mesmo – para não dizer sobretudo – em temas que ninguém domina (de que a pandemia que atravessamos é um bom exemplo), e escasseia a tolerância face a visões diferentes, o que compromete as possibilidades de diálogo, fundamentais numa cultura democrática. Esta lógica de acantonamento tem sido fortemente potenciada pelos fenómenos das redes sociais. Cada um de nós só “segue” e lê quem pensa como nós (ou, pelo menos, de forma idêntica), o que logicamente contribui para fortalecer (ainda mais) as nossas convicções e para incentivar o repudio, ou mesmo a ridicularização, de todas as restantes.

Este “apelo da tribo”, de que a cultura democrática e liberal nos vinha libertando, representa a negação do individuo como ser soberano e responsável – como bem explica Mario Vargas Llosa na sua mais recente obra. Este espírito tribal, tão característico de grandes espectáculos como os antigos circos romanos, os jogos de futebol ou os concertos pop, nos quais o indivíduo desaparece (engolido pela massa) e suspende a racionalidade, é agora transposto para a política.

É neste contexto que a “moderação” é vista como uma fraqueza. Neste mundo de claques, não há lugares a meios termos ou a grandes interrogações: ou se está connosco ou se está contra nós, sendo que os adversários (rectius, os inimigos) não merecem sequer o dispêndio do nosso latim. O impropério é mais eficaz e dá, seguramente, menos trabalho do que desmontar um argumento. As reacções ao abaixo assinado “A clareza que defendemos” são disso um bom exemplo. O texto podia ser criticado por muitas coisas, desde logo por não identificar com clareza os seus alvos. O que assistimos, ao invés, foi a uma chacina pública. Alguns dos subscritores chegaram a ser desacreditados não pelo que alguma vez fizeram, disseram ou escreveram, mas, imagine-se, pelas suas companhias…

Sejamos claros: a moderação não se confunde com relativismo, mas com a noção de que a democracia não se reconduz a uma tirania do poder vigente. A moderação é, acima de tudo, uma postura, um modo de estar, assentes nas noções de falibilidade e perfectibilidade humanas. Um moderado não tem necessariamente menos convicções do que qualquer outra pessoa; mas, ao discuti-las, não precisa de rebaixar os seus oponentes ou de os integrar em conspirações malévolas. A abertura para o diálogo, a predisposição para escutar abertamente as preocupações de quem não pensa como si, não significa vender a alma ao Diabo. É por isso que o exercício de Scruton é tão desconcertante: como pode um homem que testemunhou bem de perto a crueldade do mundo comunista encontrar alguma “verdade” contida no socialismo?

Hoje, é mais fácil alistarmo-nos num dos lados da barricada e juntarmos a nossa voz aos coros instalados. Neste ambiente tribal, tão centrado nas questões identitárias, o grande radicalismo está mesmo em ser-se moderado: um cartão de visita para vários insultos mas, ainda assim, o melhor remédio para os tempos que vivemos.