Todos afirmam que os imigrantes são necessários à nossa economia porque fazem o que os portugueses não querem fazer. Conclusão manifestamente xenófoba para os nossos trabalhadores, sem evidência comprovada estatisticamente, uma vez excluída a mão-de-obra qualificada que todos os dias exportamos.

Na verdade, os mais interessados na mão de obra estrangeira são os empresários sem escrúpulos que, na agricultura intensiva e na construção civil, a utilizam por baixo custo.

Por todo o mundo, há hoje um tráfego, não digo esclavagista, mas servil, de mão de obra braçal não qualificada. Os imigrantes são os novos servos da gleba, porque auferem como rendimento do seu trabalho o mínimo necessário para a sua subsistência.

Para justificar o tecno-feudalismo que comanda hoje a economia dos países ditos desenvolvidos, os empreendedores, os políticos do regime e os yuppies criaram a narrativa da falta de mão de obra e a de que os emigrantes contribuem para a segurança social e até, pasme-se, para a baixa de impostos dos restantes portugueses.

Dos quase dois milhões de imigrantes, legais e ilegais, apenas cerca de meio milhão contribuem para o nosso sistema retributivo. Ora se, como me afiançou um amigo economista, os trabalhadores portugueses com a média de quarenta anos de descontos, no caso de viverem mais vinte anos na condição de reformados ou aposentados, não fizeram um volume de contribuições que chegasse para pagar as suas pensões, como podem os trabalhadores estrangeiros, que não terão com certeza uma carreira contributiva tão longa como a dos nossos, sustentar no futuro as suas próprias pensões, quanto mais as dos nossos pensionistas. Por isso escrevi em tempos, para este jornal, a crónica “Pensionistas, Deus nos Livre do Bloco”.

A esquerda alegre e os nossos políticos moralistas não estão preocupados com os direitos humanos dos cidadãos estrangeiros, mas com uma lógica ideológica que os mantenha vivos no nosso espetro político-partidário, que é uma fonte de avultadas subvenções. Não os preocupa o facto de os imigrantes serem explorados e viverem em condições indignas, mas utilizá-los como escudos humanos para a sua narrativa eleitoral. Também não se preocupam com quem manobra e ganha com o tráfego de seres humanos que opera no bas-fond das migrações.

Por outro lado, a narrativa da esquerda é contraditória entre os países europeus que hoje se debatem com uma imigração descontrolada. Os socialistas ingleses de Labour do primeiro-ministro Keir Starmer, por exemplo, estão a adotar medidas, como a da identificação digital e do combate sem tréguas à economia paralela, que por cá fariam corar de vergonha os acólitos do Chega.

Portanto, deixemo-nos de hipocrisia. A emigração em massa não é um sinal dos tempos nem uma marca da modernidade e do progresso, mas o estigma de uma sociedade doente. Deve ser combatida na sua essência, analisando com verdade e transparência o underground do fenómeno, respeitando os direitos humanos das vítimas, mas sem discriminação positiva.

Por lapso, este artigo surgiu inicialmente assinado por um outro autor, também chamado Carlos Magalhães, médico, a quem pedimos desculpa.