O termo “perceção” ganhou nos últimos dias um lugar no pódio das expressões mais utilizadas pelos comentadores e agentes políticos que todos os dias, despudoradamente, nos tentam coartar a liberdade de pensamento e, in extremis, a sanidade mental.

Tudo começa com a famigerada operação policial na Rua do Benformoso que encharcou as páginas dos jornais e os noticiários televisivos com toda a plêiade de articulistas e opinion makers a puxar a barra para o campo das perceções.

O recente comunicado do Diretor da PJ, a dissociar o crime da emigração, e os dados revelados pela PSP, que aludem a uma descida da criminalidade no ano passado, dão razão aos que contrapõem a perceção à realidade, apesar do Edil lisboeta vir a terreiro contrariar estes mesmos dados alegando que os crimes violentos têm aumentado em Lisboa.

Na verdade, as recentes violações, aparentemente perpetradas por cidadãos estrangeiros contra jovens estudantes, os assaltos violentos com facas e pistolas apontadas à cabeça das vítimas, não são perceções, mas realidade pura e dura. Com, fora de Lisboa, o novel caso do casal de acolhimento de um magrebino e de uma brasileira que mataram um idoso na sua residência e o enterraram na posição de pé no quintal, também é realidade e não perceção. Mas os números são os números e quem somos nós para os contestar.

O que não são seguramente perceções no imaginário dos portugueses são os dados revelados quanto ao estatuto remuneratório dos chamados deputados “não-inscritos” a propósito de Miguel Arruda, eleito pelo Chega (no caso concreto: 5800 para assessorias + 6000 de vencimento e ajudas de deslocação), como também não é perceção a redução da tarifa fiscal dos políticos em cerca de 5% no OE de 2025, que o mesmo CH votou contra na AR e o aumento em cerca de 30% dos gastos obscenos com as subvenções dos políticos que a elas têm direito desde que foram criadas.

Lamenta-se, no entanto, o facto de esta revelação acerca das mordomias dos “não inscritos” (expressão que a CRP e a Lei Eleitoral que dela emana prefere a “independentes”, para não deixar dúvidas quanto à sua intenção do bipartidarismo vigente em não querer que os cidadãos e os movimentos independentes se candidatem nas eleições legislativas) apenas ocorrer com o ex-deputado do CH, quando no passado recente tivemos outros casos de “não-inscritos”, que se incompatibilizaram portanto com os respetivos grupos parlamentares ou com as orientações partidárias, como: Paulo Trigo Pereira (eleito pelo PS, Joacine Katar Moreira (eleita pelo Livre) e Maria Cristina Rodrigues (eleita pelo PAN).

Nesta matéria, os agentes políticos do sistema e os seus acólitos da CS não conseguem inteiramente travestir de perceção a realidade, mas com papas e bolos se vão enganado os tolos.