A convivência entre tutores de cães com cidadãos que não partilham a vida com patudos nem sempre é fácil. Tanto uns como outros clamam muitos direitos e poucos deveres, o que, de resto, é um reflexo das sociedades contemporânea.
O campo de batalha destes contextos é normalmente nas cidades, onde não é raro observarmos cenas que dividem as opiniões: se é comum ver cães a passear com trela, tutores atentos a recolher os dejetos, não é menos comum observar outros menos cuidadosos, que deixam marcas pelo caminho. Para uns, tomar conta de um animal de companhia é sinónimo de alegria e de companhia diária; para outros, pode ser uma fonte de incómodo ou de conflito nos espaços partilhados. O que poucos percebem é que essas pequenas situações do dia a dia refletem algo maior: o nível de maturidade social e civilizacional da nossa comunidade.
Ao longo da História, a relação entre os humanos e os animais tem vindo a transformar-se. Os animais de companhia, que outrora desempenhavam funções maioritariamente práticas e instrumentalizadas, são hoje reconhecidos como parte da família. Esta mudança não é apenas cultural, é também antropológica. Ao cuidar de um animal, o ser humano amplia o seu círculo de afeto, exercitando a empatia e a responsabilidade. Mas esse vínculo traz igualmente um desafio constante, que é o aprender (ou reaprender) a viver em sociedade, respeitando tanto o animal, como o espaço coletivo.
O exemplo que chega de Barcelona
As boas práticas como o uso da trela, a recolha dos dejetos e até o recurso a uma a simples garrafa de água, para limpar a urina durante os passeios, são muito mais do que gestos de higiene ou de cumprimento da lei. São símbolos de uma cidadania ativa. Representam a consciência de que a liberdade do “meu” animal não pode comprometer o bem-estar dos outros e de que o espaço público é um bem comum que deve ser cuidado por todos, sobretudo pelos que têm animais que inevitavelmente o utilizam para as suas necessidades fisiológicas.
Basta olharmos para a recente medida aprovada em Barcelona, que entrará em vigor a partir de 15 de fevereiro, que obriga os tutores a limpar urina dos cães. Como? Levando uma garrafa de água que despejam por cima da urina do animal durante os seus passeios em espaços públicos. Quem não o fizer arrisca-se a uma multa que pode chegar aos 750 euros.
O desafio da convivência urbana entre a trela e a liberdade de cada um
É muito importante que os tutores reconheçam que nem todos partilham a mesma relação com os animais e que quem não convive com eles debaixo do mesmo teto pode ter dificuldade em compreender a profundidade destes laços.
O tutor, pelo simples facto de ter um animal à sua guarda, deve ser o primeiro a respeitar com zelo as regras de convivência mais elementar. O uso da trela, por exemplo, é obrigatório e não deve existir um único tutor que não o saiba. No entanto, a insistência de deixar soltos os animais é comum e baseia-se no facto de que todos os que estão no mesmo espaço, seja de passagem, seja em permanência, vão achar piada a um encontrão, a nódoas de patas na roupa, a caudas a bater nas pernas ou a focinhadas. Não tem de ser assim, não pode ser assim e este é apenas um exemplo. Outro é o facto de se deixar (e muitas vezes privilegiar) que o animal utilize os espaços relvados para fazer os dejetos ou urinar, os mesmos espaços que crianças utilizam para jogar à bola ou outro tipo de atividades. Estas são apenas situações em que é dever dos tutores não apenas evitar, mas estarem prontos para receber críticas ou chamadas de atenção de transeuntes que se possam sentir incomodados, muitos também eles próprios tutores.
A sociedade não se divide entre as “boas pessoas” que têm animais e as “más pessoas” que não os têm. Bipolarizar esta questão é só mais uma forma de criar clivagens e ódios, num tempo em, que já há demasiado dessa fórmula nos mais variados temas.
Nesta questão, apesar de tudo, há um ponto de convergência essencial: a consciência de que os animais são seres sencientes, capazes de sentir dor e afeto, e que merecem a proteção de todos contra o abandono e os maus-tratos. Nesse aspeto, tutores e não tutores podem caminhar lado a lado, unidos na defesa de uma sociedade mais justa e empática, desde que a tolerância e cumprimento da civilidade estejam sempre presentes.
Todos podem sair a ganhar
O debate sobre a presença de animais nas cidades não deve ser visto como um confronto entre visões opostas, mas como uma oportunidade de cooperação. Uns contribuem com gestos de responsabilidade no quotidiano; outros com a compreensão e o respeito pelos vínculos alheios. Quando essa colaboração acontece, todos saem a ganhar. Os animais, os tutores e a comunidade.
No final do dia, o que está em causa não é apenas a limpeza das ruas ou a segurança nos passeios, embora isso bastasse. É a forma como escolhemos conviver uns com os outros e com os seres vivos que partilham o mundo connosco. Pequenos gestos, como colocar a trela, apanhar os dejetos ou até diluir a urina do cão com água, tornam-se sinais de evolução civilizacional. São marcas de uma sociedade que se preocupa não só com os seus próprios interesses, mas também com o bem-estar coletivo. E talvez seja exatamente aí que reside a verdadeira medida do progresso: na capacidade de transformar o cuidado com os animais num reflexo da nossa humanidade.
Se tem alguma sugestão ou tema que deseje ver abordado pelo Provedor Municipal dos Animais de Lisboa, Pedro Emanuel Paiva, escreva para pedro.paiva@cm-lisboa.pt .