Um coelho branco numa gaiola com cerca de 50cm de comprimento, e uns bons 30 de altura, retirada de uma embarcação por uma bombeira, para chegar a local seguro. Na mesma embarcação, vinham os donos, também eles resgatados da subida das águas. A cena passou-se na quinta-feira, dia 5, em Alcácer do Sal e só demos por isso porque um operador de câmara a captou.

As intempéries que atingiram Portugal voltaram a expor uma evidência incómoda. É que, apesar da enorme capacidade de resposta dos voluntários, Governo, Proteção Civil e muitas mais entidades, continuamos pouco preparados para lidar com emergências de forma verdadeiramente integrada. Chuvas intensas, cheias e ventos extremos afetaram infraestruturas, rotinas e ceifaram – até ao momento em que este texto foi escrito – 12 de vidas, rompendo relações e vínculos, que jamais serão os mesmos.

Quando a emergência é coletiva, a resposta também tem de o ser

Entre estas relações está uma que raramente ocupa o centro do debate, mas que emerge sempre nos momentos críticos: a ligação entre as pessoas e os animais. Animais de companhia, animais de produção, animais errantes ou acolhidos em estruturas improvisadas, que fazem parte do mesmo território e das mesmas comunidades. Quando ocorre uma catástrofe, partilham igualmente connosco o risco, mas muito raramente partilham a proteção.

A discussão está longe de ser nova. Foi precisamente este ponto que esteve em destaque na audição da Comissão de Agricultura e Pescas, de 14 de janeiro de 2025, na Assembleia da República. As propostas apresentadas não partiram de uma lógica de confronto, nem de imposição moral, mas de uma constatação simples e profundamente cívica: a proteção dos animais, em contexto de emergência, é também a proteção das pessoas e da comunidade.

Em situações limite, muitos cidadãos recusam abandonar as suas casas se não puderem levar os seus animais. Outros, regressam a zonas de risco, para os procurar. Ignorar esta realidade não a elimina, apenas a torna mais perigosa, para todos. Integrar os animais nos planos de emergência não é um luxo, nem um desvio de prioridades. É uma forma de reduzir riscos, sofrimento e desorganização.

As propostas em cima da mesa, como a criação de uma Diretiva Nacional de Socorro Animal, que preveja nos planos de emergência, os locais que alojam animais, a definição de uma estrutura nacional ou municipal de coordenação para o resgate animal ou a clarificação de responsabilidades entre entidades públicas, apontam para algo essencial numa democracia madura, isto é, antecipar em vez de improvisar.

Salvar animais não é estar contra salvar das vidas humanas, jamais

Nunca é demais sublinhar que este debate não se faz contra salvar vidas humanas, pois seria uma perfeita loucura criar essa narrativa. Na realidade, há que obviar que não faz contra nada nem ninguém, muito menos contra os bombeiros, ou contra a Proteção Civil, ou contra os municípios que já trabalham no limite dos seus recursos. Pelo contrário, faz-se precisamente lado a lado com todas estas entidades, reconhecendo o que já existe, valorizando o trabalho no terreno e criando condições para que, na próxima emergência, ninguém tenha de decidir sozinho o que fazer, tal como nenhum animal deve ficar à mercê da sensibilidade de quem está no socorro, que, como mostra o exemplo no início deste texto, é muita e recorrente, felizmente.

Uma abordagem cívica exige escuta mútua. Exige compreender as preocupações dos profissionais que lidam com escassez de meios, dos agricultores que temem perdas irreparáveis, das associações que atuam sem enquadramento formal e dos cidadãos que apenas querem proteger quem depende deles. Construir uma resposta coletiva, passa por reconhecer estas tensões, não por fingir que elas não existem.

Num contexto de alterações climáticas, as emergências deixarão de ser exceção. Tornar a proteção animal parte da resposta coletiva é assumir que a resiliência de uma comunidade se mede pela forma como cuida dos seus membros mais vulneráveis, sejam eles humanos ou não.

Talvez este seja um daqueles raros temas onde é possível encontrar um terreno comum: prevenir melhor, coordenar melhor, cuidar melhor. Não por ideologia, mas por civismo. Não por pressão, mas por responsabilidade partilhada.

Porque, quando a emergência é coletiva, a resposta também tem de o ser.

Se tem alguma sugestão ou tema que deseje ver abordado pelo Provedor Municipal dos Animais de Lisboa, Pedro Emanuel Paiva, escreva para  pedro.paiva@cm-lisboa.pt .