Quem anda pelas ruas de Lisboa conhece-os bem. Estão em Alfama, na Mouraria, nos jardins do Lumiar ou junto às escadinhas do Chiado. São os gatos de rua, silenciosos habitantes da cidade, sobrevivendo entre o betão e a indiferença. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não estão sozinhos. Há sempre alguém que olha por eles, leva comida, esteriliza e dá nome. Essas pessoas têm um rosto quase sempre no feminino: são as protetoras de gatos de rua, autênticas madrinhas protetoras destes felídeos.

As cuidadoras assumem diariamente uma tarefa que não lhes foi pedida, mas que sentem como um dever. Compram a ração com dinheiro do seu bolso, pagam vacinas, agendam consultas veterinárias, limpam os espaços onde os gatos vivem. Fazem-no em silêncio, quase sempre sem reconhecimento. Pelo contrário, muitas vezes enfrentam críticas e insultos, que têm tanto de descabido como de ausência da compaixão que sentem pelos animais que protegem. A lei portuguesa não prevê a sua existência. São uma espécie de fantasma social.

A cuidadora Nela trata da colónia de Carnide. Já em idade da reforma, há mais de uma década que a apadrinhou, cuidando de cerca de 200 felídeos com uma dedicação extraordinária, faça chuva ou faça sol. É precisamente por isso que a Câmara de Lisboa, em conjunto com a Provedoria do Animal Municipal, recebeu com felicidade o apoio da associação IRA (Intervenção e Resgate Animal) que, desde há dias, assumiu que dará um auxílio permanente a esta cuidadora, não apenas em termos de ração, mas também logísticos. Uma história com um final feliz, bastava ver a luz no rosto de Nela quando percebeu ter auxílio de peso na sua missão.

Este é um exemplo de que as coisas estão a mudar e que podem mudar – o IRA, sensível ao fenómeno das colónias e das suas cuidadoras, garante que porá mais ações destas em marcha na Capital, ao lado da Câmara e da Provedoria. Mas a conjugação de esforços entre entidades tem de continuar, uma vez que acelerará naturalmente o reconhecimento legal das cuidadoras e muitas mais “Nelas” ficarão igualmente felizes por poderem ter auxílio na sua missão e reconhecido o respeito pelo mesmo.

O certo é que o trabalho destas protetoras se tornou indispensável. Sem elas, as colónias de gatos multiplicar-se-iam descontroladamente, com impactos na saúde pública e no equilíbrio urbano. Graças ao método CED (Captura, Esterilização e Devolução), Lisboa mantém a população felina estável. No entanto, este método, por si só, não funciona sem quem acompanhe os animais todos os dias. Ou seja: se as cuidadoras não existissem, a cidade (Lisboa e outras) teria um problema muito maior daquele que tanto custa a reconhecer.

Há aqui também uma dimensão cultural e de género. Ao longo da história, os gatos sempre fizeram parte das nossas cidades. Foram caçadores de ratos, companheiros discretos, símbolos de liberdade. Hoje, sobrevivem nas franjas da vida urbana, lembrando-nos que a cidade não é feita apenas de pessoas. E são as mulheres – quase sempre mulheres – que cuidam deles. Não é acaso: o cuidado, tantas vezes invisível, foi sempre imposto ao feminino. Titular estas mulheres de a “malucas dos gatos”, entre outras expressões igualmente depreciativas, é repetir o velho hábito de ridicularizar o trabalho de cuidado por outro ser, quando, na verdade, se está perante verdadeiros exemplos de cidadania ativa e de generosidade que não procura publicidade ou promoção, mas sim o respeito mais básico por quem tem um sentimento nobre de compaixão.

Enquanto outros países já reconheceram esta figura – em Roma, as “gattare” têm proteção legal; em Madrid e Barcelona, há regulamentos específicos – Portugal precisa de avançar. As nossas protetoras atuam num vazio jurídico, sem apoio institucional, expostas ao estigma e ao desgaste pessoal. É um contrassenso: dependemos delas para resolver um problema público, mas falta dar-lhes um estatuto que as auxilie na sua missão.

Importa ainda sublinhar que não é necessário simpatizar com gatos para poder reconhecer o valor do trabalho das protetoras. Afinal, ao esterilizarem e ao vacinarem os animais, elas evitam a proliferação descontrolada de colónias e reduzem os riscos de doenças que afetam não apenas os gatos, mas também o espaço público que todos partilhamos. Apoiar estas mulheres não significa ter de simpatizar com gatos, significa compreender que uma cidade mais organizada, saudável e equilibrada depende também da gestão responsável da vida animal que nela existe.

Lisboa é uma cidade moderna, aberta e inclusiva. Reconhecer o trabalho das protetoras de gatos de rua é mais do que uma medida para os animais – é um gesto de respeito por cidadãs que tornam os bairros mais humanos, solidários e equilibrados.

A grandeza da Capital está tanto nos seus monumentos, como nos pequenos gestos de cuidado que acontecem, todos os dias, nas suas ruas. Lisboa também cuida dos que não têm menos voz. As protetoras de gatos de rua são as invisíveis, mas chegou o momento de lhes dar rosto, voz e, sobretudo, reconhecimento.