Na cerimónia solene dos 50 anos da Constituição, André Ventura subiu à tribuna da Assembleia da República e, entre as habituais provocações e atordoadas, proclamou uma nova ideologia. Disse que a Constituição não pode caminhar “nem para o socialismo, nem para o cheganismo”. Nasceu ali, decretada de cima do plenário mais solene do país, uma nova doutrina: o cheganismo.
O problema é que, quando se confronta o rótulo com a prática, as ideologias referidas são a mesma coisa. O cheganismo é socialismo. Com outras roupagens, com outro sotaque, com mais berraria, mas socialismo.
Não é uma acusação de circunstância. É uma constatação de propostas e votações.
Quando o Chega propõe taxar os lucros da banca, é socialismo. André Ventura apresentou no Parlamento um projecto de lei propondo uma “contribuição solidária temporária” correspondente a 40% dos lucros excedentários do sector bancário. Uma proposta pronta a colher aplausos à esquerda. Taxação de lucros a golpe de populismo. Que nome devemos dar a isto? Socialismo.
Quando o Chega vota pela taxação de energéticas e outros sectores, é novamente socialismo. A mesma lógica que o Bloco de Esquerda e o PCP defendem há décadas. Punir quem produz e redistribuir por decreto tem encontrado no Chega um aliado pontual mas muito revelador.
Quando o Chega votou com o PS para eliminar portagens, é socialismo. Foi assim que ficou conhecida a “coligação PS e Chega”, que aprovou várias iniciativas com impacto orçamental directo, incluindo a abolição das portagens nas antigas SCUT. Benefício universal pago por todos, decidido sem financiamento alternativo. Socialismo.
Quando o Chega votou com PS, PCP, Bloco e Livre para impor o lay-off pago a 100%, é socialismo. A proposta do Bloco de Esquerda foi viabilizada com os votos favoráveis do PS, do Chega e dos restantes partidos da esquerda. A despesa? Para cima da Segurança Social. A mesma Segurança Social que o Chega quer implodir com outras propostas.
O cheganismo não é apenas socialismo, é socialismo bulldozer.
Porque o mesmo partido que vota pela explosão da despesa da Segurança Social quer, simultaneamente, antecipar a idade da reforma. André Ventura apresentou isto como condição para aprovar a reforma laboral do Governo, recusando que a sua proposta seja “absurda ou irrealista”. Lamentavelmente, a aritmética não foi chamada ao debate. A proposta custaria mais de dois mil milhões de euros por ano. O equivalente a um resgate à TAP de dois em dois anos. Quem pagaria? Os jovens, que Ventura já parece ter esquecido.
A isto junta-se a proposta de equivaler todas as pensões ao valor do salário mínimo. Ventura anunciou-a em convenção, como se anuncia o que agrada. Quando a pressão chegou, veio a cambalhota: afinal seria faseado. Com uma primeira transição para um custo que o próprio admitiu ser de 1,6 mil milhões de euros, considerando-o “perfeitamente fazível”. O “grande salto” para o salário mínimo ficaria para depois. As contas desse “depois” nunca apareceram.
É o método do cheganismo: propõe o que entusiasma, recua quando confrontado com a realidade, e nunca apresenta o financiamento. Em tudo igual ao PS em pré-campanha. Socialismo com faseamento.
E a quem pertencem estas palavras: “absurda e irrealista”? A Pedro Passos Coelho. O mesmo Passos Coelho que o Chega tanto cita, tanto elogia, tanto invoca quando lhe convém. Passos Coelho foi claro: a proposta de antecipar a idade da reforma é absurda e irrealista. Ventura desvalorizou as críticas. Claro. Passos Coelho só é bom para lhe servir de citação, não de bússola.
Mas regressemos ainda à TAP, onde o socialismo do Chega tem história. Depois de muitos ziguezagues, Ventura alinhou com a injecção de 3,3 mil milhões de euros aos contribuintes na TAP. E gostou tanto do resultado que se juntou ao PS na oposição a uma venda maioritária, condicionando a acção do Governo e forçando a alienação de apenas 49,9% do capital. Com uma mão pede a devolução do dinheiro. Com a outra garante que a empresa fica no Estado. Contradição insanável. Mas coerente com a lógica do populismo sem responsabilidade.
Voltemos, então, à tribuna dos 50 anos da Constituição. Ventura exibiu o cheganismo como alternativa ao socialismo. Apresentou-o como suposto sinónimo de liberdade. Problema: a prática parlamentar, votação a votação, proposta a proposta, diz o contrário. O cheganismo não é a alternativa ao socialismo. É a sua versão furibunda, sempre sem ideologia coerente, sempre sem responsabilidade orçamental, sempre sem projecto económico sustentável. Mas sempre disponível para aumentar despesa pública. É o populismo que cresceu do rancor e que, no momento de governar, não resiste a ser igual ao que critica.
André Ventura inventou uma palavra. Os factos escreveram a sua definição.
Cheganismo: socialismo com mais decibéis e menos vergonha de gastar o dinheiro dos outros.