O 25 de Abril deveria ser o momento mais agregador da nossa democracia. O dia em que celebramos a liberdade conquistada e o regime que dela nasceu. Um dia que não pertence à esquerda nem à direita. Um dia que pertence a todos.
Mas não é isso que (ainda) temos.
Ao longo de décadas, as celebrações de Abril foram capturadas por um sectarismo persistente: o da apropriação. A ideia, tantas vezes implícita, outras vezes assumida, de que há quem seja mais dono da liberdade do que outros. De que há credenciais ideológicas que conferem maior legitimidade para celebrar o 25 de Abril.
Essa apropriação não surgiu por acaso nem vive apenas no plano simbólico. Tem expressão concreta na forma como as celebrações são organizadas, nomeadamente na descida da Avenida da Liberdade e nos seus discursos finais.
Ao longo dos anos, o Partido Comunista Português, através de organizações satélite com presença na comissão promotora, foi consolidando um controlo efectivo sobre estas celebrações. Decidem à porta fechada. Definem quem participa, como participa e em que condições participa.
E depois há quem dê a cara.
A Associação 25 de Abril surge frequentemente como a face pública dessas decisões, funcionando muitas vezes como um pára-raios institucional de opções que não são neutras, nem pluralistas.
Os exemplos acumulam-se.
A Iniciativa Liberal, que participa na descida da Avenida da Liberdade desde a fundação, tem enfrentado resistência à sua participação, apesar de marcar presença também para afirmar um princípio simples: a liberdade não tem donos. E nenhuma avenida deste país é propriedade privada. Muito menos uma avenida chamada Liberdade.
Mas o problema vai muito além disso.
Houve momentos em que até vozes identificadas com a esquerda foram alvo desse filtro. O caso de Ricardo Araújo Pereira, em 2007, cujo nome foi proposto (pela JS e pelo Bloco) para intervir enquanto voz jovem e acabou bloqueado, revela um sectarismo incapaz de tolerar sequer o pluralismo dentro do mesmo campo político.
O LIVRE, partido com representação parlamentar, e assumidamente de esquerda, continua a ser remetido para posições secundárias na descida da Avenida. O mesmo sucede com o PAN.
Isto não é acaso. É método.
É o resultado de um modelo fechado, pouco transparente e profundamente marcado por uma visão de propriedade sobre aquilo que nunca pode ter dono: a liberdade.
Há um segundo sectarismo, menos ruidoso, mas igualmente relevante, que ajudou o primeiro a afirmar-se sem verdadeiro contraponto: o da ausência.
Durante muitos anos, partidos estruturantes da nossa democracia, como o PSD e o CDS, optaram por não participar nestas celebrações. Ao fazê-lo, deixaram o espaço livre. E esse vazio foi ocupado, e consolidado, por quem já lá estava.
A ausência de uns facilitou a apropriação de outros.
Felizmente, há sinais de mudança.
Com a Iniciativa Liberal a abrir caminho, a JSD começou recentemente a marcar presença na descida da Avenida da Liberdade. É um sinal positivo. Um exemplo que deveria ser seguido por quem ainda está ausente.
Porque a resposta ao sectarismo não pode ser o afastamento. Tem de ser a participação.
O 25 de Abril não pode ser um clube de admissão restrita. Não pode ser um espaço gerido por uns poucos, nem abandonado pelos outros, que são muitos. Não pode ter critérios implícitos de legitimidade política.
Se a liberdade significa alguma coisa, é isto: não excluir. Não hierarquizar. Não apropriar.
Quando conseguirmos pôr fim a este duplo sectarismo, o da apropriação e o da ausência, talvez possamos finalmente ter aquilo que ainda nos falta cumprir por inteiro: um 25 de Abril mesmo de todos. E para todos.