A tendência para dividir a vida humana em secções – infância, adolescência/juventude, idade adulta e velhice – confere uma sensação de regularidade baseada em expetativas: neste período acontece isto, naquele acontece aquilo, etc. Avanços científicos, no entanto, questionam esta divisão tradicionalmente baseada na idade cronológica; por exemplo, sabemos hoje que o desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso continua muito para lá dos 20 anos de idade, pelo não faz sentido falar do final da adolescência aos 18 anos. O mesmo acontece na segunda metade da vida: envelhecer é um processo e a nossa competência, física e psicológica, está apenas parcialmente relacionada com a passagem dos anos. Quer a diminuição quer a perda progressiva de capacidades não acontecem em todas as pessoas ao mesmo tempo, nem em todas as capacidades simultaneamente.

Assim sendo, tal como não existe uma pessoa adulta “típica”, também não existe uma pessoa idosa “típica”, contribuindo para esta diversidade o nosso património genético e biológico, a nossa história de saúde, os nossos comportamentos e os acontecimentos por que passámos e que foram deixando as suas marcas. Para além disso, não há qualquer justificação para associarmos a ideia de “pessoa madura” à condição de adulto e de “pessoa deficitária” à condição de idoso, pressupondo que há idades boas e idades más.

Talvez uma vida sem idade fosse uma boa ideia, mas, como tal não existe, a idade serve de indicador para nos caracterizar. Sucede que a maioria das representações associadas à velhice são predominantemente de cariz negativo. A sociedade atual privilegia a novidade e a inovação, desvalorizando os mais velhos porque dali não é de esperar que surja algo de novo ou com interesse. Não surpreende, por isso, que o objetivo de muitos adultos não seja tanto “envelhecer bem”, mas sobretudo fingir que não envelhecem, aderindo com entusiasmo a produtos e cuidados de anti-envelhecimento e correspondendo o melhor possível aos conselhos dos que prometem todo o género de soluções “para que os 60 sejam os novos 40”.

Não é fácil resistir ao idadismo, sobretudo ao idadismo que impomos a nós mesmos. Não vivemos sozinhos, comparamo-nos com os outros, chegamos mesmo a interiorizar um sentimento de auto-discriminação por causa da idade que temos, tornando-nos polícias dos nossos sentimentos e daquilo que fazemos, confinando a vida ao que é expectável. Por exemplo, ainda hoje a sociedade considera estranho falar-se em amor e sexualidade nos mais velhos, estranhando que eles namorem, que se apaixonem, que usufruam da sexualidade.

Sejamos honestos: se em teoria ninguém gosta de envelhecer, muito menos gostamos de sentir que estamos de facto a envelhecer. Mesmo aqueles que dizem que não pensam nisso ou que encaram essa inevitabilidade com aquele sentido de humor típico de quem brinca com tudo aquilo que incomoda, na verdade, pensam. Não só pensamos como olhamos com indisfarçável inveja para aqueles homens e para aquelas mulheres que “parece que não envelhecem” ou que o fazem como se o avanço da idade não passasse por eles. Como todos desejam uma vida longa, fazem-se todo o tipo de esforços para adiar ou esconder os sinais da passagem do tempo, o que não deixa de ter o seu quê de paradoxal: viver muito tempo, sim; envelhecer, jamais.

No fundo, o ideal seria mesmo poder “congelar” a idade, permanecendo ativos, saudáveis e ainda capazes de quase tudo, pelo maior tempo possível. Claro que posso sempre negar que a velhice um dia acabará por chegar, mas será sempre uma crença passageira. Muitas vezes é o aparecimento súbito de uma doença, outras vezes acontecimentos inesperados na vida profissional ou familiar a provocar o insight que não controlamos inteiramente a nossa vida e que a velhice está irremediavelmente a chegar.

Ao chegar à década dos 60, o que serei e onde estarei eu daqui a mais vinte ou trinta, se lá chegar? Ter mais idade é também ter experimentado mais e, nesse processo, compreender melhor o mundo em redor e o meu lugar nesse mundo. Talvez assim se resista à tendência de olhar para a juventude como “os melhores anos das nossas vidas”.