Está visto. O racismo é mais sensível do que se quer. Desde que a presença de cidadãos negros começou a se destacar na política portuguesa, a estrutura parlamentar ganhou uma dinâmica inédita de fascínio e repúdio compulsivo. Antes, quando deputados desagradavam o povo dizia-se algo como “sai do governo”, agora, com esta proliferação étnica e desconfiança, é recorrente o berro “vai para a tua terra”. O português mais tradicional e conservador tem dificuldade em entender que todos os políticos são portugueses, e que nenhum negro, português, precisa da autorização conservadora para participar na democracia. É necessário frisar que, nascido no estrangeiro ou não, o cidadão que vive e contribuiu, por anos e décadas, nas dinâmicas económicas e culturais a nível nacional, não será uma figura fantasma nos olhos da política portuguesa. Um representante minoritário, português e contribuinte, tem tantos direitos como qualquer outro cidadão; e quem, negro, chegou a algum tipo de poder, assim o fez através do seu esforço e não pela permissão especial de algum tipo de casta.

Independentemente das cores ou origens, as pessoas são responsáveis pelo espaço presente onde se inserem. O cidadão de minoria étnica tem tanto conhecimento das ruas e vivências, em Portugal, como qualquer cidadão branco; por tal, o negro é alguém imprescindível para debater soluções modernas e localizadas. A ideia de humanos inativos por residência é absurda para qualquer nação de emigrantes e imigrantes. Diga-se de passagem que, devido às suas insuficiências económicas e sendo parte das comunidades que mais residem em zonas precárias, os cidadãos das minorias são os que melhor podem retratar as dificuldades existentes nas periferias ignoradas pelo público elitista.

Com a crescente presença multicultural na política, mais se constata que quando alguém como o Mamadou Ba, ou a Joacine Moreira, erra nas suas funções ou excede acusações que ferem a impermeabilidade tradicional, o contra-ataque do público é diversas vezes dirigido com cunhos racistas. A cor da pele torna-se um utensílio fácil para demover e humilhar dirigentes associativos ou deputados negros. Vê-se pessoas de diversos sectores que, descontentes com o atrevimento de indivíduos que não as interessam, recorrem a ofensas colonialistas iguais aos de pôr o “preto no seu lugar”.

Depois das ofensas feitas, quando se lhes diz que é racismo, vêm com a nova máxima de imunidade que afirma que todos têm cores bonitas e ninguém deverá se ofender por ser tratado por “preto”, ou que o racismo é na verdade um conceito de vitimização contra os que tratam negros pelo nome de tonalidades características. Sendo a atitude racista um impulso fomentado pela vantagem estrutural e um “equívoco” popular que, na sua imaginação, desvaloriza a capacidade e comparticipação de indivíduos de determinada etnia, a adjetivação através da cor preta ou termo similar é, neste contexto propositado, legitimamente ofensiva.

Ao contrário, o termo “branco” não tem a conotação histórica pejorativa nem é, geralmente, usado por pessoas em intenção de agressividade. Será sempre má “brincadeira” usar termos de origens racistas a fins de jogo político, principalmente em público — a subtil noção de denegrição popular é capaz de incentivar pensamentos de violência em qualquer pessoa com um pouco de privilégio a mais, mas que ainda vive precariedades e procura a sua auto afirmação vendo-se como guarda das supostas imundícies exclusivas às comunidades menos inseridas. O politicamente “incorreto” é bom para pôr “pontos” nos “is”, mas é demasiadas vezes abrangente, passando a ser ótimo para humilhar quem inocentemente se confronta com realidade da invisibilidade social. A insensibilidade de imensos portugueses se reflete na resistência patológica contra qualquer “de cor” que ouse se afirmar como português digno de regalias adquiridas em Portugal.

É lamentável ver a democracia portuguesa corrompida por estas influências discriminatórias. A prova de que o racismo existe, a pairar sobre as relações interpessoais, é visível na disputa de votos entre os que não toleram a participação dos “outros” e os que querem desesperadamente impor a sua representatividade nas decisões parlamentares. Esta luta extrema — entre puritanos e coloridos, ou conservadores e liberais —, escondida entre superficialidades formais, é sinal da aproximação de tempos em que, com a natural intensificação da mobilidade global, a democracia só se revalidará depois de se repensar esta relação equívoca entre etnia e nação.