Rádio Observador

Discriminação

A Universidade e a raça

Autor
  • Ricardo Cabral
643

É pena ver parte dos políticos a não abordar os assuntos raciais com a maturidade necessária. É triste saber que Portugal é governado por quem desconhece a verdadeira e diversa realidade portuguesa.

A favor das causas de inserção social, o Bloco de Esquerda apresentou um relatório com a proposta de estudo para quotas nas universidades, assinado pela deputada Catarina Marcelino, com a intenção de motivar negros e ciganos a terem maior presença no ensino superior. Como seria de esperar, os opositores demonstraram descontentamento e reivindicaram a suposta injustiça que prejudicaria a igualdade de oportunidades; prejudicando, essencialmente, os alunos representantes da maioria branca.

Sem pôr em causa a relevância da ideologia de meritocracia nos ingressos para os cursos, o problema das minorias étnicas é, também, urgente e complexo; a desistência em formação pessoal começa, normalmente, antes, quando o jovem da minoria está na escola. É durante esse período, e idade precoce, que o aluno se depara com as formalidades de uma sociedade que não partilha a mesma linguagem, apesar do idioma comum. Por norma, ao ter contato com a comunidade dominante, o jovem aventura-se para além das barreiras da sua pequena realidade que, por sua vez, é escoltada como se fosse um forte de bens identitários que preservam a sua única condição não subalterna; num país em que poucos se interessam em valorizar as raízes do dito jovem, a mescla de cultura familiar e local será o seu único e real auto posicionamento em contexto social — afirmação essa que lhe justifica alguma segurança garantida pela empatia dos semelhantes possuidores da mesma identidade. Os hábitos da cultura ancestral e a vivência do “ghetto” nas periferias tornam-se auto afirmações radicais para grupos de pessoas que são, no imaginário popular, encarados como sujeitos subjetivos.

Um afro descendente português é, por exemplo, a personificação do que a idealização extrema nacionalista ignora ou não compreende. O jovem que nasceu em Lisboa e vive a cultura portuguesa, mas que, também, identifica-se com hábitos profundos de Angola ou Guiné, é um incógnito não assumido pelos conservadores da identidade portuguesa. A repulsa racial é um incentivo para que o jovem afirme, em auto defesa, a sua diferença e contra-cultura; apesar de, politicamente, ser português, é, informalmente, visto como uma espécie de adoção nacional e ele não tem dificuldade em se aperceber dessa sua condição trágica. Para piorar, nas escolas, o ensino de idealização nacionalista e branca vangloria-se ignorando a presença de estudantes que, não sendo brancos, também procuram conhecer-se através de valores geográficos, históricos e sociais.

Para os ciganos, a história é mais antiga, mas a base é idêntica. Os ciganos assumiram uma postura de contra-cultura há vários séculos e numa escala, originalmente, continental. Repare-se que, sendo etnicamente originários de povos da antiga Índia, alastraram-se pela Europa no final do Reino do Leão, antes de Portugal ser independente e durante o tempo em que o poder egocêntrico da Europa já tinha forma. Os ciganos foram desde o início vistos como humanos inferiores; foram, também, traficados como escravos, perseguidos e abandonados às margens das cidades por terem características não tradicionais para os europeus nativos. Por esse motivo, desde os primeiros contatos e vagas de viajem pelo Médio Oriente até o Ocidente, os ciganos assumiram, de forma natural, uma postura de sobrevivência que consistia em manterem-se fiéis aos costumes originais, enquanto iam assumindo hábitos locais e europeus. Vistos como deploráveis, por séculos, as suas culturas moldaram-se de forma a que, hoje, muitos ainda se protejam recorrendo a uma política de restrição e auto subsistência étnica. Esta atitude cultural apenas reflete o básico do Ser humano: medo, insegurança e aflição.

Podemos dizer que tanto o negro como o cigano português são socialmente inseguros; o típico conservador não compreende isso — o nacionalista e supremacista branco reage, também, com a sua própria insegurança e, por tal, fomenta constantemente atitudes extremas e irracionais.

As escolas portuguesas, nas periferias, chegam a ser que nem alguns polícias ou representantes físicos da reação e ideal supremacista; são veículos de formatação social que vêm urgência em selecionar os negros ou ciganos que se comportam como subalternos à posição da elite caucasiana e condenam à precariedade os que, em punhos serrados, adotam a contra-cultura que ameaça a supremacia histórica. Essas escolas, como todas as outras, deveriam reconhecer a diversidade da cultura portuguesa; deveriam considerar todas as diferenças étnicas como currículo de incentivo para que todos se sintam parte de uma comunidade principal. Enquanto a postura de educação for a de guerra insensível contra o auto reconhecimento dos alunos, mais rejeições e desistências existirão.

Se optarmos por resumir as culpas e as atribuir aos pais dos jovens não caucasianos, talvez devêssemos, antes, perceber quem são esses senhores — pelo menos sabemos que muitos já são portugueses — ; perceber qual é a sua familiaridade com a vida académica, quais são as particularidades do seu nicho étnico, quais são as suas prioridades, quais as dificuldades ou qual o seu nível de integração nacional. Sem conhecer o mínimo da base original das pessoas, não é possível exigir que, em troca, conheçam condutas alheias ou portuguesas.

O ideal português, ao invés de festejar a atual diversidade, prefere fingir que o português moderno não se expressa em crioulo nos intervalos das falas, não troca o fado pela kizomba ou não é cigano quando está fora de formalidades. Por estas fantasias brancas e desatualizadas, Portugal é um Estado, ainda, socialmente imprudente e imaturo.

O esforço dos portugueses, brancos, pretos ou ciganos, deve ser investido na transparência e partilha dos problemas particulares e comuns. Todos merecem representatividade e voz. A questão financeira tem peso e influência a representatividade de qualquer um, independente da sua cor, e não há benefício em acrescentar à problemática das classes, o problema da alienação ou desprezo identitário sobre os diferentes grupos. A culpa do desapego étnico no ensino superior ou instituições portuguesas é nacional. Infelizmente, por reação e diversas vezes, as minorias limitam-se a posicionar-se onde todos as esperam: na sombra nacional. Sobre isso, o erro vem da imaturidade de todas as partes étnicas — todos como portugueses.

É uma grande pena ver parte dos políticos a não abordar os assuntos raciais com a maturidade necessária. É lamentável saber que os atuais portugueses são governados por pessoas que desconhecem a verdadeira e diversa realidade portuguesa.

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