Em Portugal, ser casado e pai de três filhos é uma jornada de amor e responsabilidade, mas também de preocupação com o futuro. Olho para os meus filhos, nascidos em 2019, 2021 e 2023, e interrogo-me: estamos a criá-los para a emigração? Para uma fuga em busca de oportunidades que o nosso próprio país lhes nega?

O sonho de qualquer pai é proporcionar aos seus filhos uma vida digna, com estabilidade e segurança. No entanto, a realidade em Portugal desafia esse ideal. Comprar casa tornou-se um luxo inalcançável para muitas famílias. O acesso à saúde enfrenta tempos de espera intermináveis e uma falta crónica de profissionais. A educação, apesar de ser quase gratuita no ensino público, depara-se com falhas estruturais, escolas sem recursos e professores desmotivados. A capacidade de construir uma vida próspera e generosa parece um privilégio restrito a poucos.

Não podemos ignorar os números. Segundo o INE, nos últimos anos, mais de 100 mil portugueses por ano têm emigrado em busca de melhores condições de vida. Jovens qualificados saem porque os seus esforços académicos não são recompensados com salários justos. As famílias partem porque não conseguem suportar o custo de vida. A fuga de talento e mão de obra é um problema estrutural que empobrece o país a longo prazo, mas também se faz sentir a cada dia que passa.

A crise habitacional é um dos maiores bloqueios ao progresso. Os preços das casas atingem valores absurdos, muito acima da capacidade financeira da maioria dos portugueses. O arrendamento, antes alternativa viável, é hoje um labirinto de preços especulativos e contratos precários. A promessa de um teto seguro e estável para os nossos filhos parece distante.

Na saúde, os problemas acumulam-se. Faltam médicos de família, consultas adiadas por meses, hospitais subfinanciados. Um sistema que deveria garantir o direito à vida e ao bem-estar tornou-se um campo de batalha entre utentes desesperados e profissionais sobrecarregados.

E a educação? Se queremos um futuro melhor para os nossos filhos, este deveria ser o nosso investimento prioritário. No entanto, assistimos a greves recorrentes, falta de professores e programas desajustados à realidade do mercado de trabalho. Como podemos esperar que os nossos filhos fiquem em Portugal se o próprio país não lhes oferece uma base sólida para crescerem?

A solidez de uma nação mede-se pela qualidade de vida que proporciona aos seus cidadãos. Portugal precisa urgentemente de reformas estruturais para inverter esta tendência de emigração em massa. São necessárias políticas públicas eficazes para tornar a habitação acessível, reforçar o SNS e modernizar o sistema educativo.

Se olharmos para a Dinamarca, vemos um exemplo de sucesso em termos de qualidade de vida e retenção de talento. Entre 2005 e 2015, o crescimento médio do PIB dinamarquês foi de 1,2%, enquanto Portugal enfrentava uma crise económica que limitou o crescimento a apenas 0,8%. Entre 2015 e 2025, as previsões apontam para um crescimento médio de 1,7% na Dinamarca e 1,5% em Portugal, um sinal de recuperação, mas ainda aquém do necessário para evitar a fuga de talento.

A Dinamarca investe fortemente em educação, saúde e habitação acessível, garantindo condições que motivam os jovens a permanecer no país. Em Portugal, a realidade é diferente. A emigração jovem é uma constante, com cerca de 75.000 portugueses a deixarem o país em 2023. Mais alarmante ainda, 73% dos jovens ponderam emigrar após terminarem os estudos, o que pode representar uma perda anual de 2 mil milhões de euros para a economia nacional.

Para travar esta fuga, Portugal precisa de medidas estruturais. O governo tem anunciado isenções fiscais para jovens entre os 18 e os 35 anos, mas essa medida isolada não é suficiente. Precisamos de empregos mais bem pagos e mais qualificados. Uma educação de excelência e um sistema de saúde funcional são pilares fundamentais para garantir que os nossos filhos tenham um futuro promissor sem precisarem sair do país.

Se nada for feito, o ciclo continua e vamos adiar por mais 10 anos, como foi de 2005 para 2015, de 2015 para 2025. Mas será que em 2035 Portugal estará melhor? Os pais de hoje vão assistir aos seus filhos partirem, na esperança de uma vida melhor noutro país. Mas se tivermos coragem de exigir mudança e trabalhar por ela, talvez possamos construir um Portugal onde as próximas gerações possam não apenas viver, mas prosperar.

A decisão não é apenas dos governantes. É de todos nós. Pode ser um sonho, mas será que de uma vez por todas em 2025, vamos conseguir lançar as sementes para os próximos anos em Portugal?

Mais uma vez estaremos a ser chamados a eleições legislativas, o Parlamento vai ter uma nova configuração, cabe a cada um de nós decidir o seu voto, mas creio que também é necessário refundar e reformar o Sistema Eleitoral, afinal os distritos condicionam o voto útil e escolhemos um PM em vez de deputados.

Lanço por fim um apelo muito pessoal: o futuro dos nossos filhos deve ser aqui. E ser melhor.

Não conheço maior fornecedor de surpresas do que a política e lamento tudo o que o país está a passar. É preciso entendimento, acordos e acabar de vez com fragmentações e espectáculos.

Quero um futuro melhor para os meus filhos e que os avós possam ver os netos crescer.

Apelo que seja possível uma solução parlamentar estável a longo prazo