Há épocas em que a cultura deixa escapar aquilo que a filosofia já não consegue dizer. É de Nietzsche a confissão de que “só acreditaria num Deus que soubesse dançar.” Com ela, o filósofo alemão queria libertar Deus, e a Humanidade, dessa gravidade sisuda que sufoca a vida e a transforma numa coleção de medos e impossibilidades. Hoje, Rosalía, no seu mais recente disco, parece reinterpretar essa intuição cantando: “o meu Deus chora diamantes”, acrescentando, em seguida, “o amor que não se escolhe, não se abandona”. Vivemos numa era que pede escolhas como quem pede identificação: decide, posiciona-te, reage. Somos consumidores do voluntarismo — e simultaneamente suas vítimas.

Rosalía, no seu novo disco, parece regressar a uma verdade mais antiga do que a modernidade. Há quem ouça nisso apenas um leve lirismo, mas há ali um gesto mais sério: o reconhecimento de que a transcendência, quando regressa, já não o faz com autoridade, mas com ferida. Um Deus que chora diamantes é um Deus cuja dor cintila porque já não sabe como falar connosco. Não é uma ideia religiosa; é um diagnóstico civilizacional.

A cada geração, acreditamos que somos nós a escolher. Escolhemos carreiras, identidades, causas, pertenças. Acreditamos que a liberdade se mede pelo número de decisões que conseguimos acumular. Mas há um ponto em que a autonomia se torna apenas outro mecanismo de coerção. Quando a cultura proclama que tudo é possível, o indivíduo aprende que tudo é insuficiente. O que Rosalía faz, talvez sem intenção explícita, é expor esta contradição.

A arte, no entanto, corre o risco constante de se tornar um adorno. A indústria entende isto melhor do que nós: converte inquietações metafísicas em merchandising emocional. E o público, exausto, agradece. Afinal, é mais fácil comprar a sensação de profundidade do que suportar o seu peso real. Por isso mesmo, aquilo que mais facilmente destruiria este disco seria a nossa ânsia de o domesticar — de o usar como mais um espelho narcisista, como prova de que somos sofisticados, espiritualmente abertos, modernamente inquietos. Mas a arte que vale a pena não confirma ninguém: abre fissuras. Convida ao desconforto. Obriga-nos a reconhecer que há perguntas que regressam mesmo quando julgávamos já não precisar delas.

Quando a cultura fala de Deus, é porque Deus nunca deixou realmente de falar à cultura. A cultura pop tornou-se o lugar onde procuramos aquilo que já não esperamos da política nem da religião. Não porque acreditemos verdadeiramente na sua autoridade, mas porque deixou de haver outra. O sagrado não desapareceu; apenas migrou. Mas este “regresso ao religioso” pode ser instrumentalizado e a espiritualidade pode tornar-se uma forma de marketing da transcendência.

Quando Rosalía mistura dor e prazer — “a minha dor anestesia o prazer, o prazer anestesia a minha dor” — não está a descrever apenas uma experiência pessoal: está a mapear uma condição coletiva. Vivemos pendurados entre excitação e burnout, entre excesso e ausência. E é sintomático que a artista se descreva como “um cubo de açúcar que o calor derrete”, quando só queremos absorver, depois sugar, em seguida secar. Nunca derreter. Rosalía que parece metade Maria Callas e metade Tupac, mãos de Patti Smith e pés de Joana d’Arc, surge com algo a dizer, e fá-lo citando Simone Weil: “o amor não é consolo, mas luz”.