Cultura

O “mister” Jesus, um mau treinador

Autor
1.460

Todos os dias aparecem novas ‘evidências arqueológicas’ acerca de Jesus mas, que se saiba, ainda ninguém negou que Jesus de Nazaré, depois de carpinteiro, foi mesmo treinador.

Muito se tem dito e escrito sobre Jesus. Alguns não escondem o seu despeito por alguém que consideram materialista, interesseiro e oportunista. Outros, pelo contrário, olham com expectativa para o novo messias, de quem esperam o milagre da taça, condição necessária para que uma esponja limpe o seu passado de subserviência ao adversário. Num ambiente ainda crispado pelas emoções, não é fácil chegar a um veredicto objectivo e desapaixonado. Mas, mesmo que persistam algumas dúvidas, uma conclusão pode ser desde já adiantada: Jesus não é, decididamente, um bom treinador.

Talvez alguns pensem que quem o diz é um lampião ressentido, que quer aproveitar este espaço para verter o seu ressabiamento clubístico, ou então um fervoroso adepto do seu eterno rival, agora detentor do promissor treinador. Nem uma coisa, nem outra. Na realidade, o mister a que se refere esta crónica nem sequer é o alvo dos noticiários desportivos destes últimos tempos, mas um seu remoto homónimo que, há coisa de dois mil anos, também foi um polémico treinador.

Não consta que Jesus, o outro, tenha alguma vez assumido quaisquer funções directivas no clube futebolístico de Nazaré que, a ter existido, não deixou rasto. Todos os dias aparecem novas ‘evidências arqueológicas’ acerca de Jesus mas, que se saiba, ainda ninguém negou que Jesus de Nazaré, depois de carpinteiro, foi mesmo treinador.

Com efeito, quando começou o seu magistério público, Cristo escolheu uma equipa de colaboradores, os apóstolos. Se onze são os jogadores de uma equipa de futebol, doze eram os discípulos mais próximos do galileu, embora tivesse muitos mais adeptos porque, numa ocasião, enviou setenta e dois destes a pregar. Entre estes últimos devia haver todo o tipo de gentes, mas aqueles doze eram a sua selecção, porque foram pessoalmente escolhidos pelo Mister.

Acontece, contudo, que aquela equipa deixava muito a desejar. Em termos intelectuais, aqueles jogadores eram bastante primários. Não eram propriamente pessoas muito inteligentes, porque não entendiam, muitas vezes, o que o Mister lhes dizia nos treinos. Para suprir esta sua insuficiência, Jesus tinha que lhes dar explicações suplementares, como se costuma fazer com os maus alunos.

Do ponto de vista táctico, eram também bastante limitados: enquanto o Mister lhes falava continuamente de um outro campeonato, o do reino dos céus, as suas expectativas não iam além do título de campeão nacional. Em vez de temerem a equipa do maligno, o principal adversário, receavam a formação rival dos fariseus.

Também não eram grandes corações: abundavam, entre eles, as discussões de balneário, por mesquinhas rivalidades. Numa ocasião, quando a equipa, a caminho de Jerusalém, foi mal recebida na Samaria, Tiago e João quiseram que descesse fogo do céu e destruísse os samaritanos, ao jeito do moderno apedrejamento dos autocarros das equipas contrárias. Quando uma desesperada fã suplicou a Jesus, aos gritos, a cura da filha muito doente, em vez de dela se compadecerem ou de por ela intercederem, pediram ao Mister que mandasse calar a mãe, o que também não denota bons sentimentos (Mt 15, 21-28).

Seriam, pelo menos, piedosos? Não parece, porque Cristo retirava-se sempre sozinho para os lugares onde, de madrugada ou à noite, rezava. Mesmo quando, na iminência da grande final, pediu à sua equipa que se concentrasse e se unisse à sua prece, no estádio do horto das oliveiras, não o logrou e ficou, mais uma vez, só. Foi aliás sozinho que ele ganhou a copa do mundo (Jo 16, 33).

Mesmo em termos físicos, a selecção deixava muito a desejar. Bartolomeu, também chamado Natanael, foi apanhado a dormitar debaixo de uma figueira. Tomé, outro dos jogadores, tinha tão pouco espírito de equipa que só acreditava nos golos que via. Filipe, também titular, queria ver o presidente do clube, por duvidar que ele e o Mister fossem um só. Mais estranho é que o veterano da equipa, Simão, apesar de ter negado por três vezes o treinador, que o chamou Satanás, ou seja o nome do presidente do clube maligno, não viu rescindido o seu contrato, nem sequer deixou de ser o capitão da equipa! Pior ainda: o traidor, Judas, que era ladrão e roubava para a equipa contrária, tinha sido igualmente escolhido pelo treinador que, sabendo da sua má índole, nunca o deveria ter contratado.

Será que um tão rotundo falhanço se ficou a dever à falta de bons candidatos? De modo algum porque, entre os contemporâneos do Mister de Nazaré, encontrava-se o seu primo João Baptista, um autêntico campeão da fé, e seu amigo Lázaro, que ele ressuscitou e que, portanto, depois dessa fantástica recuperação, deveria estar em excelente condição física.

Até tinha quem lhe financiasse os passes mais custosos, porque eram seus amigos Nicodemos, “um chefe dos judeus” (Jo 3, 1); Maria, que lhe ofereceu “uma libra de perfume feito de nardo de grande preço” (Jo 12, 3); e José de Arimateia, o abastado discípulo em cujo sepulcro ele viria a ser sepultado (Mt 27, 57). Nenhum presidente de clube lhe fechou a torneira das contratações, nem nenhum constrangimento orçamental o impediu de optar pelos melhores da Galileia, da Judeia e da Samaria.

Como afirmou Marcos, uma espécie de redactor do jornal desportivo da época, o Mister escolheu “os que quis” (Mc 1, 13). Quer isto dizer, sem sombra de dúvida, que ele, o treinador, foi o único responsável pelo seu próprio plantel.

Não, decididamente Jesus não foi um bom treinador. A equipa que ele formou era, a todos os títulos, lamentável. Ninguém contrata jogadores tão fracos como aqueles que o Mister de Nazaré, consciente e voluntariamente, escolheu. Porque o fez?! Talvez para que ninguém se sinta, por aselha que seja, indigno desta equipa, a Igreja, para a qual ele chama todos os homens e mulheres, garantindo a todos os que nela perseverarem por amor, a vitória final.

Sacerdote católico     

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Páscoa

O testamento de Jesus Cristo /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
893

Deixo à Igreja o meu coração (...) que é fonte inesgotável de perdão e graça para quantos, absolvidos dos seus pecados pelo sacramento da penitência, me recebem no santíssimo sacramento da Eucaristia.

Páscoa

Judas Iscariotes reabilitado /premium

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
475

Apesar da traição, Judas Iscariotes provavelmente arrependeu-se e salvou-se: onde há contrição e esperança, a misericórdia não pode faltar!

Museus

Preservação do Património Cultural

Bernardo Cabral Meneses

As catástrofes ocorridas no Rio de Janeiro e em Paris deverão servir de exemplo para ser reforçada a segurança contra incêndios nos edifícios e em particular nos museus portugueses.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)