Fazer exames é dar de comer a um milhão de portugueses. Durante o ano explicadores explicam, professores professam e alunos alunam. Todos vivem de exames e quase ninguém paga impostos. Na altura das colheitas, ranchos de raparigas levam por essas terras perguntas secretas sobre física e Cesário Verde. Nenhuma seara fica por ceifar, nenhuma messe é desaproveitada, ninguém fica por examinar: mesmo que chegue atrasado, enviúve, ou não queira. Há sempre mais uma oportunidade, e mais uma fase, e mais uma época, e mais um recurso.
A questão misteriosa não é a de saber para que servem os exames, mas a de saber aquilo que um exame examina. O consenso é que examina o que as pessoas sabem. Mas onde é que estará o que alguém sabe? Apesar de o saber não ocupar lugar, terá de estar num lugar qualquer. Os candidatos são: a cabeça, o cérebro e a mente. Na cabeça é menos provável, porque a física não é como um carapuço; e em matérias de saber o cérebro é como o coração em matérias de amor: um pouco de organismo a que por tradição se imputam certas atitudes.
Resta a mente, que jamais alguém viu, mas onde por exclusão de partes talvez repousem a física e Cesário Verde. Se for assim, um exame consiste em examinar a mente dos examinandos, e mais propriamente em encontrar lá a matéria. Os exames vivem da relação entre mente e matéria. Durante o ano, a matéria vai parar à mente; e na altura das colheitas retira-se da mente toda a matéria que lá haja. Mas ao contrário da espiga, que é diferente da semente, nos exames recompensa-se a matéria que ainda esteja na mente no estado em que foi lá parar.
Reside aqui a dificuldade logística dos exames. O comportamento de quem sabe física ou Cesário Verde não permite aos examinadores determinar se sabe a matéria; nem quem sabe a matéria apresenta sinais particulares, como manchas na pele. Para aceder à mente dos examinandos é preciso fazer-lhes perguntas; e fazer exames consiste também em inventar essas perguntas. Não basta porém fazer perguntas: é também preciso que quem lhes responda esteja a falar a sério, ou seja, que acredite no que está a dizer; e que queira dizer o que diz.
Quem faz um exame tenta imitar os seus professores ou explicadores a falar. Segue-se que, tal como quando um actor imita alguém a falar não se pode presumir que acredita no que está a dizer, assim para fazer um exame não é preciso acreditar no que se escreve. O mesmo acontece aos examinadores. Por exemplo, as perguntas dos exames sobre Cesário Verde imitam Cesário Verde a falar; e não permitem presumir que os examinadores estejam a falar a sério. De facto, só sem convicções é possível fazer exames, e dar de comer a tantos portugueses.